Propostas para o futuro da saúde, G20, Sistema Único de Saúde (SUS), CEIS, políticas públicas, saúde suplementar, incorporações tecnológicas e segurança jurídica para a inovação, a ética dos algoritmos, judicialização e políticas para o tratamento do câncer foram alguns dos temas debatidos no inédito Rio Health Fórum, espaço voltado a lideranças, governos, reguladores, empresas e meio acadêmico para discutir o ecossistema da Saúde. O evento foi realizado no Rio de Janeiro nos dias 6 e 7 de novembro de 2024, dentro de um festival de inovação, empreendedorismo e tendências da saúde, o FISWeek.
O secretário executivo do CEE-Fiocruz, Marco Nascimento, participou, no primeiro dia, do painel O impacto do envelhecimento populacional no CEIS, ao lado de Alexandre Kalache, à frente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, ILC, José Eustáquio Diniz Alves, da Iniciativa FIS, e Claudio Contador, da consultoria Silcon Estudos Econômicos. Maurício Nunes, diretor de Desenvolvimento Setorial na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), fez a mediação.
Marco Nascimento apresentou o conceito do Complexo Econômico-Industrial da Saúde à luz dos impactos do envelhecimento. “Produção, ciência, tecnologia e inovação são indissociáveis das transformações políticas, sociais e da biologia. Todas as mudanças estão intimamente ligadas”. O secretário mostrou como esse ciclo envolve o desenvolvimento nacional e as tensões que perpassam a economia política da saúde. “Quando o Brasil assume constitucionalmente o desafio de garantir saúde para todos os seus habitantes, assume também automaticamente um grande compromisso que se manifesta de forma orçamentária e que, historicamente, é vendida como um bueiro que suga recursos e que é insaciável”, ressaltou o Marco.
O secretário informou a ordem de grandeza da dívida brasileira em saúde. “O nosso déficit na Balança Comercial é de US$ 20 bilhões; tudo para fora do país. Então, a questão não é se vai gastar; vai ter gasto. Por que não direcionar para aqui dentro?”, indagou. Garantir, ao máximo, a autossuficiência brasileira e assegurar que 70% das necessidades do SUS em medicamentos, equipamentos, vacinas e outros materiais médicos passem a ser produzidos no país é uma das metas traçadas pelo Ministério da Saúde para os próximos dez anos.
CEIS e envelhecimento populacional
Dados do último Censo Demográfico (2022), realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, de 2000 a 2023, a proporção de idosos (60 anos ou mais) na população brasileira quase duplicou, subindo de 8,7% para 15,6%. Em 2070, 37,8% dos habitantes do país serão idosos. “O envelhecimento da população e a pressão que isso vai exercer sobre o CEIS acontecerão junto com várias outras transformações”, lembrou Marco.
“Estamos fazendo a transição demográfica sem tirar proveito do bônus demográfico. Não enriquecemos o suficiente no momento do salto demográfico e estamos envelhecendo antes do previsto. E sem que tenhamos a infraestrutura, a formação de recursos humanos e a nacionalização de tecnologia suficiente para tomar conta das pessoas idosas daqui a poucas décadas”, considerou Marco, mencionando que a preocupação com os impactos da nova demografia nacional está presente no livro Saúde é Desenvolvimento: o Complexo Econômico-Industrial da Saúde como opção estratégica nacional (2022), produzido pelo projeto de pesquisa CEIS 4.0 do CEE.
“Já no primeiro capítulo fizemos uma análise das principais transformações em curso. Começamos pela transição demográfica. O principal problema é que ela está acontecendo com um quadro de complexidade epidemiológica se aprofundando”, alertou.
Déficit de geriatras
O segundo palestrante, o gerontólogo Alexandre Kalache, informou que a Sociedade Brasileira de Geriatria tem um déficit de 30 mil geriatras. “Na próxima década, se tivermos sorte, formaremos 5 mil; mas o déficit vai passar de 37 mil. Então, essa é a primeira mensagem: [é preciso] formar profissionais da saúde que possam responder ao desafio desse envelhecimento árduo e desigual”.
Alexandre Kalache pontuou que, no Brasil, as pessoas estão chegando mal aos 50, 60, e muito pior aos 70 e 80. “Se envelhece mal e precocemente”. O gerontólogo destacou que a saúde é criada no contexto do dia a dia, e lembrou que aspectos como moradia, locomoção e acesso ao lazer impactam em uma velhice saudável ou não.
A gestão política da saúde, em médio e longo prazo, foi ressaltada por Alexandre como estratégia para o fortalecimento da área também para a crescente população idosa.
Bônus demográfico
José Eustáquio, pós-doutor na área de Demografia e Estudos de População pela Universidade de Campinas (Nepo/Unicamp) e representante da Iniciativa FIS no painel, destacou o conceito de bônus demográfico, que se refere a uma mudança na estrutura etária da população favorável ao crescimento econômico.
Segundo o demógrafo, a estrutura etária mundial durante 200 mil anos foi predominantemente de pessoas com menos de 18 anos; com o passar do tempo, houve uma transição demográfica, em que a diminuição da mortalidade, mudanças culturais e acesso a contraceptivos levaram a uma queda significativa nas taxas de fecundidade. Consequentemente, houve redução na quantidade de crianças e adolescentes e aumento da quantidade de pessoas em idade produtiva, sem que houvesse ainda o aumento de pessoas idosas.
“Quando isso acontece, há um impulso na economia, nas condições sociais de qualquer país”, explicou. “Não existe país rico, com alto Índice de Desenvolvimento Humano [IDH], que não tenha passado pela transição demográfica”.
José Eustáquio esclareceu que o Brasil e outros países que iniciaram a transição da fecundidade mais recentemente ainda estão no processo de envelhecimento, “ao contrário do Japão, por exemplo, país mais envelhecido do mundo”. O país asiático tem, informou, 30% da população com 60 anos e mais, ao passo que o Brasil tem em torno de 15% com 60 anos e mais.
“Nessa transição demográfica, o Brasil de país de renda baixa, pobre e rural, passa a ser um país urbano, industrial, de serviços e de renda média. Não conseguimos dar o salto para a renda alta”, o que fez o país “envelhecer antes de enriquecer”, esclareceu. “Essa é a situação atual. É possível a gente dar esse salto antes de envelhecer completamente? Acho que sim. É cada vez mais difícil, mas ainda é possível, há uma janela para se aproveitar”, avaliou o demógrafo.
Ele defendeu o Complexo Econômico-Industrial da Saúde: “A saúde é uma das áreas fundamentais da economia. Você pode encaixar perfeitamente esse crescimento de uma população de 50, 60, 70 anos e mais com o aperfeiçoamento do Complexo, que é fundamental para o envelhecimento saudável e ativo”.
O demógrafo pontuou que, ao se somar o potencial da população idosa com as necessidades da Saúde e da maioria de todos os setores econômicos relacionados à qualidade de vida, constrói-se a possibilidade do salto na qualidade de vida no Brasil.
“O que temos que fazer é não ver os idosos como um obstáculo, mas sim como um sustentáculo de uma nova economia, que dê oportunidade para essa população poder contribuir com a construção de um país mais justo, mais igualitário e bem mais feliz”, finalizou.
Geração prateada
Último participante do painel, Claudio Contador, diretor da Silcon Estudos Econômicos, observou que não houve como o Brasil se preparar para a sua mudança demográfica, dada a rapidez com que isso aconteceu. “Nenhum outro país estaria preparado para isso”, disse o economista.
Em relação à longevidade, Claudio citou o próprio exemplo: aos 82 anos, está na ativa em sua empresa. E comentou sobre a “geração prateada”, tema também citado por seus pares. O conceito, definido pela Comissão Europeia em 2009, refere-se às oportunidades econômicas que aparecem como resultado do aumento dos gastos do governo e do consumidor com as necessidades específicas de pessoas com 50 anos ou mais, no cenário de envelhecimento da população. Desde então, o adjetivo passou a ser precedido também pelas palavras economia, produção e dividendo.
O economista declarou que o envelhecimento populacional e a economia prateada trazem, ao lado das oportunidades, desafios que precisam ser enfrentados. “Olhando para o lado fiscal, essa conta não bate, mas faz parte do que somos”, defendeu.
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