Ir para o conteúdo

Home > CEE em Pauta

Saúde mental

Participantes do seminário ‘A Epidemia das Drogas Psiquiátricas’ discutem a medicalização do sofrimento e alternativas para o cuidado em saúde mental



POR Andréa Vilhena e Daiane Batista

PUBLICADO 05/11/2026

A construção de outras possibilidades de cuidado em saúde mental, para além da medicalização do sofrimento, e os desafios da retirada gradual e segura de medicamentos psiquiátricos estiveram entre os temas da décima edição do Seminário Internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas – Repensando o Cuidado em Saúde Mental: Uma Agenda para a Mudança, realizada de 28 a 30 de outubro, no Auditório da OAB-RJ, no Centro do Rio de Janeiro.

O encontro promovido pelo Laboratório de Atenção Psicossocial (Laps/Ensp/Fiocruz), em parceria com o Centro de Estudos Estratégicos (CEE-Fiocruz), reuniu pesquisadores, profissionais de saúde, gestores, usuários e demais interessados em discutir o uso crescente de medicamentos psiquiátricos e seus impactos na saúde mental, além de refletir sobre estratégias para qualificar o cuidado e fortalecer práticas pautadas nos direitos humanos e na atenção psicossocial.

O site do CEE-Fiocruz ouviu o pesquisador Paulo Amarante (Laps/Ensp/CEE-Fiocruz), coordenador do evento, que destacou a importância do acolhimento, da arte, da cultura e da produção de novos significados para a vida; o jornalista e escritor norte-americano Robert Whitaker (Mad in America), que questionou a validade científica do modelo biomédico da psiquiatria contemporânea baseado na doença; o médico Josef Witt-Doerring, ex-integrante da agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e vinculado à TapperClinic (EUA), que abordou técnicas e cuidados necessários para a descontinuação de medicamentos psiquiátricos; e Marcelo Kimati, diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Desmad) do Ministério da Saúde, que participou da mesa de abertura, falando da atuação da pasta diante da epidemia das drogas psiquiátricas como forma de lidar com o sofrimento psíquico.

Leia mais sobre os comentários e acesse os vídeos.

Desmedicalização e outras formas de cuidado

“Discutir a epidemia das drogas psiquiátricas é discutir desmedicalização, mas também discutir outras formas de cuidado.” A reflexão de Paulo Amarante, à frente da coordenação do evento, sintetiza a proposta do encontro, que, neste ano, buscou ampliar o diálogo com a sociedade. O encontro reuniu diferentes atores envolvidos na discussão sobre a reforma psiquiátrica e a transformação do modelo de atenção em saúde mental.

Segundo Paulo, a escolha da OAB teve como objetivo aproximar o debate dos profissionais do Direito, que, segundo o pesquisador, têm sido aliados importantes na luta pela desinstitucionalização e na construção de instrumentos jurídicos fundamentais para a reforma psiquiátrica. Amarante destacou, ainda, que esse diálogo precisa avançar para as questões da desmedicalização e da despatologização.

“Desmedicalização e despatologização não significam apenas tirar remédios. Isso é importante e necessário em muitos casos, mas você tem que criar outras possibilidades de vida, tem que ressignificar o sofrimento humano. Quando não se oferecem outras possibilidades, a velha psiquiatria vai dizer que isso é um transtorno neuroquímico, vai passar medicamento e vai causar outros novos problemas, pelo uso crônico de medicamentos”, afirmou.

Para o pesquisador, ampliar as possibilidades de cuidado significa questionar uma concepção de saúde mental centrada na medicalização do sofrimento e reconhecer outras formas de acolhimento, diálogo e construção coletiva. “O cuidado não é medicamento. Pode fazer parte de alguma situação, mas o cuidado é o acolhimento, é a possibilidade de diálogo, é a possibilidade de troca”, ressaltou.

Arte, cultura e solidariedade

A presença de atividades artísticas e culturais na programação do seminário expressou essa compreensão ampliada do cuidado. A edição contou com apresentações musicais, dança, sapateado, poesia e lançamento de livro, além da participação de iniciativas coletivas que promovem convivência, pertencimento e inclusão social.

Amarante destacou a importância do apoio do Ministério da Saúde e do Ministério da Cultura para a realização do encontro e chamou atenção para o papel das políticas culturais na construção de alternativas ao isolamento e ao estigma vivenciados por pessoas em sofrimento psíquico.

“O Ministério da Cultura mostrou o quanto as iniciativas de arte e cultura são fundamentais para criar um espaço de pertencimento, para criar um diálogo entre as pessoas, para abrir caminhos que, em geral, a pessoa em sofrimento psíquico acaba não tendo. Ela acaba sendo isolada, estigmatizada e não é cuidada”, observou.

O pesquisador também relacionou essas experiências à economia solidária e às iniciativas de geração de trabalho e renda. Para ele, as atividades coletivas e solidárias não apenas favorecem a inclusão, mas permitem que as pessoas reconstruam suas trajetórias e encontrem novos lugares de reconhecimento social.

“É muito legal a gente ver, nesses convidados internacionais, o quanto eles perceberam que através da nossa trajetória, conseguimos, de fato, mostrar o quanto as atividades de grupo, coletivas, solidárias promovem a inclusão”, afirmou.

O modelo da doença retira da sociedade a responsabilidade pelas condições que produzem sofrimento

O jornalista e escritor norte-americano Robert Whitaker, um dos críticos mais proeminentes do modelo biomédico da psiquiatria contemporânea, em comentário ao site do CEE-Fiocruz afirma que esse modelo, baseado na doença, “atende muito bem aos interesses capitalistas” e é fundamental para preservar sua narrativa e sua manutenção. 

Partindo da reflexão sobre o cuidado com a saúde mental diante de um modo de vida imposto pelo sistema capitalista — especialmente em países como o Brasil, marcados por profundas desigualdades —, Whitaker argumenta que o modelo da doença desloca o foco dos problemas sociais para o indivíduo.

Autor do premiado livro Anatomia de uma Epidemia: pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental, e fundador do portal Mad in America, Robert avalia que essa lógica acaba por isentar a sociedade de responsabilidade e “retira do debate os determinantes sociais da saúde, substituindo-os pela ideia de que tudo se resume à química cerebral”.

A pobreza, a desigualdade, os trabalhos entediantes e a necessidade de acumular empregos deixam de ser considerados fatores relacionados ao sofrimento psíquico. Em seu lugar, prevalece a explicação de que o problema, por estar na química cerebral de cada pessoa, deve ser corrigido individualmente.

Retirada de medicamentos psiquiátricos: gradualidade e segurança

Na conferência Guia doiIniciante de retirada de medicamentos psiquiátricos, Josef Witt-Doerring abordou as dificuldades relacionadas à descontinuação gradual de medicamentos psiquiátricos, especialmente em contextos como o brasileiro, e apresentou diferentes técnicas para realizar esse processo com segurança. Entre elas, destacou a possibilidade de transformar o medicamento em líquido para permitir reduções menores e mais graduais das doses.

“A descontinuação gradual de medicamentos pode ser muito difícil em locais como o Brasil. Agora, isso não significa que seja impossível”, afirmou Josef.

O médico também chamou atenção para uma dificuldade importante durante o processo de retirada, que é a possibilidade de confundir sintomas de abstinência com uma recaída da condição de saúde que motivou o uso do medicamento.

“Uma das coisas mais difíceis sobre deixar de tomar medicamentos psiquiátricos pode ser o fato de se diagnosticar incorretamente os sintomas de abstinência como uma recaída da condição subjacente”.

Ao compartilhar sua experiência durante a formação médica, Josef observou que a orientação recebida por ele e por muitos de seus colegas era de que esses medicamentos poderiam ser suspensos em um período relativamente curto, de um ou dois meses. Segundo ele, esse intervalo pode acabar sendo rápido demais.

“Quando eu passei pela faculdade de medicina, assim como muitos dos meus colegas, nos diziam que você pode deixar de tomar esses medicamentos rapidamente, às vezes em um mês ou dois. Na verdade, muitas vezes, é preciso ir mais devagar para largar o medicamento com segurança. O maior risco de uma redução gradual, mas rápida demais, é que você acabará com sintomas de abstinência muito desconfortáveis”.

O conferencista destacou a existência de diferentes técnicas que permitem tornar a redução das doses mais gradual. “Reduções menores que podem, de fato, ajudar você a deixar esses medicamentos com sucesso”.

Quatro frentes de atuação para enfrentar a medicalização do sofrimento psíquico

“O Ministério da Saúde entende o uso de psicotrópicos, a epidemia de diagnósticos psiquiátricos como uma questão importante de saúde pública, na medida em que boa parte desses psicotrópicos são prescritos no próprio âmbito do Sistema Único de Saúde”, avaliou o médico psiquiatra Marcelo Kimati Dias. Por essa razão, a pauta tem sido tratada como uma das prioridades da pasta, destacou.

Para enfrentar o problema, ele explicou que o Ministério vem desenvolvendo ações em quatro frentes. A primeira delas é a comunicação. Nesse campo, o diretor destacou a publicação, em 2026, do Manual de boas práticas de comunicação em saúde mental. A iniciativa busca contribuir para o enfrentamento da identificação indiscriminada das pessoas com diagnósticos psiquiátricos, especialmente nas redes sociais. Kimati ressaltou que o Ministério recomenda que não sejam estimuladas práticas de diagnóstico e autodiagnóstico nesses ambientes.

A segunda frente envolve a qualificação da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e de seus trabalhadores. Para isso, o Ministério da Saúde já desenvolve uma ação em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, voltada à preparação dos profissionais para lidar com os problemas relacionados aos diagnósticos psiquiátricos e ao uso de psicotrópicos.

No campo da assistência, a terceira frente de atuação consiste em desenvolver estratégias de cuidado que não sejam medicalizantes e fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial. O objetivo, explicou Kimati, é recuperar a centralidade dos projetos terapêuticos singulares como eixo organizador da atenção, promovendo um cuidado centrado no sujeito.

A quarta frente diz respeito à reabilitação psicossocial. Nesse sentido, o diretor destacou a importância da ampliação dos centros de convivência, cuja oferta de financiamento pelo Ministério da Saúde foi expandida no último ano. Segundo ele, nos meses mais recentes, foram realizadas as primeiras habilitações desses serviços com custeio federal.

As quatro frentes apresentadas por Marcelo Kimati apontam para uma abordagem que busca superar práticas medicalizantes e ampliar as possibilidades de cuidado em saúde mental. Ao destacar a qualificação da rede, a construção de projetos terapêuticos singulares e a ampliação dos espaços de convivência, o diretor enfatizou a importância de fortalecer uma atenção psicossocial centrada no sujeito, em suas necessidades e em seus projetos de vida.

Dez anos de debate e construção coletiva

Realizado desde 2017, o Seminário Internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas é resultado de uma parceria entre o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental (Laps/Ensp/Fiocruz) e o Centro de Estudos Estratégicos Antonio Ivo de Carvalho (CEE-Fiocruz). Ao longo de sua trajetória, o encontro reuniu pesquisadores, autores e participantes de diferentes países e experiências que questionam práticas tradicionais, conservadoras e medicalizantes no campo da saúde mental.

Na décima edição, a programação também recuperou a memória dos encontros anteriores, com a participação de pesquisadores e atores importantes na construção de experiências críticas à psiquiatria tradicional e ao modelo patologizante do sofrimento humano.

Ao celebrar a trajetória do seminário, Paulo Amarante destacou a importância de manter e ampliar esse espaço de reflexão e articulação. A proposta, segundo ele, é seguir construindo alternativas que reconheçam o sofrimento humano sem reduzi-lo a diagnósticos e prescrições, valorizando a vida, a autonomia, a participação social e as diferentes formas de cuidado.

Compartilhe

Assine nossa newsletter e fique por dentro dos conteúdos do CEE-Fiocruz