Webinário aborda estratégias intersetorias, medidas inclusivas e acesso às inovações no enfrentamento das doenças negligenciadas – CEE Fiocruz

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Webinário aborda estratégias intersetorias, medidas inclusivas e acesso às inovações no enfrentamento das doenças negligenciadas



POR Andréa Vilhena, Daiane Batista e Eliane Bardanachvili

PUBLICADO 04/02/2026

O contexto histórico, social e político das doenças tropicais negligenciadas no Brasil, as estratégias intersetoriais do Programa Brasil Saudável do Governo Federal e a perspectiva das pessoas afetadas, com foco em direitos, cuidado e enfrentamento de estigmas, foram temas do webinário Doenças tropicais negligenciadas no Brasil — desigualdades persistentes e desafios para as políticas públicas de saúde. O evento foi realizado em 27/1/2026, em alusão ao Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN), celebrado em 30 de janeiro.

Promovido pelo Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz Antonio Ivo de Carvalho (CEE-Fiocruz), o webinário trouxe à tona os desafios persistentes para a formulação de políticas públicas voltadas ao enfrentamento dessas enfermidades, marcadas por profundas desigualdades sociais.

A abertura do webinário foi realizada pelo coordenador do CEE-Fiocruz, Rômulo Paes de Sousa, com moderação de Alda Cruz, vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz, e Tânia Fonseca, coordenadora das atividades do Programa Brasil Saudável na instituição.

Como palestrantes, participaram a ex-ministra da Saúde Nísia Trindade, pesquisadora do CEE-Fiocruz; a sanitarista Patrícia Werlang, assessora técnica do Departamento de Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde; e a jornalista Pollyane Medeiros, coordenadora do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), em Jaboatão dos Guararapes (PE), e liderança do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN). “Um debate reunindo academia, política pública e uma percepção do movimento social”, conforme observou Rômulo Paes ao dar início ao evento.

Conforme destacou, o tema do webinário refere-se a doenças para as quais dispomos de tecnologias no enfrentamento e que, mesmo assim, persistem. “As sociedades toleram um certo nível de risco e algumas patologias para determinados grupos sociais. Isso ocorre historicamente e está vinculado às escolhas que as sociedades fazem ao estabelecer modelos mais solidários ou mais individualistas”.

Alda Cruz agradeceu ao CEE pelo acolhimento do tema e apontou que as DTN afetam majoritariamente populações do Sul Global e estão associadas à escassez de financiamento, medicamentos, vacinas e métodos diagnósticos, em função do baixo interesse comercial. Nesse cenário, ressaltou o papel do Estado no controle dessas doenças.

A vice-presidente chamou atenção, também, para a importância da vigilância pós-eliminação, citando a filariose linfática como exemplo de doença já eliminada e que requer monitoramento contínuo e atuação articulada entre o Ministério da Saúde e a Fiocruz, com destaque para a unidade da Fundação em Pernambuco. Outro ponto enfatizado foi a sífilis, apontada como uma enfermidade que ainda exige avanços em pesquisa, controle, educação em saúde, diagnóstico e tratamento. Alda destacou a atuação da Fiocruz na constituição de uma rede voltada à sífilis e a outras doenças de transmissão vertical, reforçando que a experiência brasileira na eliminação da transmissão vertical do HIV indica a possibilidade de avançar na mesma perspectiva para outras infecções.

Em seguida, ela ressaltou o alinhamento do Brasil com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), defendendo a ampliação do debate sobre doenças que devem integrar a lista de DTNs a partir das prioridades nacionais e reafirmando o compromisso da Fiocruz com a agenda das doenças tropicais negligenciadas.

Agravos a populações específicas

A pesquisadora do CEE-Fiocruz e ex-ministra da Saúde, Nísia Trindade, iniciou sua exposição observando que o debate em torno do tema do webinário se dá em momento de “grandes desafios da saúde global”. Ela se referiu a fatos como a saída dos EUA da Organização Mundial da Saúde, redução dos índices de vacinação daquele país e a retomada registrada no Brasil. “Destaco o papel da saúde global, da OMS, e o compromisso que felizmente o Brasil assumiu, a partir de 2023, na gestão do presidente Lula, em que pude contribuir como ministra da Saúde”, disse Nísia, à frente do projeto de pesquisa Territórios, Desigualdades e Aprendizados Sociais, do CEE-Fiocruz, que tem na discussão sobre territórios saudáveis a pauta das doenças negligenciadas, conforme enfatizou.

A ex-ministra explicou que o conceito de doenças negligenciadas no campo da saúde global emergiu para designar um conjunto de enfermidades que incidem desproporcionalmente sobre populações pobres e socialmente vulnerabilizadas, sobretudo em países de baixa e média renda. “Essas doenças recebem atenção limitada da indústria farmacêutica e dos sistemas de pesquisa e desenvolvimento em saúde, em razão de sua baixa atratividade econômica, apesar de imporem elevada carga de morbidade, mortalidade e incapacidade e forte impacto na vida das populações e grupos afetados”, analisou.

Nísia defendeu uma abordagem intersetorial das doenças negligenciadas, para além do setor Saúde. “Estamos diante de uma classificação que une as dimensões biológica; do conhecimento científico; econômicas e políticas”.

A partir de uma foto registrando uma das viagens científicas do Instituto Oswaldo Cruz, do início do século XX, a pesquisadora falou das doenças “que já se colocavam como evitáveis, relacionadas às condições de vida”, destacando a Doença de Chagas, cujo ciclo completo foi descoberto por Carlos Chagas, em 1909. “Falava-se do abandono como a causa principal dessas doenças. Não era o clima, não era a raça, mas a ausência de políticas públicas”, disse, indicando como fontes para um aprofundamento do tema a revista História, Ciência e Saúde Manguinhos e livros que relacionam ciência e política pública, como A Era do Saneamento, de Gilberto Hochman, Doença de Chagas, Doença do Brasil, de Simone Croft, e seu livro, resultado da tese de doutorado, Um Sertão Chamado Brasil.

Embora muitas das doenças tropicais negligenciadas sejam conhecidas há séculos – “e estamos falando de doenças como a hanseníase, que aparece nos textos bíblicos” –, apontou Nísia, o uso sistemático do termo consolida-se a partir do final dos anos 1990 e início dos anos 2000, “no contexto do debate sobre as falhas do modelo global de pesquisa e desenvolvimento em saúde”. Ela citou como marco desses estudos artigo da pesquisadora Pia Troullier e colaboradores, publicado em 2002, na revista The Lancet, que demonstra empiricamente o que denominou Gap 10/90, em que menos de 10% do investimento global em pesquisa e desenvolvimento em saúde é direcionado a doenças responsáveis por mais de 90% da carga global de doenças.

Conforme destacou Nísia, tendo em vista a baixa atratividade comercial das doenças negligenciadas para a indústria farmacêutica, associada ao baixo poder de compra das populações atingidas – o que constitui “o núcleo explicativo da categoria negligência”–, foi criada em 2003, com importante participação do Brasil, a iniciativa Drugs for Neglect Disease, DNDI, “como uma resposta ética, política e científica a essa lacuna”. Ao lado da DNDI, a pesquisadora destacou também o papel da organização Médicos Sem Fronteiras, que chamou a atenção para a dificuldade de as tecnologias estarem acessíveis às populações, sobretudo das Américas e África.

Ao longo dos anos 2000, prosseguiu a ex-ministra, o conceito evoluiu e se institucionalizou, com a incorporação do termo tropicais pela OMS para designar as doenças negligenciadas, passando-se a organizar a agenda global a partir de uma lista oficial dessas enfermidades, que contava inicialmente com 13 doenças, foi ampliada para 17, e mais recentemente para vinte doenças e grupos de doenças. “O que se discute é a existência de agravos a populações específicas, inclusive em países de renda média, como é o caso do Brasil, onde coexistem sistemas de saúde estruturados e profundas desigualdades sociais”, observou.

Como exemplo, Nísia citou a sífilis, que conta com tratamento disponível, mas dificuldade no acesso ao antibiótico e mesmo falha na produção desse medicamento, durante a primeira década do século passado, além de falhas no pré-natal, que fizeram com que a doença seja, hoje, importante problema de saúde pública no Brasil.

Ela ressaltou o papel do Ministério da Saúde no período em que esteve à frente da pasta, na criação do programa Brasil Saudável, tema da exposição da sanitarista Patrícia Werlang no webinário. “O Brasil Saudável surgiu da criação do Comitê Interministerial para a Eliminação da Tuberculose e Outras Doenças Determinadas Socialmente, ação inédita que, desde sua instituição, em abril de 2023, reforça o compromisso do governo brasileiro com o fim de doenças e infecções determinadas e perpetuadas pelos ciclos de pobreza, fome e desigualdade social”, disse Nísia, destacando que o lançamento do Brasil Saúdável contou com a presença do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom.

A ex-ministra mencionou também o trabalho realizado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Gestão da Inovação em Doenças Negligenciadas da Fiocruz, coordenado pelo professor e ex-presidente da Fiocruz Carlos Morel. Levamos esse entendimento também para a Coalizão Global para a Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, iniciativa liderada pelo Brasil no G-20, em 2024, com secretaria executiva exercida pela Fiocruz.

A exposição de Nísia incluiu uma homenagem ao médico infectologista e pesquisador da Fiocruz João Carlos Pinto Dias, morto em dezembro de 2025. Considerado uma referência na pesquisa, vigilância e controle de doenças parasitárias, em especial, da Doença de Chagas no Brasil, mostrando a importância da participação social e da educação, entre outros aspectos, no enfrentamento dessa enfermidade. Nísia citou uma frase do infectologista: “A vigilância epidemiológica em Doença de Chagas é crucial para a superação desse grave problema de saúde pública, envolvendo hoje – mais do que inovações tecnológicas – desejo político, capacidade organizativa e responsabilidade social”. E concluiu: “Essa frase é inspiradora para todas as nossas ações”.

O cuidado às pessoas afetadas

A perspectiva das pessoas diretamente afetadas pelas DTN esteve no centro da exposição da jornalista e ativista Pollyane Medeiros. Ela destacou que essas doenças são expressão de desigualdades históricas e sociais, atingindo principalmente populações em situação de vulnerabilidade. “São doenças de pessoas que foram negligenciadas pelo poder público”, afirmou, ao defender que o enfrentamento ao problema exige políticas públicas estruturantes, articuladas e contínuas.

Em sua fala, a palestrante reforçou o conceito ampliado de saúde, conforme definido pela OMS, e lembrou que o direito à saúde é garantido pela Constituição Federal. Segundo ela, a persistência das DTN no Brasil evidencia falhas no acesso universal e integral aos serviços de saúde. Pollyane chamou atenção para a necessidade de fortalecer o SUS, ampliar ações de prevenção e diagnóstico precoce, bem como investir em novas tecnologias, medicamentos, vacinas e testes rápidos.

Outro ponto central da apresentação foi o impacto das sequelas físicas, psicológicas e sociais associadas às DTN, agravadas pelo estigma e pelo preconceito. Pollyane ressaltou a importância da saúde mental no cuidado às pessoas afetadas e criticou a demora no acesso a exames de alta complexidade e a especialistas, além da falta de sensibilidade de peritos do INSS na concessão de benefícios sociais. “Muitas pessoas convivem com dores intensas e incapacidades permanentes, mas têm seus direitos negados”, alertou.

A palestrante também defendeu maior investimento em laboratórios públicos, como o Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe), e políticas que garantam acesso a órteses, próteses e calçados adaptados, especialmente para pessoas com sequelas de hanseníase e filariose. Segundo ela, a ausência desses recursos pode levar ao agravamento de feridas crônicas e até a amputações evitáveis.

O programa Brasil Saudável também foi mencionado por Pollyane, que reconheceu a iniciativa como uma conquista importante dos movimentos sociais, mas questionou a efetiva participação de outros ministérios além do da Saúde no enfrentamento das DTN. Para ela, alcançar a meta de eliminação das DTN até 2030 exige ação intersetorial, com investimentos em saneamento básico, controle de vetores e melhoria das condições socioambientais.

Pollyane destacou o papel histórico da Fiocruz e homenageou pessoas afetadas que atuaram na luta por dignidade e direitos, reafirmando a necessidade de desmistificar doenças como a hanseníase. “Hanseníase tem cura. Precisamos curar o preconceito”, concluiu, ao defender que a comunicação e a conscientização sejam permanentes, e não restritas a campanhas pontuais.

Estratégias intersetoriais e o Brasil Saudável

A sanitarista Patrícia Werlag trouxe para o webinário o histórico e as estratégias do Programa Brasil Saudável, criado em fevereiro de 2024. Ela explicou que a iniciativa teve origem no início do terceiro governo Lula, com a criação do Comitê Interministerial para a Eliminação da Tuberculose e Outras Doenças Determinadas Socialmente (CIEDDS), para “reforçar o compromisso do governo brasileiro com o fim das infecções e doenças determinadas socialmente, perpetuadas pela pobreza, pela fome e pelas iniquidades sociais”, conforme descreveu.

Nesse sentido, o Comitê busca promover a integração de políticas públicas, trabalhar a questão das articulações intersetoriais e a articulação interfederativa para que o Brasil Saudável chegue aos territórios”. Outro ponto central é o diálogo permanente com movimentos sociais e organizações da sociedade civil.

O Brasil Saudável estabeleceu diretrizes voltadas à eliminação de 11 doenças e cinco infecções de transmissão vertical, alinhando-se diretamente à meta 3.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como explicou Patrícia. “A meta 3.3 refere-se a acabar com as epidemias de Aids, tuberculose, malária e doenças tropicais negligenciadas, combater as hepatites, as doenças transmitidas pela água e outras infecções transmissíveis”.

De acordo com Patrícia, atualmente, o Brasil Saudável congrega 14 ministérios de diferentes áreas sociais, que atuam de forma integrada para enfrentar doenças associadas às desigualdades estruturais. “O programa é baseado no enfrentamento da fome e da pobreza, para mitigar vulnerabilidades condicionantes ou decorrentes das doenças e das infecções determinadas socialmente ou a elas associadas”.

A sanitarista enfatizou a prioridade dada a grupos populacionais historicamente vulnerabilizados, como “as pessoas em situação de rua, as pessoas privadas de liberdade e as que sofrem estigma e discriminação, como mulheres, povos indígenas, quilombolas e a população negra”, enumerou. O fortalecimento da comunicação entre trabalhadores da saúde, movimentos sociais e organizações da sociedade civil também integra o conjunto de ações estratégicas citadas por Patrícia.

Conforme destacou, outras diretrizes do programa incluem o incentivo à ciência, tecnologia e inovação e a ampliação da infraestrutura e do saneamento básico e ambiental, considerados fundamentais para o controle e a eliminação de diversas doenças como Chagas, esquistossomose, filariose linfática, malária, oncocercose e tracoma, além das transmissões verticais da doença de Chagas, hepatite B, HIV, HTLV e sífilis. O programa também assume metas pactuadas com a Organização Mundial da Saúde até 2030 relacionadas à tuberculose, hepatites, Aids e hanseníase, acrescentou.

Para orientar as ações, foi realizado um estudo epidemiológico que identificou 179 municípios prioritários para atuação. “A carga dessas doenças é bastante significativa e, se conseguirmos trabalhar de forma efetiva nesses municípios, certamente teremos uma melhoria do cenário nesses locais”, considerou.

A assessora reforçou que, embora o Sistema Único de Saúde ofereça diagnóstico, tratamento e cuidados integrais, a eliminação dessas doenças exige ações para além do setor Saúde. “Como são doenças com forte determinação social, temos que trabalhar também outras questões, como acesso a renda, moradia e água limpa e potável”, pontuou.

O Brasil Saudável teve aprovado um orçamento de R$ 45 milhões e passou a integrar a cartilha de emendas parlamentares do Fundo Nacional de Saúde.

Patrícia destacou conquistas recentes do programa, como a eliminação da filariose linfática e, ao final de 2025, da transmissão vertical do HIV. Para ela, o engajamento de diferentes atores é decisivo. “Academia, sociedade civil e gestão são fundamentais para que consigamos dar continuidade e tornar o programa cada vez mais efetivo no enfrentamento e na eliminação das doenças até 2030”, concluiu.

Para encerrar o evento, a mediadora Tânia Fonseca destacou a magnitude global dos agravos das doenças negligenciadas, que, como apontou, atingem mais de 1,7 bilhão de pessoas e provocam uma mortalidade estimada entre 500 mil e 1 milhão de óbitos por ano. “Estamos falando de agravos muito complexos, diferentes na etiologia, nas condições ambientais e na determinação social”, disse. “Muitas delas apresentam transmissão vetorial, ciclos de vida distintos e dinâmicas epidemiológicas diversas, mas existe uma linha em comum entre elas: as condições socioeconômicas”, pontuou.

Tânia também chamou atenção para a mudança no padrão de distribuição dessas doenças. “O que antes estava restrito ao Sul Global hoje se espalha em um mundo que se tornou uma aldeia global. Quando falamos de arboviroses, como a dengue, mais de 50% da população mundial está sob risco de desenvolver a doença”, destacou.

Outro ponto enfatizado foi o baixo investimento histórico em pesquisa e desenvolvimento, especialmente pela indústria farmacêutica, diante de doenças que afetam majoritariamente populações empobrecidas.

Tânia reforçou o papel estratégico da Fiocruz que, ao longo da sua história tem um “comprometimento institucional em responder às demandas de saúde pública da população brasileira, independentemente do extrato social”.

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