O Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz marcou presença no Fisweek 2025, o maior evento de novação, criatividade e tendências em saúde no Brasil, que abrigou, ainda, dois outros encontros, também com participação do Centro – o Rio Health Fórum e o Fórum Big Data em Oncologia. A Fisweek foi realizada entre os dias 5 e 7 de novembro, na ExpoRio Cidade Nova, no Rio de Janeiro, reunindo profissionais, pesquisadores e gestores de saúde. Confira a seguir as exposições dos pesquisadores do Centro.
Desenvolvimento, sustentabilidade e compromisso social
Na abertura do Rio Health Fórum, realizada no dia 5 de novembro, o coordenador do projeto Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS do CEE-Fiocruz, Carlos Gadelha, participou do painel Oportunidades nas relações multilaterais pelo CEIS. Em sua intervenção, Gadelha defendeu a ampliação das cooperações internacionais voltadas à saúde e à soberania tecnológica do país, destacando que “são necessárias relações multilaterais em benefício da vida, gerando tecnologia, inovação e produção nacional orientadas pelas demandas de saúde”.
O pesquisador também enfatizou a importância de políticas públicas inovadoras que conciliem desenvolvimento, sustentabilidade e compromisso social. “Ficou claro que é possível uma visão de política pública empreendendo projetos que carregam o futuro, desde que comprometidos com a vida e a sustentabilidade ambiental”.
O evento contou ainda com a participação de Jarbas Barbosa, diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Leandro Safatle, diretor-presidente da Anvisa, e Adriano Massuda, secretário executivo do Ministério da Saúde. Os palestrantes reforçaram a importância do papel do Complexo Econômico-Industrial da Saúde como motor fundamental, ao articular inovação, produção e políticas públicas voltadas para o bem-estar da população.
Já no dia 6 de novembro, o painel Acelerando a Produção Nacional de Medicamentos de Alto Custo, também com a participação de Gadelha, trouxe à tona os desafios para garantir o acesso universal e a sustentabilidade do SUS diante das novas demandas tecnológicas. Para o pesquisador, a produção nacional é fundamental para garantir autonomia e equidade: “Temos o grande desafio de produzir nacionalmente e em larga escala para atender ao país com preços acessíveis e que viabilizem a inovação tecnológica, mas a inovação tecnológica para as pessoas. Respeitando a lógica empresarial, mas com o Estado dando uma direção clara para o desenvolvimento do SUS e a viabilização do acesso universal.”
O Brasil em um momento de reorganização das cadeias produtivas
Também no âmbito do Rio Health Forum, o coordenador do CEE-Fiocruz, Rômulo Paes de Sousa, participou do painel Impactos e Oportunidades na Reorganização da Saúde Global. Conforme analisou, vivemos uma crise de governança global que talvez seja a mais importante depois da Segunda Guerra Mundial. “Houve, ao longo da história, reações diversas a essa governança, pelos países em condições de desafiar os acordos globais. Mas nunca em um nível como o atual, continuado, contundente e desagregador, no que se refere à aliança global, observou.
Rômulo analisou o cenário global também a partir da pandemia de Covid-19, que “revelou o grau de fragilidade das cadeias produtivas no mundo, em função da hiperconcentração da atividade produtiva de alto valor agregado na Ásia”, apontou, destacando a capacidade da China em converter a condição de mão de obra de baixo custo em em uma condição de polo produtivo. “Isso é surpreendente”, considerou, lembrando que países como Índia, Bangladesh e Coreia do Sul podem descrever trajetória semelhante.
Quanto ao Brasil, avaliou Rômulo, observa-se uma dependência mais acentuada, “porque nós somos muito capturados pela lógica da produção de commodities”, há mais de cinco séculos. “Agora, novamente, as duas grandes estratégias de desenvolvimento do Brasil, uma está centrada na exploração de combustível fóssil e a outra, em terras-raras”, destacou. “Os municípios, apesar de incentivos para diversificar a atividade econômica, não conseguem fazer isso”.
Ele lembrou que o Brasil, mais recentemente, retornou a uma posição de liderança importante, em um cenário no qual o sistema ONU, que se mostrava em crise, cresceu a partir de iniciativas de construção de governança global, em torno das Nações Unidas – bancos de desenvolvimento, como o Banco de Desenvolvimento Chinês, voltado principalmente para a África e para a Ásia, e a criaão do Brics. “Temos estruturas que estão crescendo em volta do sistema ONU, e, em momentos de crise, elas se fortalecem”.
Em relação à produção industrial do Brasil, é preciso haver, para Rômulo, uma grande pactuação política e econômica. Ele citou o exemplo da Dinamarca, que impulsionou sua economia com a produção de fármacos, e destacou o papel da Fiocruz, analisando os desafios impostos.
“Nós temos uma instituição que abriga a função de produção de biofármacos, temos uma presença estratégica no Brasil, mas temos constrangimentos”, disse. “O setor público é avesso ao risco, por natureza, partindo do pressuposto de não alocar recursos públicos para coisas incertas. Isso traz um constrangimento legal e a necessidade de desenvolvermos um modelo que dê conta desse tipo de coisa. O desenvolvimento de produtos é constrangido, em função de sermos uma empresa pública. Então, temos que equilibrar, digamos assim, esses vetores contraditórios. O setor público sendo hipercauteloso e a necessidade de desenvolver tecnologia de ponta nos cobrando assumir risco, sermos ousados”.
Para Rômulo, o Brasil tem instrumentos para se posicionar “nesse novo momento de reorganização das cadeias produtivas”, de passar a investir e produzir bens de maior valor agregado, mas tende a ser inibido pela cultura de produção de commodities que vem desde o período colonial. “É preciso uma mudança em termos de mentalidades, no sentido de revermos aquilo em que vamos apostar. É preciso que tenhamos uma política para isso, que seja grande o bastante e capaz de mobilizar os atores fundamentais para que isso aconteça”, recomendou.
Acesso, equidade e sustentabilidade: eixos da inovação em saúde
O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, um dos coordenadores do projeto de pesquisa Doenças Crônicas e Tecnologias de Saúde do CEE-Fiocruz, participou, no dia 5/11, da mesa Como acelerar o acesso à inovação na saúde para todos com viabilidade financeira?, ao lado de Marina Viana, CEO da Nova Health Journey (NHJ), com mediação de Márcio Bósio, diretor institucional da Abimo Dispositivos Médicos.
Temporão buscou abordar a questão do acesso a partir de cinco dimensões, “de uma perspectiva brasileira e em contexto de saúde pública”. A primeira delas referiu-se a novas modalidades de compras públicas, como no caso da aquisição da vacina da Astrazeneka contra a Covid-19, pela Fiocruz, na pandemia, antes de a vacina ficar pronta. “Foi uma encomenda tecnológica, com compartilhamento de risco entre Estado e laboratório”, explicou.
A segunda dimensão citada foi a concorrência , em que o Estado estimula as compras centralizadas pelo Ministério da Saúde, em larga escala. “Foi o que aconteceu com a compra de medicamentos para câncer de mama, com redução expressiva de preço”.
O fortalecimento das políticas de internalização de tecnologia, com redução da dependência externa, foi a terceira dimensão apontada pelo ex-ministro, que citou como exemplo a recente Estratégia de Fomento à Inovação do governo federal.
Uma quarta dimensão está relacionada à garantia de critérios clínicos claros e protocolos bem estabelecidos, com transparência e em consenso entre especialistas e sociedade, e tendo em vista o conforto do paciente. “Por exemplo, a substituição do medicamento intravenoso pelo oral”, indicou Temporão.
E, por fim, a quinta dimensão referiu-se à busca de evidências “no mundo real”, com base em resultados concretos.
Conforme observou Temporão, existe uma “reificação das tecnologias disruptivas, como solução aos problemas de saúde”. Ele citou o câncer como bom exemplo. “Estamos discutindo o último biofármaco que vai prolongar a sobrevida e esquecemos da prevenção, como a vacina contra o HPV”, disse, acrescentando uma sexta dimensão à sua análise: a criação de falsas expectativas de cura, veiculada pelas redes sociais.
O ex-ministro ressaltou que o Brasil já conta com “um robusto sistema de definição de prioridades” em inovação, com uma estrutura tripartite, envolvendo União, estados e municípios.
Uso estratégico de dados pode fortalecer ações de prevenção do câncer
O médico sanitarista Luiz Santini, ex-diretor do Inca e atualmente pesquisador associado do CEE, participou como palestrante, no dia 5, da mesa Morbimortalidade e o Câncer, no 10º Fórum Big Data em Oncologia. Santini coordena no CEE, com o ex-ministro José Gomes Temporão, o grupo Futuro das Tecnologias de Diagnóstico e Tratamento do Câncer.
O fórum é uma iniciativa do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer e do Observatório de Oncologia, plataforma, online de monitoramento de dados abertos e compartilhamento de informações relevantes para subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas à oncologia.
A mesa foi moderada por Nina Melo, coordenadora de pesquisa do Observatório e da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale). E contou com a participação de Alfredo Scaff, médico epidemiologista e coordenador de Inovação da Fundação do Câncer; João Abreu, economista e Cofundador da ImpulsoGov, organização sem fins lucrativos que apoia a gestão da saúde pública no Brasil, oferecendo soluções baseadas em dados e tecnologia para aprimorar os serviços do SUS; Nelson Correa, cientista de dados da Roche e Tiago Cepas Lobo, sanitarista e especialista em Gestão de Saúde. Durante o encontro, foi abordada a mortalidade por câncer nos municípios brasileiros e o adoecimento por câncer antes dos 50 anos, em faixas etárias cada vez mais jovens no país. Todas as análises foram realizadas a partir de dados do Sistema de Informação de Mortalidade e Sistema de Informação Ambulatorial do Ministério da Saúde.
Em sua fala Santini ressaltou a importância do aumento do número de registros de câncer com base populacional (RCBP) e o avanço na produção de dados “para elaborar, cada vez mais, estudos compreensíveis, abrangentes, sobre a realidade, que permitam a atuação do sistema de saúde”. A partir dos dados existentes, o sistema de saúde vai “aperfeiçoando as intervenções e as ações na saúde pública”, afirmou.
De acordo com Santini, “os dados são muito eloquentes. Mostram que é preciso prevenir”. Além da necessidade de ampliar cada vez mais a prevenção, Santini pontuou que o sistema de saúde precisa melhorar os diagnósticos. “O sistema de saúde, hoje, tem problemas sérios para diagnóstico”.
Ao finalizar as apresentações e debates em torno dessa mesa, Nina Melo convidou todos os presentes para participar nos dias 27 e 28 de novembro do Seminário Controle do Câncer no Século XXI: desafios globais e soluções locais, organizado pelo CEE e pelo Inca. O evento terá transmissão pelo Canal da Vídeo Saúde da Fiocruz no Youtube, clique aqui: dia 27 e dia 28.
Mentoria reúne startups em saúde e destaca papel da inovação com propósito social
No espaço de mentorias para Startups em Saúde, a pesquisadora do CEE-Fiocruz Mirian Cohen conduziu, em 511, a roda de conversa Gestão de PD&I e Impacto Social.
Mirian, que integra os grupos de pesquisa Futuro das Tecnologias de Diagnóstico e Tratamento do Câncer e Desenvolvimento, CEIS e Inovação em Saúde, destacou o caráter dinâmico e colaborativo do encontro. “Foi um colóquio que trouxe diferentes tipos de startups, com diferentes graus de maturidade, desde as que estão no início de desenvolvimento até aquelas que já estão com o nível de maturidade dos seus produtos, prontos para ir ao mercado”, explicou.
Segundo Mirian, o grupo discutiu temas centrais como resiliência, qualidade, regulação e agilidade nos processos de inovação em saúde. “Conversamos sobre os desafios das startups, a importância de ter resiliência, a questão da qualidade versus a burocracia, e de conseguir trabalhar nos assuntos regulatórios sem perder a agilidade”, pontuou.
Mirian ressaltou ainda que a mentoria reforçou o compromisso do CEE-Fiocruz em gerar valor social a partir da ciência e da inovação. “A conversa trouxe muita reflexão sobre o papel do CEE na geração de valor para a sociedade, em relação com pessoas que estão preocupadas em criar produtos úteis e acessíveis”, afirmou. Entre os exemplos apresentados, uma das startups desenvolveu uma pílula para higienização bucal de pacientes acamados, solução que, segundo a pesquisadora, ilustra bem a convergência entre tecnologia e cuidado. A roda de conversa contou ainda com a presença ilustre do ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão que marcou presença ao final da roda de conversa.
Pesquisadores defendem o termo ‘controle’, no cuidado ao câncer, durante a Fisweek 2025
No painel Desafios, Expectativas e Perspectivas Inovadoras para o Controle do Câncer no Brasil, Luiz Santini e os pesquisadores Fernando Bessa e Mirian Miranda Cohen, integrantes do grupo Futuro das Tecnologias de Diagnóstico e Tratamento do Câncer (CEE-Fiocruz) participaram de outra mesa, intitulada Controle do câncer: cenário atual e desafios. Eles ressaltaram a necessidade de se rever o uso da expressão combate ao câncer e substituí-la por controle do câncer, discutindo a importância de abandonar “metáforas de guerra” ainda associadas à doença e adotar uma abordagem mais ampla, ética e humanizada.
Nessa mesa, Santini sublinhou que a ideia de combater o câncer é historicamente datada e metodologicamente inadequada. O pesquisador explicou que essa noção deriva do paradigma das doenças infecciosas — nas quais há um agente específico a ser eliminado — e foi reforçada por contextos políticos, como a guerra contra o câncer, declarada pelo presidente norte-americano Richard Nixon em 1971. “A metáfora da guerra admite o chamado dano colateral, o que é incompatível com o cuidado em saúde”, afirmou.
Santini lembrou que a legislação brasileira já reconhece essa outa concepção conceitual. “Nossa lei atual fala em controle do câncer, não em combate. Contudo, essa lógica ainda não foi absorvida, como mostra o próprio Dia Nacional de Combate ao Câncer”, instituído pela Portaria do Ministério da Saúde GM nº 707, de dezembro de 1988.
O pesquisador Fernando reforçou que a distinção entre combate e controle não é apenas semântica, mas metodológica. “Falar em controle significa reconhecer a natureza multifatorial do câncer”, afirmou, ressaltando a importância “do rastreamento, da prevenção e do diagnóstico precoce” e dos avanços tecnológicos para a ampliação do cuidado, atentando ainda para a “a humanização do cuidado com o câncer”.
Ao refletir sobre casos amplamente divulgados na mídia, como a morte da cantora Preta Gil, a pesquisadora Mirian abordou o modo como o discurso do combate ao câncer pode gerar uma violência simbólica e social, atribuindo à pessoa doente o peso de uma batalha pessoal. “Se o paciente perde a luta, é como se ele fosse um derrotado”. Para a pesquisadora, é necessário repensar a linguagem e o sentido coletivo dessa narrativa, de forma que o enfrentamento da doença seja compreendido como um esforço social e sistêmico, e não como uma luta individual.
Em sua fala, Mirian destacou que o enfrentamento do câncer no país exige múltiplas abordagens e a busca por soluções diferenciadas em saúde, incorporando avanços como as tecnologias genômicas e a medicina de precisão. Mas a pesquisadora chamou a atenção para as desigualdades no acesso às novas tecnologias de controle ao câncer. “Inovar sem democratizar é perpetuar desigualdades”, afirmou.
Ao final da mesa, os três pesquisadores convergiram na defesa de uma transformação conceitual e política na forma como o câncer é tratado no Brasil. “Mudar o vocabulário é mudar o olhar. O controle implica ciência, responsabilidade coletiva e humanização no cuidado”, concluiu Santini.
Gestão do SUS baseada no conceito de resiliência e no uso de dados para o tomada de decisão
No mesmo painel, no módulo: O futuro da gestão em saúde no SUS, o coordenador adjunto do CEE-Fiocruz, líder do Laboratório de Pesquisa ResiliSUS/CEE, Alessandro Jatobá, destacou a importância de incorporar o conceito de resiliência à gestão do sistema público de saúde brasileiro e explicou como o conceito de resiliência vai muito além da simples capacidade de se recuperar de crises ou choques. “Ser resiliente é, claro, a capacidade de se adaptar ao choque, mas é mais que isso, é a capacidade de manter um conjunto mínimo de habilidades para que, quando um choque mais agudo acontecer, o sistema esteja mais preparado para lidar com ele”, afirmou.
Jatobá defendeu que o Sistema Único de Saúde (SUS) deve fortalecer suas funções essenciais e sua capacidade de gestão da variabilidade, ou seja, sua aptidão para operar de forma eficiente mesmo diante de contextos adversos e imprevisíveis. “Tornar o SUS capaz de sustentar um conjunto mínimo de funções essenciais, para lidar com toda a variabilidade a que ele está sujeito, é o caminho para torná-lo mais competente quando o choque acontecer”, observou.
Ele também destacou a importância de superar um modelo centrado apenas na resposta imediata a crises e avançar para uma gestão que antecipe cenários e use dados em tempo real. “A mudança de paradigma é sair de um sistema centrado na resposta e no controle para um sistema que gerencie a variabilidade. O SUS tem uma gênese que permite isso, um conjunto gigante de ações de base territorial que gera informação valiosa”, destacou.
O pesquisador defendeu o uso de grandes volumes de dados, inclusive não estruturados, como instrumento de apoio à tomada de decisão e de fortalecimento da gestão pública. “A maneira como o SUS está espalhado nas comunidades, especialmente nas mais vulneráveis, permite que tenhamos base no mundo do big data. Isso nos ajuda a tomar decisões de saúde mais rápidas e precisas”, disse.
Jatobá sintetizou sua visão sobre o futuro da gestão pública em saúde. “Imagino um futuro em que a gestão do SUS seja mais focada em gerenciar a variabilidade que sempre vai acontecer, em vez de gastar todos os recursos apenas para responder quando a disrupção já ocorreu. Esse é o caminho para um sistema mais resiliente e preparado para o futuro.”











