As experiências, necessidades e pontos de vista de agentes comunitários de saúde brasileiros e ingleses foram pauta dos cinco dias do workshop internacional Resiliência em Sistemas de Saúde Diante das Mudanças Climáticas, que teve início em 13/4/2026. A iniciativa faz parte da parceria entre o Laboratório de Resiliência em Saúde Pública (ResiliSUS), do CEE-Fiocruz, e o Imperial College de Londres, voltada a compartilhar e disseminar metodologias e experiências que fortaleçam os sistemas de saúde. Esse é o quarto encontro dos dois grupos realizado no Brasil, pelo qual o National Health System (NHS) inglês vem buscando orientar o cuidado à saúde de sua população pela experiência da Estratégia Saúde da Família e dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) do SUS brasileiro, com foco na troca de experiências entre os ACS do SUS e os Community Health and Wellbeing Workers (CHWWs) do sistema de saúde britânico (NHS).
O workshop reuniu pesquisadores e agentes comunitários de saúde, sendo esses últimos os protagonistas do encontro. Foram nove agentes brasileiros, sete do Rio de Janeiro e Duque de Caxias, e dois de origem indígena que atuam no Amazonas, e cinco community health and wellbeing workers ingleses.
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Abriram o evento o coordenador-adjunto do CEE-Fiocruz e líder do ResiliSUS, Alessandro Jatobá, o coordenador do programa de Agentes Comunitários de Saúde em Londres, Matthew Harris, que desenvolve projetos de cooperação internacional baseados no aprendizado bidirecional entre o NHS e sistemas de saúde de países de baixa e média renda, incluindo o Brasil, e a médica Connie Junghans-Minton, especialista em saúde pública e liderança em projetos de equidade e modelos comunitários no Reino Unido, reconhecida pela implementação de estratégias inspiradas diretamente na Estratégia Saúde da Família brasileira.
Entre os integrantes da comitiva inglesa estava o deputado britânico Simon Opher, médico e liderança parlamentar em saúde, acompanhado do cientista social Alex Shankland, do Institute of Development Studies da Universidade de Sussex. Pelo lado brasileiro, participaram, ainda, os pesquisadores do ResiliSUS/CEE-Fiocruz, Cleo Baskin, Hugo Bellas e Jaqueline Viana, além do pesquisador do Laboratório de História, Políticas Públicas e Saúde na Amazônia, da Fiocruz Amazônia, Rodrigo Tobias.
“Esse projeto envolve o aprendizado bidirecional e ações de base territorial no nível da atenção primária”, explicou Jatobá, destacando o caráter colaborativo da iniciativa, que busca integrar práticas e conhecimentos entre os dois países. Ele chamou atenção para o conceito de resiliência, que orienta os trabalhos em curso. “O sistema de saúde resiliente é aquele que consegue sustentar seu funcionamento, garantir a operação de um conjunto de funções essenciais para as suas populações enquanto enfrenta efeitos adversos. E a mudança climática é talvez o grande mobilizador de efeitos adversos nesse momento”, apontou.
Matthew também ressaltou a troca de experiências que o encontro promove “para construir um sistema de saúde resiliente em relação às mudanças climáticas”, com foco na atuação dos profissionais nos territórios e na adaptação dos serviços de saúde aos novos desafios ambientais.
Connie fez uma apresentação sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde, ressaltando que ultrapassar os limites ambientais pode gerar consequências irreversíveis. Ela relacionou o aquecimento global a doenças, desigualdades e crises sociais, e enfatizou o papel estratégico dos agentes comunitários de saúde. “Eles podem atuar como mobilizadores locais para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas”.
Simon Opher, médico clínico geral e deputado do Parlamento inglês, explicou que veio ao Brasil conhecer e se inspirar no trabalho dos agentes comunitários de saúde do SUS para adaptar o modelo ao NHS. “A imitação é a forma mais sincera de reconhecimento”, disse, lembrando que o Brasil é referência no trabalho com esses profissionais, que atuam em áreas mais vulneráveis, visitando as casas para identificar os problemas de saúde das pessoas. “Isso é algo que queremos aprender para o NHS, pois é uma forma de prevenir doenças, atuar antes que elas aconteçam”, ressaltou.
Salário, Saberes, Suprimentos, Supervisão
A partir de uma diversidade de olhares e rotinas, os agentes de saúde responderam questões relacionadas a 4 Ss – salário (em referência à remuneração que recebem), saberes (voltado à formação para o trabalho que desempenham), suprimentos (relativo ao material de trabalho necessário) e supervisão (no que diz respeito ao acompanhamento recebido e à forma como isso se dá). Importância da educação continuada, da formação em primeiros socorros, da definição de um plano de carreira, da definição de espaços de compartilhamento das rotinas e das “angústias”, bem como o entendimento do agente comunitário de saúde como O entendimento gente de Saúde como conector entre as comunidades e as instâncias de decisão política, foram alguns pontos levantados.
“Somos como uma ponte viva no SUS, para fortalecer a ponta”, definiu o agente indígena de saúde Iranilson Militão Gabriel, da etnia Macuxi. “Quando você encoraja um usuário a compartilhar seu conhecimento em uma política pública, você o empodera”, avaliou, destacando a oportunidade de vir da Região Norte e participar do workshop, para sua formação e para a troca de saberes. “Eu sou muito grato por colegas aqui do Rio de Janeiro e da Inglaterra também”, enfatizou.
“Ouvir a comunidade é fundamental. E levar o desejo da comunidade às autoridades políticas, porque Saúde da Família anda junto com políticas públicas”, observou a agente de Duque de Caxias Geslaine Aparecida de Souza Aniceto. “A tecnologia é maravilhosa, mas nada substitui a conversa olho no olho”, afirmou, ressaltando a importância de se “estar aberto ao conhecimento do outro”.
A agente inglesa Sophie Kurpashvili chamou atenção para a possibilidade de esses profissionais garantirem que as comunidades “tenham a informação certa, das fontes certas”, com envolvimento também de líderes religiosos e comunitários. “Nós buscamos fazer com que nossos conselhos e orientações funcionem nas condições locais, em suas culturas, suas religiões, e ter líderes religiosos envolvidos nisso é um ponto muito importante”, considerou.
“Os agentes de saúde atuam nos determinantes sociais e ambientais, mediando a relação das equipes de saúde e as pessoas que vivem no território”, observou Rodrigo Tobias. “São o elo entre essas duas pontas, na produção do cuidado no território”.
Alex Shankland, pesquisador do Institut of Development Studies, Instituto de Estudos de Desenvolvimento, da Universidade de Sussex, no sul do Reino Unido, e, também, professor visitante da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, enfatizou o papel dos agentes para potencializar o controle social. “É uma área em que o Reino Unido pode aprender muito com o Brasil. Antigamente, no Reino Unido existiam os Community Health Councils, que seriam equivalentes aos conselhos (comunitários) de saúde do SUS, mas eles foram extintos na década de 90 e nunca foram substituídos. Até hoje, o NHS, que é o nosso SUS, carece de uma estrutura de participação social”, analisou.
Os resultados do workshop
O workshop Resiliência em Sistemas de Saúde Diante das Mudanças Climáticas foi organizado com o objetivo de cocriar módulos de treinamento e uma estrutura de avaliação em saúde planetária para os agentes comunitários de saúde do Brasil e do Reino Unido. A proposta é desenvolver conteúdos e metodologias que possam ser incorporados aos currículos nacionais, além de formas de avaliar a atuação desses profissionais frente aos desafios das mudanças climáticas, fortalecendo sua inserção em políticas públicas nacionais e internacionais.
A iniciativa também busca impulsionar projetos-piloto a partir do trabalho realizado durante o encontro, destacando o papel estratégico dos ACS na promoção da saúde e na ação climática nos territórios.
Inspirado pela Estratégia Saúde da Família brasileira, o modelo de atuação dos ACS no Reino Unido abre espaço para a troca de experiências entre profissionais dos dois países. O workshop, nesse sentido, apresenta-se como espaço de aprendizagem mútua entre médicos de família e agentes comunitários, fortalecendo o trabalho em saúde comunitária como eixo central da Atenção Primária e da promoção da saúde nos territórios.


