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SUS, Saúde e Cidadania

José Temporão leva a história do SUS para alunos de Medicina



POR Eliane Bardanachvili

PUBLICADO 12/03/2026

O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz) proferiu, em 10/3/2026, a aula magna da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro em Cabo Frio (RJ), apresentando aos alunos a história do SUS. Sob o título Sistema Único de Saúde: Caminhos para a universalização da Saúde no Brasil, Temporão comparou os modelos de atenção antes e depois do advento do sistema.

Entre as características citadas do período anterior ao SUS, ele destacou o privilégio do acesso à saúde pública concentrado apenas nos trabalhadores urbanos com vínculo formal de trabalho, um modelo “centralizado, autoritário, privatizado, ineficiente e caro”, como definiu.

O ex-ministro situou a conjuntura na qual se deu a criação do SUS, um período de luta pela democracia, durante a ditadura militar, com fortalecimento das organizações da sociedade civil, e destacou o marco da 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, que trazia entre as propostas de seu relatório final o conceito ampliado de saúde, para além da ausência de doença, contemplando também determinantes como condições de trabalho, moradia e alimentação. O relatório destacava também, entre outros pontos, o direito à saúde universal e igualitário e a participação social estruturada – o que resultou no artigo 196 da Constituição de 1988, que afirma que “a saúde é direito de todos e dever do Estado”.

“O SUS como política pública é a mais importante ação de inclusão social de nossa história”, afirmou Temporão. Ele citou, entre as políticas relacionadas ao sistema a Estratégia Saúde da Família, que cobre, hoje, 150 milhões de pessoas; a política de DST/Aids, sendo o Brasil pioneiro no tratamento universal e na produção de medicamentos genéricos; a política de transplantes, que destaca o país como o segundo maior do mundo na realização desses procedimentos; e o Programa Nacional de Imunizações e suas altas coberturas vacinais.

Temporão enfatizou também os impactos do SUS no cenário epidemiológico (redução de mortalidade, controle de doenças), na vigilância, na ciência, na gestão do Estado, na organização do cuidado e na economia. “A existência do SUS é um obstáculo à barbárie disfarçada de modernidade”, disse, referindo-se a uma visão de saúde como mercadoria, condicionada à capacidade financeira de famílias e empresas.

Ao apontar os desafios rumo a uma concretização do projeto do SUS, o ex-ministro destacou o “baixo grau de consciência política sobre a importância dos sistemas universais” e observou que, ao longo dessas três décadas de existência do sistema, há uma valorização dos planos de saúde privados, que cobre, hoje, 25% da população do país, sendo 80% da cobertura ligada ao contrato de trabalho. Além disso, prosseguiu, a saúde é vista por formadores de opinião e outros atores como gasto, não como investimento.

Temporão chamou atenção para o período de desmonte do SUS, entre 2016, quando se deu o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a aprovação da Emenda Constitucional 2026, que congelou os gastos sociais por vinte anos, em 2022, durante o governo Bolsonaro, de extrema-direita.  Entre as características desses “tempos sombrios”, ele destacou o reforço da visão de que o sistema público deve atender prioritariamente às necessidades dos mais pobres, deixando ao mercado a atenção à classe média e aos extratos de maior renda e a postura negacionista em relação a vacinas, abandono da ciência e propagação de fake news.

O ex-ministro apresentou dados (de 2019) sobre o baixo financiamento do SUS, comparando, por exemplo, os 4 mil dólares per capita gastos na França e os 600 dólares per capita gastos no Brasil.

Ele reforçou a importância do Complexo Econômico-Industrial da Saúde e a necessidade de construção de uma estratégia para articular a lógica econômica e da inovação com a lógica da saúde pública, defendendo a saúde como espaço de desenvolvimento. “A extrema dependência tecnológica do Brasil em relação biofármacos, equipamentos, insumos ficou evidente no atual momento”, pontuou. Temporão referiu-se, nesse sentido, às assimetrias globais, tendo-se 88% das patentes concentradas em dez países.

Temporão defendeu o SUS como “um projeto civilizatório”, que levou o país, “incontestes e importantes avanços”, tornando-se uma grande conquista política e institucional. No entanto, observou, o grau de consciência política alcançado até aqui é “baixo e fragmentado” e não levou a uma transformação ao ideário coletivo proposto pela Reforma Sanitária Brasileira, dos anos 1980. “O ideário do SUS, inerente à sua natureza pública é ser universal, não diferenciar entre status ou renda na oferta de cuidados integrais e de qualidade”.

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