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SUS, Saúde e Cidadania

Brasil e Reino Unido realizam atividades de campo em Duque de Caxias e reforçam aprendizado sobre o sistema de saúde brasileiro


Fotografia: Raphaela Ribeiro

POR Daiane Batista

PUBLICADO 22/04/2026

“O grupo que nós trouxemos desta vez tem muito a aprender com o sistema de saúde brasileiro”, avalia o coordenador do programa de Agentes Comunitários de Saúde em Londres, Matthew Harris, em sua terceira visita a Duque de Caxias, realizada no âmbito da parceria entre o Laboratório de Resiliência em Saúde Pública (ResiliSUS), do CEE-Fiocruz, e o Imperial College London.

A declaração expressa a importância do intercâmbio internacional realizado no dia 16 de abril, na Unidade Básica de Saúde (UBS) Enir Angela Biciati Moreira, no bairro de Santo Antônio da Serra, em Duque de Caxias (RJ), reunindo profissionais brasileiros e ingleses em atividades de campo e debates sobre atenção primária. Apesar das diferenças entre os contextos, há aprendizados em comum e “a língua e a cultura não são obstáculos para essa troca”, como observou Mattew. A visita, que contou com a participação dos pesquisadores Hugo Bellas e Jaqueline Viana, do ResiliSUS/CEE-Fiocruz, fez parte da programação do workshop Resiliência em sistemas de saúde diante das mudanças climáticas, realizado no CEE, de 13 a 17/4/2026.

Durante a visita de campo, os participantes foram divididos em três grupos, compostos por agentes comunitários de saúde (ACS) dos dois países – no Reino Unido, eles são os Community Health and Wellbeing Workers (CHWWs). A proposta foi proporcionar uma imersão no território, permitindo que os profissionais estrangeiros conhecessem de perto tanto a estrutura da unidade quanto a dinâmica do trabalho desenvolvido pelos agentes brasileiros com a população atendida.

Além da apresentação da UBS, os grupos realizaram visitas domiciliares, acompanhando o deslocamento e as práticas cotidianas dos ACS. A vivência permitiu que os profissionais britânicos observassem de perto aspectos centrais do trabalho no Brasil, como a relação com as famílias e o conhecimento do território.

“Nossos ACSs queriam conhecer o território, seu tamanho e ver de perto os tipos de problemas das microáreas e aprender como fazer o trabalho, como fazer as visitas aos familiares, que tipo de pessoa vira um bom agente, como ser profissional de saúde”, pontuou Mattew.

A presença do parlamentar britânico Simon Opher reforçou o interesse institucional na experiência brasileira, conforme destacou. Durante a visita de campo, Opher acompanhou de perto a rotina dos agentes no território. “Caminhei com agentes comunitários de saúde brasileiros e vi o incrível poder que isso pode trazer para o NHS. O que mais me impressionou foi a continuidade do cuidado oferecido aos pacientes e a maneira como o agente comunitário de saúde tem um conhecimento específico de todos os pacientes em suas visitas”, relatou parlamentar.

A vivência no território impactou diretamente os profissionais britânicos. Para a agente Sophie Kurpashvili, a experiência evidenciou tanto as semelhanças quanto os aprendizados possíveis entre os dois contextos.

“Depois de passar um dia com agentes comunitários de saúde aqui no Brasil, fiquei realmente impressionada com a semelhança entre o trabalho que realizamos e os problemas que as pessoas enfrentam, mesmo estando tão distantes. Foi uma experiência incrível aprender quão bem integrados eles são ao sistema de atenção primária e como conseguem acionar diferentes profissionais para tratar uma família como um todo”, relatou.

Segundo ela, um dos principais aprendizados está na forma de organização do cuidado. “A principal lição que levarei para minha equipe em Londres será trabalhar na nossa integração, na forma como nos comunicamos com diferentes equipes para apoiar os indivíduos de forma holística e liderar com o coração, em vez de focar apenas em soluções”, disse.

A percepção sobre o território e a complexidade do trabalho também foi destacada pela agente Adeye Kesete. “A quantidade de conhecimento que se tem aqui sobre o território, o nível de conexão com a clínica e a intensidade das caminhadas necessárias para visitar os moradores da microárea tornam o trabalho bastante desafiador”, avaliou.

Emocionada, ela também ressaltou o impacto da experiência. “Estar aqui foi surreal para mim. Nunca imaginei que estaria no Brasil. Amo o meu trabalho, amo o que faço e me importo com as pessoas. Saber que tudo começou aqui, estar no coração de onde tudo começou, me emocionou. Eu venho da Etiópia, um país em desenvolvimento, e isso me fez lembrar de lá”, disse Adeye.

Sua colega Jasmine Antionette Merry Blackmoore, chamou atenção para a relação entre os moradores e os agentes comunitários de saúde. “Foi muito marcante ver o acesso ao centro de saúde e a um médico de família”, disse.

Para ela, essa realidade contrasta com o contexto do Reino Unido. “Em muitos aspectos, perdemos esse senso de comunidade, e a maioria das pessoas não tem um médico de família que as acompanhe regularmente”.

A experiência, segundo Jasmine, foi inspiradora. “Quero levar esse cuidado e esse sentimento de conexão de volta para Cornwall. Foi uma experiência muito revigorante”.

De acordo com Matthew Harris, apesar das diferenças entre os sistemas de saúde, há muitas semelhanças na realidade vivida pelas populações. “Pessoas são pessoas. Elas precisam de informação, de apoio e de confiança, além de orientação sobre como acessar o sistema de saúde. Então, apesar das diferenças entre nossos contextos, há muito em comum. Isso toca nessa questão emocional”, considerou.

No período da tarde, a agenda seguiu na Secretaria Municipal de Saúde de Duque de Caxias, com um encontro institucional entre a comitiva e representantes da gestão local, incluindo a secretária e o subsecretário de Saúde. O momento foi dedicado à troca de experiências e ao debate sobre cooperação internacional.

Matthew destacou que um dos desafios no Reino Unido é justamente integrar esse modelo a uma estrutura já consolidada. “Nós já tínhamos a atenção básica bem estabelecida e estamos inserindo um novo papel. Então, precisamos de uma mudança de comportamento. Os médicos precisam entender a importância e o potencial do agente de saúde. Essa troca estamos construindo ainda”, explicou.

A presença de Opher também é estratégica nesse processo, ao aproximar a experiência de possíveis decisões no campo das políticas públicas. “A ideia é influenciar o nosso governo, na política de saúde inglesa. Ele admira muito o sistema de saúde brasileiro e está inspirado pelo papel do ACS”, afirmou Matthew.

O programa britânico está em fase inicial. “Hoje nós temos mais ou menos duzentos ACS em cerca de vinte localidades. Estamos no início do nosso programa nacional. Essa missão ajuda não só na visibilidade do papel do ACS. Os participantes vão compartilhar essa experiência quando voltarem. Isso vai amplificando a nossa missão. Aos poucos nós vamos chegar lá”, concluiu.

Fotografias: Raphaela Ribeiro

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