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SUS, Saúde e Cidadania

Pesquisadores do CEE-Fiocruz refletem, em evento, sobre os 40 anos da 8ª Conferência e os desafios do futuro do SUS



POR Andréa Vilhena e Eliane Bardanachvili

PUBLICADO 20/05/2026

O Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, representado por seu coordenador Rômulo Paes de Sousa e pelos pesquisadores Paulo Amarante, Sonia Fleury, José Gomes Temporão e Luiz Antonio Santini – sanitaristas que atuaram na Reforma Sanitária Brasileira, nos anos 70 e 80 –, marcou presença no 1º ciclo de debates Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS – 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, promovido pelo site Outra Saúde, em parceria com o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica (Icict/Fiocruz), nos dias 7 e 8 de maio de 2026, no Rio de Janeiro.

O encontro reuniu pensadores e referências da área da Saúde, militantes que acompanharam o processo histórico que levou à criação do Sistema Único de Saúde, bem como novos pesquisadores, com o objetivo de debater o legado da Oitava, e, a partir dele pensar os atuais e futuros desafios do SUS e do campo da Saúde Coletiva. O evento segue para São Paulo, onde será realizado em parceria com a Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e a Associação Paulista de Saúde Pública (APSP), nos dias 21 e 22 de maio, no Auditório Paula Souza da FSP-USP, para, em seguida, ir para Salvador e Manaus.

A Oitava Conferência foi um dos principais marcos da Reforma Sanitária Brasileira, movimento, que surgiu no período final da ditadura pós-64, e que culminou na criação do maior sistema de saúde pública do mundo – o SUS.

Sônia Fleury participou no dia 7 de maio, às 10 hs, da mesa de abertura Um debate que se atualiza na luta, ao lado de André Vianna Dantas (Ensp/Fiocruz), Richalis Martins (146 vezes Favela) e Tiago Reis (UFRR).

Luiz Antônio Santini e Paulo Amarante, que além de ser pesquisador do CEE integra, também, o LAPS/Ensp/Fiocruz, estiveram juntos nesse mesmo dia, às 14 hs, na mesa 40 anos em perspectiva: lutas da saúde coletiva, ao lado de Reinaldo Guimarães (Abrascop)

José Gomes Temporão participou no dia 8, às 9h, da mesa Indústria da saúde e caminhos para a soberania sanitária, com Paulo Henrique Rodrigues (IMS/Uerj) e Susana Van Der Ploeg (GTPI).

Rômulo Paes de Sousa, também no segundo dia do evento, às 16 horas, participou da mesa de lançamento da 2ª Conferência Livre, Democrática e Popular de Saúde, com Carlos Fidelis e Lucia Souto (Cebes), Francisco Funcia (ABrES), Jacinta Senna (Aben) e Túlio Franco (Rede Unida).

Clique nos links a seguir para acessar a cobertura da participação dos pesquisadores do CEE no seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS – 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde.

Sônia Fleury: “A Saúde pode ser fundamental para a construção democrática hoje, como foi há 40 anos”

Luiz Antonio Santini: “O SUS talvez seja, entre todos os sistemas, o que tem maior capacidade de enfrentar o futuro”

Paulo Amarante: pela retomada da participação social e um alerta contra retrocessos na saúde mental

José Gomes Temporão: soberania sanitária como política de Estado e o CEIS como eixo estratégico para o futuro do SUS 

Rômulo Paes de Sousa: nova agenda para o SUS e enfrentamento de “déficits históricos” da Reforma Sanitária

Sônia Fleury: A Saúde pode ser fundamental para a construção democrática hoje, como há 40 anos

A contribuição da Reforma Sanitária para a democracia brasileira foi destaque da exposição pesquisadora do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz Sônia Fleury, durante o seminário 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, promovido pelo site Outra Saúde/Outras Palavras. Sonia defendeu a necessidade de se reconstruir um projeto democrático capaz de responder às transformações sociais, econômicas e políticas do país e do mundo – e recolocou a saúde pública no centro desse debate.

Participante do processo histórico que levou à criação do Sistema Único de Saúde, Sonia Fleury propôs uma leitura comparativa entre o ambiente político de quatro décadas atrás e a conjuntura contemporânea. “O contexto da Oitava foi o de luta pela democracia. E qual é o contexto hoje da democracia?”, indagou, observando que vivemos um processo de “desdemocratização”, marcado pelo fortalecimento global da extrema direita, com domínio tecnológico e cultural de alguns países, e pelo desgaste de décadas de políticas neoliberais.

“Anos e anos de neoliberalismo levaram ao enfraquecimento dos Estados, sufocados por políticas de austeridade, levando a um enorme desencanto da população em relação aos projetos sociais e democráticos que não se realizaram”, analisou.

Soberania com participação

Ao abordar o tema da soberania no cenário brasileiro e internacional, a pesquisadora observou que diferentes projetos políticos — tanto progressistas quanto conservadores — vêm recolocando o fortalecimento do Estado nacional no centro das disputas geopolíticas. Citou, de um lado, as formulações da economista Mariana Mazzucato sobre o Estado empreendedor e, na Saúde, a formulação do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS); de outro, projetos nacionalistas autoritários associados à extrema direita, “de resgate do domínio imperialista, representado por Donald Trump”.

Conforme avalia Sonia, soberania não é algo relacionado apenas ao domínio geográfico, sendo necessária a inclusão da população. “Não existe soberania quando a nação não participa, quando a nação é excluída”, considerou.

Citando suas reflexões recentes sobre os 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde – como o vídeo produzido pelo CEE-Fiocruz e a entrevista que concedeu ao Outra Saúde no início de maio/2026 –, a pesquisadora retomou uma questão que considera central: como a Reforma Sanitária – formulada ainda durante a ditadura militar, praticamente na clandestinidade e a partir da sociedade civil, uma grande inovação – conseguiu se transformar em política pública num contexto posterior de austeridade econômica? Como é que isso deu certo?”.Fleury lembrou que, entre militantes da Reforma Sanitária, o futuro SUS era chamado informalmente de projeto Andrômeda.

“A gente brincava de chamar de projeto Andrômeda, porque estávamos com a cabeça nas galáxias, mas com os pés no chão. Era um delírio pensar, durante a ditadura, que nós iríamos construir uma sociedade democrática e um sistema igualitário, universal, com cobertura integral”.

Para ela, a experiência ajuda a enfrentar as dificuldades de hoje “sem nos desanimarmos”. Como afirma Sonia, é possível pensar um projeto de avanço da democracia, e isso pode se dar a partir da área da Saúde, como há quarenta anos. “A Saúde deu, para além da criação da institucionalidade do SUS, uma contribuição muito grande para a própria democracia e pode ser ainda fundamental para a construção democrática hoje, na conjuntura atual”.

Democracia exige institucionalidade

Para Sonia, um dos grandes legados da Reforma Sanitária foi o entendimento, desde os anos 1970, de que a mobilização social precisava caminhar junto com a construção de capacidades estatais, com a institucionalidade. “Democracia não são só valores e mobilização popular. Democracia são também instituições”, observou.

Ela citou a pandemia de Covid-19 para destacar  a “enorme capacidade institucional do SUS”, de reagir ao governo Bolsonaro e à ausência de coordenação federal pelo Ministério da Saúde, por meio de instâncias de negociação e pactuação – como o Conselho Nacional de de Secretarias de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). “Essa construção de instituições é fundamental”.

Ao mesmo tempo, advertiu Sonia, instituições não se sustentam sem renovação política. “Essas instituições precisam ser rejuvenescidas e revitalizadas pelas pulsões novas e pelos atores novos que estão surgindo”, alertou.

Organização política e deslocamento de poder

A pesquisadora também enfatizou que o êxito da Reforma Sanitária esteve ligado à construção de um “sujeito político”, a partir de um campo novo, o da saúde coletiva, com a ocupação de espaços estratégicos no Estado. “A Reforma Sanitária tinha uma proposta muito clara, que ia além de meramente se construir um sistema único de saúde”, apontou, pontuando que a proposta era, sim, promover um deslocamento de poder para o setor popular, buscando-se “uma consciência sanitária da população”, e o entendimento da saúde como direito universal.

 “Não se constroem reformas nem só do ponto de vista da mobilização social, nem só da construção institucional. É preciso que essa mobilização social se fortaleça a partir da organização”, disse, destacando o papel do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), ambos criados na década de 1970, na consolidação do campo da saúde coletiva e na construção da organicidade do movimento sanitário.

Universalidade, equidade e defesa do comum

Sonia Fleury apontou a materialização da “ideia de igualdade” como uma das grandes contribuições da Reforma Sanitária para a democracia brasileira. “Trazer o direito para uma materialidade concreta, o SUS, foi fundamental e revolucionário numa sociedade tão desigual”, avaliou.

Se a universalidade ainda não foi plenamente alcançada, conforme reconhece a pesquisadora, a conformação do SUS abriu a possibilidade de tornar o direito à saúde exigível, inclusive judicialmente.

Ela fez uma crítica aos organismos internacionais que adotaram a noção de cobertura universal, no lugar de direito universal à saúde. “Isso é importante frisar: o direito universal tem como base a igualdade, enquanto a cobertura universal se baseia na desigualdade”, disse referindo-se a níveis diferentes de cobertura, dependendo das condições e dos recursos, o que nada tem a ver com universalidade, “mas está todo mundo coberto”.

Sonia chamou atenção, no entanto, para a igualdade que se quer. “Não a igualdade linear, que impeça que sejam contempladas as diferenças. É uma igualdade complexa que é capaz de comportar a diversidade e a singularidade”, disse, trazendo o conceito de equidade, como “caminho para chegar à universalidade”.

Privatização e projeto de futuro

A pesquisadora abordou, ainda, o tema da privatização, que o SUS comporta de “inúmeras formas”, uma questão que, para ela, precisa ser tratada. “O fato de termos, desde a origem, um sistema privado que presta serviços ao SUS ou que disputa recursos públicos para estar no SUS, não quer dizer que nós temos que abrir mão da noção nossa fundamental de que este tem que ser um sistema público para o bem comum, não um sistema para fazer lucro”, considerou.

Para Sonia, a defesa do SUS se conecta hoje a uma disputa mais ampla em torno do comum. “A luta, hoje, pode ser uma luta pela praça da esquina para não ter ali um edifício privado, pela rua, por qualquer coisa que seja do comum”, defendeu. “Porque o que nós estamos vivendo é a total mercantilização das relações sociais”, considerou, propondo um projeto de país, que, além de soberano, seja nacional. “E nacional quer dizer inclusivo e democrático e participativo”.

Luiz Antonio Santini: “O SUS talvez seja, entre todos os sistemas, o que tem maior capacidade de enfrentar o futuro”

Ao refletir sobre os 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, o pesquisador do Centro de CEE-Fiocruz Luiz Antonio Santini, um dos coordenadores do grupo de pesquisa Doenças crônicas e tecnologias de Saúde (DCTS/CEE), destacou que a criação do sistema público de saúde brasileiro não foi um acontecimento isolado, mas resultado de um longo processo de construção institucional e mobilização política.

Participando da mesa dedicada ao futuro da saúde no Brasil, Santini combinou memória pessoal e análise histórica para abordar sua trajetória e o processo da Reforma Sanitária. Coautor do livro SUS, uma biografia: Lutas e conquistas da sociedade brasileira, ele definiu sua intervenção como um “depoimento” sobre os momentos em que sua história de vida se cruzou com a construção do sistema.

“O Brasil mudou muito desde a criação do SUS”, observou. Entre as conquistas acumuladas ao longo dessas décadas, Santini destacou a redução expressiva da mortalidade infantil, a consolidação da vigilância sanitária, a expansão da atenção básica, os avanços da reforma psiquiátrica, as políticas de controle do tabagismo e o protagonismo brasileiro na área de transplantes de órgãos e tecidos.

Ao mesmo tempo, lembrou que essas conquistas ocorreram em meio a transformações demográficas, sociais e tecnológicas. “A população brasileira mais do que duplicou, se urbanizou, empobreceu e envelheceu antes de enriquecer”, observou. Segundo ele, esse cenário tornou ainda mais complexo o desafio de sustentar um sistema universal diante do crescimento dos custos assistenciais e da incorporação de novas tecnologias em saúde.

A experiência da 8ª Conferência

Santini também resgatou sua participação na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, quando atuava como superintendente regional do antigo Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social, o Inamps, no Rio de Janeiro.

Em um episódio expressivo daquele momento histórico, relatou que fora demitido do cargo na véspera da conferência, apesar de já estar credenciado como delegado institucional – isto é, ligado a uma instituição pública. “Perdi o direito a voto, mas não perdi a possibilidade de continuar participando”, recordou.

Para ele, a conferência foi um momento fundador da participação e mobilização social. Inicialmente planejada para reunir entre 1,5 mil e 1,8 mil participantes, o encontro acabou recebendo cerca de 5 mil pessoas vindas de todas as regiões do país.

A reforma sanitária como projeto histórico

Embora reconheça a 8ª Conferência como marco fundador do SUS, Santini enfatizou que ela só foi possível porque se apoiou em processos históricos anteriores.

Em sua análise, a construção dos direitos sociais no Brasil, especialmente a partir da Era Vargas, a organização do Estado nacional e a criação de instituições estratégicas de desenvolvimento abriram caminho para que o país pudesse projetar “até uma utopia”, no sentido de almejar políticas públicas e sociais para toda a população e de que a saúde pública pudesse ser pensada como direito universal.

Santini também apontou que experiências locais desenvolvidas nas décadas de 1970 e 1980 em cidades como Niterói, Campinas, Natal, Florianópolis e Londrina foram decisivas para a formulação de modelos organizacionais que posteriormente se transformariam na base orgânica do SUS.

Essas iniciativas, segundo ele, romperam com a fragmentação existente entre serviços federais, estaduais e municipais e inauguraram formas integradas de gestão que mais tarde dariam origem às Ações Integradas de Saúde (AIS), consideradas embriões do sistema.

Os desafios do futuro

Ao projetar o futuro do SUS, Santini reconheceu que o sistema enfrenta riscos concretos em múltiplas dimensões.

O primeiro deles, segundo ele, continua sendo o subfinanciamento crônico. “É uma questão política, que envolve discutir orçamento público e prioridades nacionais”, afirmou.

Outro ponto levantado por Santini referiu-se à governança do SUS, um modelo estruturado “de forma bastante adequada”, que evoluiu, conforme avaliou, citando a constituição das comissões intergestores tripartites e bipartites e dos mecanismos de participação social, como o Conselho Nacional de Saúde como importantes avanços institucionais.

Para o pesquisador, no entanto, a governança enfrenta problemas relativos à regionalização. “O sistema ainda carece de uma organização regional capaz de responder aos problemas mais complexos do quadro epidemiológico do país”, alertou.

Santini chamou atenção, ainda, para uma nova revolução em curso no campo da saúde: a combinação entre transformações tecnológicas, mudanças organizacionais e novas exigências na formação dos profissionais.

“O que está acontecendo hoje no campo da saúde pública é uma outra revolução, e nós ainda não estamos preparados para ela”, considerou, observando que mesmo sistemas internacionalmente reconhecidos, como o National Health Service – o sistema público de saúde britânico –, enfrentam dificuldades diante desse novo cenário.

Apesar das incertezas, Santini encerrou sua participação com uma mensagem de confiança na capacidade histórica do sistema brasileiro com relação ao futuro.

“De todos os sistemas que conheço, de todas as experiências que vivi, talvez o SUS tenha, entre todos, a maior capacidade de fazer esse enfrentamento”.

Paulo Amarante: pela retomada da participação social e um alerta contra retrocessos na saúde mental

Ao revisitar os 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, o pesquisador Paulo Amarante reafirmou a centralidade da democracia, da participação social e da luta antimanicomial na construção da saúde pública brasileira. Em seminário promovido pela Outras Palavras, que reuniu protagonistas da reforma sanitária para discutir os legados e desafios da conferência histórica, Amarante defendeu que a experiência acumulada pelo movimento sanitário segue fundamental para enfrentar os impasses contemporâneos do Sistema Único de Saúde.

Psiquiatra, sanitarista, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, integrante do CEE-Fiocruz e uma das principais referências da reforma psiquiátrica brasileira, Amarante partiu de um depoimento pessoal para reconstruir o contexto político em que emergiram, simultaneamente, a luta pela redemocratização do país, a reforma sanitária e o movimento antimanicomial.

Segundo ele, a reforma psiquiátrica — cuja referência legal é a Lei nº 10.216, que completa 25 anos — não começou com a aprovação da legislação, mas nas mobilizações políticas do final dos anos 1970, em plena ditadura militar.

“A lei é resultado de um amplo e intenso processo político, que começou nos anos 70, final dos anos 70, no processo de redemocratização, de luta contra a ditadura, de enfrentamento contra a ditadura”, afirmou.

Amarante lembrou que, no início de sua trajetória profissional, participou da denúncia de violações praticadas em hospitais psiquiátricos, incluindo violência institucional, segregação e o uso dessas estruturas para repressão política. Segundo ele, muitos desses hospitais ainda eram dirigidos por militares.

Foi nesse ambiente que se consolidou o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental, articulado com o CEBES (Centro Brasileiro de Estudos de Saúde), com a academia crítica e com lideranças históricas da reforma sanitária, como Sergio Arouca.

Da reforma sanitária à produção de cidadania

No bojo da mobilização desencadeada pela 8ª Conferência, o movimento de saúde mental impulsionou a realização da primeira Conferência Nacional de Saúde Mental, em 1987, evento que é um marco da participação social no setor.

Pela primeira vez, usuários participaram de forma paritária da construção das diretrizes para as políticas públicas. Amarante destacou o caráter inovador da conferência ao incorporar movimentos sociais, sindicatos, entidades científicas e usuários na formulação das políticas públicas. Esse processo, avalia o pesquisador, teve impacto direto sobre a área da saúde mental, ao deslocar a posição histórica da pessoa internada — tratada como “alienada” ou incapaz — para a condição de sujeito de direitos e participante da construção das políticas.

“Não era só humanizar o tratamento, nós não queríamos melhorar o tratamento, nós queríamos produzir cidadãos, quer dizer, produzir novos sujeitos de direito”, explicou.

Desafios atuais: subfinanciamento, privatização e medicalização

Ao analisar o cenário contemporâneo, Amarante demonstrou preocupação com o enfraquecimento da participação social e com os limites impostos ao avanço da política de saúde mental.

Ele defendeu a retomada das conferências, dos conselhos e dos espaços permanentes de controle social, que considera fundamentais para a produção de consciência sanitária e para a formulação coletiva das políticas públicas.

O pesquisador também criticou o baixo investimento na Rede de Atenção Psicossocial e alertou para a expansão de modelos privados de atendimento.

Segundo ele, o país ainda possui uma estrutura insuficiente de centros de atenção psicossocial (CAPs) diante da demanda crescente, enquanto recursos públicos seguem sendo direcionados para “comunidades terapêuticas” que, em muitos casos, acumulam denúncias de violações de direitos humanos.

“Diz-se que a rede pública não dá conta, mas não se investe nela”, diz Amarante.

Outro ponto destacado foi o avanço da medicalização e a patologização social. Para Amarante, questões relacionadas à precarização do trabalho, à violência, ao racismo, às desigualdades de gênero e às dificuldades vividas por crianças e jovens vêm sendo progressivamente convertidas em diagnósticos individuais, sem que suas causas estruturais sejam enfrentadas.

“O sofrimento humano está sendo descontextualizado”, avalia o pesquisador, patologizando-se a vida cotidiana, em vez de transformar as condições que produzem sofrimento, tais como” as condições materiais concretas das políticas públicas de proteção do trabalhador, de estabilidade de direitos e outras questões relacionadas à família, bem-estar, à escola, etc”.

José Gomes Temporão: soberania sanitária como política de Estado e o CEIS como eixo estratégico para o futuro do SUS 

A construção de um sistema universal de saúde como o SUS não pode estar dissociada da capacidade nacional de produzir medicamentos, vacinas, equipamentos, tecnologias e conhecimento. Essa foi a mensagem central da intervenção de José Gomes Temporão durante o seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS: 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, promovido pelo site Outra Saúde. Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, Temporão defendeu que a soberania sanitária brasileira precisa deixar de depender de conjunturas de governo e se transformar, definitivamente, em política de Estado. 

Ao reconstruir a trajetória histórica da saúde pública e da produção tecnológica no país, o ex-ministro destacou que o debate sobre autonomia, soberania e sustentabilidade tecnológica do Sistema Único de Saúde atravessa décadas e expressa disputas mais profundas sobre os modelos de desenvolvimento adotados pelo Brasil. 

“Essa discussão expressa tensões entre modelos e concepções de desenvolvimento distintos e mesmo antagônicos”, observou, ao lembrar que setores importantes da sociedade brasileira historicamente se opuseram à industrialização ou defenderam uma industrialização sem domínio nacional das tecnologias incorporadas aos produtos. 

Segundo Temporão, na Saúde, o resultado desse processo foi a consolidação de uma dependência estrutural no campo do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), tema central de sua apresentação. 

Das origens de Manguinhos à vulnerabilidade contemporânea 

Temporão lembrou que a própria origem da Fundação Oswaldo Cruz, 126 anos atrás, está associada à busca por autonomia científica e tecnológica. Conforme recordou, quando Oswaldo Cruz retornou de sua formação no Instituto Pasteur, em Paris, trouxe para o país o que havia de mais avançado em ciência e produção de soros e vacinas naquele momento. 

Até o final da Segunda Guerra Mundial, observou, a indústria farmacêutica brasileira mantinha um padrão tecnológico próximo ao internacional. Esse quadro, no entanto, começou a mudar com as grandes rupturas científicas do pós-guerra, como o surgimento dos antibióticos, novos processos produtivos e o desenho racional de moléculas. 

“A partir daí, as indústrias locais perderam contato com essas novas fronteiras”, resumiu. 

Temporão destacou marcos históricos importantes na tentativa de reconstruir capacidades nacionais, como a criação da Central de Medicamentos, do Programa Nacional de Imunizações, em 1973, e do Programa Nacional de Autossuficiência em Imunobiológicos, em 1986, que destinou, em valores atualizados, cerca de 300 milhões de dólares aos laboratórios públicos brasileiros. 

O legado da 8ª Conferência 

Ao relacionar o debate atual aos 40 anos da histórica 8ª Conferência Nacional de Saúde, Temporão lembrou que a questão produtiva já estava claramente presente nas propostas aprovadas naquele momento. 

O relatório final da Conferência, pontuou ele, defendia o fortalecimento de laboratórios públicos, a produção estatal de imunobiológicos, investimentos em ciência e tecnologia e a formulação de uma política nacional voltada para medicamentos, equipamentos e insumos estratégicos. 

Pandemia expôs dependência estrutural 

Para Temporão, a pandemia de Covid-19 evidenciou “de forma dramática” a vulnerabilidade estrutural do SUS, que especialistas já apontavam há décadas. 

Conforme analisou, o país construiu um dos maiores sistemas universais de saúde do mundo, baseado nos princípios da universalidade, integralidade, equidade e participação social, mas sem que a capacidade produtiva acompanhasse, na mesma escala, as necessidades do sistema.

“Nós temos uma tensão permanente entre as demandas do sistema universal, com grande demanda pública e a forte dependência de importações em áreas críticas. É aí que o conceito de Complexo Econômico-Industrial ganha importância e centralidade estratégica”, explicou.

CEIS como infraestrutura da soberania nacional 

“O SUS tem que ser visto como indutor de inovação, orientador da produção nacional e organizador das prioridades públicas”, afirmou Temporão, destacando que o CEIS vai muito além da indústria farmacêutica e envolve cadeias químicas e biotecnológicas, equipamentos médicos, serviços de saúde, sistemas de informação, conectividade, regulação e formação de profissionais.

Ele apresentou dados apontando que o setor responde, hoje, por cerca de 10 milhões de empregos diretos e indiretos e por aproximadamente 30% do esforço nacional em pesquisa e desenvolvimento. 

Apesar dessa capacidade instalada, o Brasil ainda apresenta déficit comercial expressivo no setor. Segundo os números apresentados, esse déficit já alcança 21 bilhões de dólares, com forte concentração em medicamentos, insumos farmacêuticos, equipamentos e vacinas. 

“O nosso calcanhar de Aquiles continua sendo a produção de conhecimento”, alertou para, em seguida, explicar que o Brasil, embora esteja entre os 15 primeiros países do mundo em publicação de papers em revistas indexadas, praticamente não produz patentes. “São pouquíssimas e pouco relevantes”. 
 

Avanços recentes e limites da nova política industrial 

Temporão reconheceu avanços importantes na retomada da agenda do CEIS no atual governo, especialmente após o decreto presidencial de 2023, que fortaleceu o arcabouço institucional da política industrial da saúde, articulando instrumentos de financiamento, regulação, inovação e poder de compra do Estado. 

Ele destacou os avanços nas Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), voltadas à internalização de tecnologias já disponíveis no mercado, e nos Projetos de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIUs), destinados à inovação tecnológica. Ao mesmo tempo, ponderou que os avanços ainda são insuficientes diante do tamanho do desafio. “Os valores parecem expressivos, mas ainda são insuficientes para dar conta do tamanho do problema que nós temos”.

Entre os principais gargalos apontados estão a capacidade dos laboratórios públicos de absorver tecnologias complexas, a dependência de importação de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), limitações orçamentárias do SUS, fragilidades no sistema de propriedade intelectual e dificuldades de coordenação interministerial. 

Cinco caminhos para a soberania sanitária 

Ao encerrar sua participação, Temporão sintetizou cinco prioridades estratégicas para consolidar a soberania sanitária brasileira:

• transformar a soberania em política de Estado, com base legal permanente; 
• fortalecer o poder de compra do SUS como instrumento de indução produtiva; 
• priorizar áreas críticas como IFAs, vacinas, biológicos, hemoderivados e dispositivos médicos; 
• articular soberania tecnológica e equidade no acesso; 
• incorporar essa agenda às respostas às emergências climáticas e sanitárias. 

Para o pesquisador, a continuidade é o elemento decisivo. “Se nós não tivermos uma norma legal que garanta continuidade, sustentabilidade política e econômica, não vamos avançar” .

Na avaliação de Temporão, o CEIS representa hoje “a maior e mais consistente política já feita pelo país para resolver um problema secular de dependência externa” e pode abrir caminho para “um novo ciclo de desenvolvimento econômico e social”, articulando direito à saúde, inovação e soberania nacional. 

Rômulo Paes de Sousa: nova agenda para o SUS e enfrentamento de “déficits históricos” da Reforma Sanitária

Ao participar do seminário que marcou os 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, o pesquisador Rômulo Paes de Sousa, coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, defendeu que o país precisa recolocar no centro do debate os desafios estruturais do Sistema Único de Saúde e da Reforma Sanitária Brasileira.

Em sua intervenção no encontro promovido pelo site Outra Saúde/Outras Palavras, Paes argumentou que o momento atual exige não apenas a defesa das conquistas acumuladas pelo SUS, mas uma reflexão crítica sobre os limites históricos ainda não superados pelo sistema.

Conforme observou, o Brasil atravessou recentemente dois momentos distintos: “um período de resistência, seguido de um período de restauração das políticas públicas, da autoridade sanitária, das funcionalidades do sistema de saúde, em função da erosão sofrida nos dois últimos governos, antes do governo atual”.

Para Rômulo, esse processo de restauração cumpriu papel fundamental, mas já não é suficiente diante da complexidade dos desafios contemporâneos. “Esse período de restauração está realizado. Agora, voltamos a enfrentar os déficits históricos que o nosso sistema possui”.

Revisitar a trajetória do SUS para compreender suas encruzilhadas

Ao relacionar a 8ª Conferência Nacional de Saúde com os desafios do presente, ele defendeu a necessidade de uma reflexão sobre a trajetória da Reforma Sanitária. Esse processo, segundo ele, exige debate aberto entre os diferentes atores que historicamente construíram o movimento sanitário – inclusive, reconhecendo divergências sobre a avaliação do processo percorrido até o presente.

“Precisamos repensar nossa trajetória no SUS, entender suas encruzilhadas, compreender qual  agenda cabe neste momento e debater isso com muita franqueza.”

Na avaliação do pesquisador, a conjuntura atual impõe um esforço de atualização da leitura política e social sobre o país. Ao mencionar reflexões recentes produzidas pelos pesquisadores Sonia Fleury e Carlos Fidelis (este, presidente do Cebes), nomes históricos do movimento sanitário, Paes ressaltou que o contexto contemporâneo apresenta níveis inéditos de complexidade, exigindo identificar os aliados capazes de sustentar um novo ciclo de transformação.

“Tornar o SUS mais amplo, mais equitativo, mais inclusivo”

Ao projetar os próximos passos da reforma sanitária, Paes destacou que “precisamos enfrentar os déficits históricos do SUS e tornar o sistema mais amplo, mais equitativo, mais inclusivo e mais competente”.

Nesse sentido, o pesquisador defendeu que a agenda da saúde pública precisa voltar a ocupar lugar estratégico no debate nacional, especialmente no contexto político-eleitoral que se aproxima.

Rômulo Paes convocou a todos para participar, no dia 7 de agosto de 2026, da Conferência Livre, Democrática e Popular de Saúde, e reafirmou o papel da Frente pela Vida na articulação política e social em defesa do SUS, destacando a necessidade de mobilizar diferentes forças sociais para recolocar a agenda da Reforma Sanitária no centro do projeto nacional. “É nosso papel mobilizar todas essas potências para preparar a recolocação da agenda do SUS e da reforma sanitária.”

Para o coordenador do CEE-Fiocruz, quatro décadas após a histórica conferência de 1986, o desafio já não é apenas resistir ou reconstruir, mas inaugurar um novo ciclo de transformação capaz de responder às demandas do presente e ampliar o alcance civilizatório do sistema público de saúde brasileiro.





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