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SUS, Saúde e Cidadania

Nova edição da série ECOS debate avanços e gargalos estruturais no controle do câncer no Brasil



POR Andréa Vilhena

PUBLICADO 25/06/2026

O Brasil possui uma produção científica robusta, diretrizes consolidadas e contou com uma ampliação recente no financiamento público voltado à oncologia. No entanto, o país ainda enfrenta dificuldades de implementação, coordenação e organização sistêmica para transformar esse conhecimento em políticas públicas efetivas e equitativas. Esse é o ponto central da segunda edição da série ECOS, publicação pelo Centro de Estudos Estratégicos Antonio Ivo de carvalho (CEE-Fiocruz), voltada aos desdobramentos do seminário Controle do Câncer no Século XXI: Desafios globais e soluções locais, realizado pelo CEE, em novembro de 2025.

A nova edição da série sintetiza os debates da Mesa 1, que teve como tema Avanços e desafios no controle do câncer: da pesquisa etiológica à implementação de programas de prevenção e detecção precoce. Elaborado pelo Grupo de Pesquisa Doenças Crônicas e Tecnologias de Saúde (DCTS/CEE-Fiocruz), o novo documento sublinha que o principal desafio atual do controle do câncer não é a ausência de evidências técnico-científicas, mas a capacidade político-institucional de tirá-las do papel.

Com o envelhecimento da população, o câncer consolida-se como uma das principais causas de adoecimento e morte no país, com uma estimativa de 704 mil novos casos anuais e tendência de crescimento para as próximas décadas.

O paradoxo do financiamento e o gargalo do diagnóstico

Um dos pontos destacados pelos autores é o descompasso entre o aumento de recursos e os resultados práticos na saúde da população. De acordo com a publicação, o orçamento federal da saúde cresceu 57%, acompanhado por um aumento de 48% no financiamento destinado especificamente ao controle do câncer, o que permitiu expandir a oferta de cirurgias e de radioterapia. Apesar disso, as análises apontam que os ganhos não foram acompanhados proporcionalmente por uma redução na mortalidade por câncer, “evidenciando limitações relacionadas à governança, coordenação e integração da rede assistencial”.

A limitação da capacidade diagnóstica foi apontada como o principal nó crítico atual da linha de cuidado. De acordo com o documento, o país enfrenta um déficit estimado de 4 mil médicos patologistas, o que gera atrasos crônicos na emissão de laudos, rompe a trajetória assistencial do paciente e faz com que a doença seja frequentemente descoberta já em estágios avançados, reduzindo assim a eficácia dos tratamentos.

Além disso, o modelo de rastreamento do SUS é, como sublinham os autores, predominantemente “oportunístico” (isto é, dependente de o paciente buscar o serviço de saúde, levado por outras demandas) e focado em um modelo reativo e hospitalocêntrico, que concentra recursos no tratamento da doença instalada em detrimento da prevenção. O texto explica ainda que entre 30% a 50% dos casos de câncer seriam potencialmente evitáveis. Entre os fatores relacionados, foram destacados: poluição atmosférica, retomada do tabagismo, avanço da obesidade e do sedentarismo e cobertura vacinal contra o HPV abaixo das metas internacionais.

Recomendações para uma virada estratégica

Para reverter esse cenário e garantir a sustentabilidade do SUS, a publicação do CEE-Fiocruz propõe recomendações divididas em quatro eixos estratégicos:

  • Governança e organização sistêmica: implantação de programas organizados de rastreamento de base populacional (com busca ativa de pacientes), fortalecimento da coordenação entre municípios, estados e União, com integração entre planejamento, financiamento e execução das ações, assim como monitoramento contínuo por indicadores.
  • Reorientação do financiamento: Ampliação de investimentos em prevenção e detecção precoce, garantia de recursos protegidos e carimbadas para vacinação contra o HPV, rastreamento e diagnóstico oportuno, além de incorporação tecnológica baseada em critério custo-efetividade e impacto real na população.
  • Fortalecimento da capacidade diagnóstica: Expansão urgente da rede de anatomia patológica, formação de médicos especialistas, criação de fluxos regulatórios integrados para reduzir o tempo de espera pelos exames e adoção de estratégias de “navegação” do paciente dentro do sistema de saúde.
  • Prevenção e inteligência sanitária: fortalecimento de políticas de controle do tabaco, ampliação da cobertura vacinal contra o HPV, fortalecimento dos Registros de Câncer de Base Populacional e uso sistemático de dados para o planejamento, monitoramento e avaliação das ações.

O texto conclui que o controle do câncer deve ser encarado, fundamentalmente, como um problema de governança, “exigindo integração entre níveis de atenção, coordenação federativa e fortalecimento de implementação baseada em evidências”. A transição para uma abordagem preventiva, integrada e orientada por dados, sublinham os autores, “constitui condição estratégica para reduzir a mortalidade evitável e assegurar a sustentabilidade ao SUS”.

A edição nº 2 da série Ecos é assinada pelos pesquisadores José Gomes Temporão, Luiz Antônio Santini Rodrigues, Fernando Manuel Bessa Fernandes, Mirian Miranda Cohen, Walter Paulo Zoss e o pesquisador do Inca, Antônio Tadeu Cheriff dos Santos, que integram o grupo de pesquisa Doenças Crônicas e Tecnologias de Saúde/CEE-Fiocruz.

Acesse a edição nº 2 da série Ecos, clicando na imagem abaixo.

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