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Envelhecimento

Futuro dos idosos depende da promoção da saúde desde a infância, aponta seminário



POR CEE – Fiocruz

PUBLICADO 24/06/2026

O potencial da população idosa para incidir na prosperidade do país; a resiliência do SUS e os avanços nos indicadores de saúde, ao lado de persistentes desafios sanitários a se enfrentar; e a necessidade de realocar a saúde coletiva na posição de pensamento estratégico sobre o país foram pontos defendidos pelos participantes do seminário Antonio Ivo de Carvalho –Perspectivas da Saúde no Brasil, que o Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz realizou em 10 de junho de 2026. O evento reuniu o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence/IBGE), a pesquisadora Deborah Carvalho Malta, professora titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da UFMG, e o ex-ministro e pesquisador do CEE-Fiocruz, José Gomes Temporão, com mediação do presidente da Fiocruz, Mario Moreira, tendo o coordenador do CEE, Romulo Paes de Sousa, como debatedor. A iniciativa buscou contribuir para o aprimoramento das políticas públicas voltadas à equidade e à sustentabilidade do SUS e ressaltar o papel estratégico da Fiocruz nesse processo.

O seminário foi marcado também por uma homenagem, na abertura, ao sanitarista Antonio Ivo de Carvalho (1951-2021), idealizador e primeiro coordenador do CEE-Fiocruz, pelos cinco anos de sua morte, completados no mesmo dia. Um vídeo sobre a trajetória e o legado de Antonio Ivo em prol da democracia e do direito universal à saúde foi exibido. A pesquisadora do CEE e da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fioocruz) Maria Helena Mendonça e a viúva, Ana Furniel, coordenadora do Campus Virtual da Fiocruz, fizeram falas trazendo memórias e histórias relacionadas ao sanitarista. Ao final da homenagem os familiares de Antonio Ivo receberam placas em reconhecimento da Fiocruz “à trajetória brilhante e ao legado ético de um de seus maiores líderes”. 

“Tive a honra, o prazer e a sorte de ser aluno do Antonio Ivo. Foi ele a pessoa que mais me aproximou do entendimento do que seria o Sistema Único de Saúde”, relatou Mario Moreira.

Confira a seguir as exposições dos pesquisadores no seminário ‘Antonio Ivo de Carvalho – Perspectivas da Saúde no Brasil’. E assista à íntegra aqui.

Bônus demográficos e economia da longevidade

José Eustáquio iniciou sua exposição destacando a transição da mortalidade, que passou de altas para baixas taxas, como “a maior conquista humana de todos os tempos”. Ele explicou que, durante 250 mil anos, o aumento da natalidade foi a forma de a população sobreviver e que, ao se reduzirem os índices de mortalidade, a natalidade passou a cair também. “A transição da mortalidade possibilitou a transição da natalidade. E a transição da natalidade é o chão de uma mudança histórica de comportamento”, afirmou.

Conforme contabilizou o pesquisador, no século XX, a expectativa de vida dobrou em todo o mundo, sendo que, no Brasil, passou de 29 para 69 anos – mais do que dobrando. Ele apresentou um gráfico da transição demográfica observada no Brasil de 1800 a 2100, mostrando que o país vem seguindo o padrão do resto do mundo: a taxa de mortalidade cai em determinando momento da história, assim como, um pouco depois,  a taxa de natalidade, até um ponto em que as linhas de mortalidade e natalidade se encontram, indicando crescimento zero, e se invertem, com decrescimento populacional. “Aí começa um alarde, que estamos vivendo na atualidade, que é o medo da implosão populacional, o suicídio populacional, o inverno demográfico. A imprensa tem vários termos para se referir a esse medo da redução da população”.

Em consequência dessa transição demográfica, prosseguiu José Eustáquio, observa-se uma transição da estrutura etária. A população de zero a 14 anos cresceu até os anos 1990 e depois começou a diminuir; também a população considerada em idade ativa, de 15 a 59 anos, percorreu a mesma trajetória, enquanto, no restante do século, cresceu a população idosa de 60 anos e mais, um modelo que se repetiu em todo o mundo. “Não há país com alto nível de desenvolvimento humano que não tenha passado pela transição demográfica”, ressaltou. “É um pré-requisito para a redução da pobreza e a melhoria das condições de vida”.

Conforme pontuou o pesquisador, o século XX foi o século da transição demográfica, enquanto o século XXI vai ser o século da transição da estrutura etária. “Por exemplo, no Brasil, em 1950, havia 11 crianças de 0 a 14 anos para cada idoso de 60 anos e mais. No ano 2000, o número passou para 26 para cada idoso. No século XXI, o índice de envelhecimento (IE) – proporção entre a população idosa e a população jovem – do mundo vai ser multiplicado por quase seis, enquanto o do Brasil vai ser multiplicado por 12. Ou seja, o ritmo do envelhecimento brasileiro será duas vezes maior do que o do resto do mundo”.

O pesquisador fez uma comparação entre as trajetórias do Brasil e da França, no que diz respeito à velocidade do envelhecimento populacional. A França foi o primeiro país a atingir o índice de 7% de idosos com 65 anos e mais na população, em 1870, e vai chegar a 28%, em 2070, ou seja, terá levado 200 anos para fazer esse movimento. Já o Brasil passará de um percentual a outro em 50 anos, tempo quatro vezes menor do que levou a França. 

A transição demográfica, pontuou José Eustáquio, gera uma janela de oportunidade. Ele mostrou, em outro gráfico, que, em meados do século passado, havia uma pessoa dependente para cada pessoa em idade de trabalhar e essa proporção se encaminhou para duas pessoas em idade de trabalhar para uma pessoa dependente. “Isso é o que a gente chama de bônus demográfico, quer dizer, a demografia dando um gás para a economia”, explicou, acrescentando que, no entanto, esse primeiro bônus demográfico é temporário, “tem data de nascimento e data de óbito”, o que acaba assustando. “Fala-se, por exemplo, que estamos indo do bônus para o ônus, que teremos uma crise fiscal geriátrica no Brasil, que o envelhecimento é um fardo para a sociedade, porque se analisa só a partir da razão de dependência”, ponderou. 

Para José Eustáquio, o decrescimento da população não é “o fim da linha”, ao contrário, pode estimular a recuperação e o avanço social e econômico dos países. Ele chamou atenção para a existência de um segundo e um terceiro bônus demográfico e citou o prêmio Nobel de Economia 2024 turco-americano Daron Acemoglu, para tratar do segundo bônus, da produtividade. De acordo com estudos do economista, disse, existe uma correlação entre a população diminuir ou parar de crescer e um impulso na produtividade. 

“O uso de robôs, de inteligência artificial, de automação cresce nas economias que reduziram o ritmo de crescimento populacional. As pessoas falam que o uso de robô vai gerar desemprego, mas os países que têm mais robôs são os que têm menos desemprego”, observou, fazendo, no entanto, uma ressalva apenas quanto à inteligência artificial: “Ainda tenho algumas dúvidas sobre como vai se dar essa administração”.

O terceiro bônus demográfico, por sua vez, prosseguiu o pesquisador, refere-se à longevidade. O Brasil vai chegar ao final do século contabilizando 40% da população com 60 ou mais anos de vida, e, por volta do ano 2070, com mais gente de 50 anos e mais do que de 0 a 49. “Se essa quantidade de idosos for uma população doente, analfabeta, sem transporte coletivo, sujeita à violência, é claro, vai ser um fardo”, alertou. Já a população saudável, ativa, colaborativa, integrada à família, à sociedade, nos bairros, nas comunidades, ponderou, constituirá o bônus da longevidade. 

O pesquisador trouxe dois exemplos de países que aumentaram a renda per capita e melhoraram a qualidade de vida da população em um cenário de envelhecimento e decrescimento populacional: Polônia e Taiwan. O primeiro veio reduzindo a população desde os anos 1990, sendo que a renda per capita triplicou no mesmo período. Já Taiwan vem passando por decrescimento da população desde 2019, enquanto a renda cresceu mais de 9% de lá para cá. 

José Eustáquio apresentou também dados comparativos referentes aos índices de envelhecimento do Brasil (80 idosos para cada 100 crianças) e dos estados brasileiros, segundo o Censo de 2022. Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro já contavam na época com mais idosos do que crianças de zero a 14 anos, 115 e 106, respectivamente. Roraima e Amapá, no entanto, apresentavam cenário inverso, com 27 e 31 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, respectivamente. “Esses dois estados ainda estão no primeiro bônus demográfico, que ainda vai demorar a acabar. Em compensação, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, já acabou”, observou o pesquisador, que fez, ainda, uma correlação entre a expectativa de vida e a taxa de fecundidade. 

“No ano 2000, todos os estados tinham fecundidade acima de dois filhos por mulher, ou seja, acima do nível de reposição, e a expectativa de vida era de menos de 75 anos. Em 2025, apenas um estado, Mato Grosso, apresentava taxa de fecundidade acima do nível de reposição e todos já estavam com expectativa de vida de 74 anos para cima. Em 2050, todos os estados estarão com taxa de fecundidade abaixo do nível de reposição e expectativa de vida acima de 80 anos, e, em 2070, essas aqui são as projeções do IBGE, com 83, 84 anos de expectativa de vida e em torno de 1,6 filhos por mulher.

O pesquisador encerrou sua intervenção apresentando recomendações para se aproveitar o segundo e o terceiro bônus demográficos: investimento científico e tecnológico, fomento à economia da longevidade, reorganização do ciclo vital e flexibilização laboral. “Fomos criados com a ideia de que o jovem estuda, o adulto trabalha e o idoso descansa. Essas caixinhas já não fazem mais sentido”, observou. “A economia da longevidade é uma etapa do desenvolvimento humano. Se a gente souber aproveitar bem o potencial dessa população idosa, o país pode prosperar, acabar com a pobreza e melhorar a qualidade de vida da população”. 

Avanços nos indicadores de saúde e persistência de ‘desafios sanitários’

As transformações demográficas e epidemiológicas vividas pelo Brasil e seus efeitos sobre o perfil de adoecimento e mortalidade da população pautaram a apresentação da pesquisadora Deborah Carvalho Malta. Ela analisou dados do estudo Global Burden of Disease (GBD), revelando avanços importantes nos indicadores de saúde do país, mas também a persistência de desigualdades e o crescimento de problemas desafiadores.

Como observou, inicialmente, os 35 anos do sistema público de saúde brasileiro foram marcados por conquistas expressivas, como expansão da atenção primária, fortalecimento da Estratégia Saúde da Família, ampliação da assistência farmacêutica, políticas de promoção da saúde, medidas de controle do tabagismo e o sucesso do Programa Nacional de Imunizações, que contribuíram para reduzir a mortalidade e ampliar o acesso da população aos serviços de saúde. Além disso, melhorias nas condições de vida, no saneamento básico e em políticas de proteção social também exerceram impacto positivo sobre os indicadores de saúde, apontou. “Eu destacaria o Bolsa Família e outros inúmeros programas desenvolvidos a partir, especialmente, dos governos democráticos populares, do governo do presidente Lula e da presidenta Dilma”. 

Os dados apresentados mostram que, entre 1990 e 2023, o número absoluto de óbitos no Brasil cresceu de 860 mil para 1,4 milhão, reflexo do aumento populacional. No entanto, quando se observam as taxas de mortalidade padronizadas, o cenário é mais favorável: houve redução de 34% no período, resultado observado em todas as regiões e estados do país. Para a pesquisadora, esse declínio evidencia os efeitos positivos das políticas públicas de saúde e das melhorias socioeconômicas ocorridas nas últimas décadas. 

Apesar dos avanços, pontuou, o estudo revela que as doenças crônicas não transmissíveis seguem como principal desafio sanitário do país. Doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e enfermidades respiratórias continuam liderando as causas de morte, embora com taxas significativamente menores do que as registradas nos anos 1990. Ao mesmo tempo, o envelhecimento populacional tem ampliado a importância de condições como Alzheimer e outras demências.

Outro aspecto destacado foi o peso crescente dos transtornos mentais e das incapacidades. Quando a análise considera não apenas as mortes, mas também os anos vividos com limitações causadas por doenças, ansiedade e depressão aparecem entre os principais fatores responsáveis pela perda de qualidade de vida da população brasileira. Os transtornos de ansiedade, por exemplo, passaram a ocupar o primeiro lugar entre as causas de incapacidade no país. 

A pesquisadora também chamou atenção para a persistência das violências como importante problema de saúde pública. As agressões figuram entre as principais causas de morte prematura, especialmente entre jovens de 15 a 29 anos. Ao lado das doenças crônicas e dos transtornos mentais, as causas externas configuram-se como um dos principais desafios para o sistema de saúde brasileiro.

Os fatores de risco associados às doenças também foram analisados. Entre as mulheres, em 2023, destacam-se “pressão arterial elevada, e aqui toda a questão das doenças cardiovasculares, do diabetes, a glicose elevada, o índice de massa corporal, a importância do crescimento do IMC e da obesidade, os riscos dietéticos e o tabagismo.” Entre os homens, neste mesmo ano, foi observada que “a carga atribuível de fatores de risco é mais elevada do que entre mulheres”, explica a pesquisadora, apontando “em primeiro lugar, a pressão arterial, seguida do tabagismo, riscos dietéticos, glicose elevado e IMC elevado”. Embora a mortalidade atribuível a esses fatores tenha diminuído ao longo das últimas décadas, eles continuam exercendo forte impacto sobre a saúde da população. Deborah Malta destacou, por exemplo, que o tabaco ainda está associado a mais de 140 mil mortes anuais no Brasil, apesar de o país ser referência global na redução do tabagismo, “desde a aprovação da Convenção Quadro (da OMS) para Controle do Tabaco, em 2006, e da Lei dos Ambientes Livres, em 2014 (Lei Antifumo, nº 12.546/2011, regulamentada em 2014, pelo Decreto nº 8.262 do Governo Federal, que extinguiu os fumódromos e instituiu ambientes 100% livres de tabaco em locais de uso coletivo fechados em todo o país)”.

O estudo identificou ainda “profundas desigualdades regionais”. Estados com melhores indicadores de renda, escolaridade e desenvolvimento social apresentaram reduções mais expressivas da mortalidade ao longo do período analisado, enquanto unidades da federação mais vulneráveis registraram avanços mais modestos. “Avançamos, mas de forma desigual”, observou a pesquisadora. 

Ao abordar os impactos recentes da pandemia de Covid-19, ela destacou que o país sofreu uma perda significativa de expectativa de vida entre 2019 e 2021, especialmente, nos estados da Região Norte, onde se concentraram importantes vazios assistenciais. “No pós-pandemia, a gente recupera o que foi perdido na pandemia”, o que mostra a resiliência do SUS, como avalia. 

Para a pesquisadora, o país tem ainda pela frente inúmeros os desafios. “Eu destacaria especialmente o envelhecimento populacional com crescente carga de doenças crônicas, transtornos mentais e demências”, apontou, considerando que, para lidar com o desafio do envelhecimento populacional é preciso “avançar com expectativa de vida saudável”. Para isso, defendeu o fortalecimento das ações de promoção da saúde e prevenção de doenças e a ampliação da qualidade da atenção primária e das redes de cuidado. Na melhoria dos indicadores de saúde, acrescentou, ainda, a importância da adoção de ações regulatórias voltadas ao controle do tabaco, do álcool e dos alimentos ultraprocessados, assim como a atuação na redução das desigualdades sociais e da violência. 

Por uma ‘Reforma Sanitária de segunda geração’

Em sua exposição, o ex-ministro da Saúde e pesquisador do CEE-Fiocruz, José Gomes Temporão, defendeu a necessidade de “ampla transformação das políticas públicas” para enfrentar os desafios impostos pelo envelhecimento populacional brasileiro. Ele abriu destacando a contribuição intelectual de Antonio Ivo de Carvalho para o campo da saúde coletiva, afirmando que ele compreendeu, como poucos, que “a saúde pública é uma forma de entender a dinâmica social, identificar seus conflitos e construir respostas coletivas orientadas por direitos”.

Para o pesquisador, o Brasil vive uma realidade singular, enfrentando uma transição demográfica e epidemiológica distinta da observada em países europeus. “Nós não teremos uma transição linear, previsível e relativamente homogênea como ocorreu em parte da experiência europeia”, avaliou. “Na verdade, estamos diante de uma transição acelerada, desigual e incompleta, e que se combina com problemas históricos e estruturais ainda não resolvidos”.

Conforme observou, o envelhecimento da população ocorre em um contexto marcado por violência, acidentes de trânsito, ausência de saneamento adequado, desigualdades regionais, racismo estrutural e subfinanciamento do sistema público de saúde. Diante desse cenário, argumentou, o debate não deve se restringir à ampliação da oferta de serviços. “A pergunta não é como ampliar a oferta, como ampliar o acesso aos cuidados, mas sim como repensar o SUS, as políticas econômicas e sociais e regular o conjunto do sistema de saúde brasileiro, para produzir mais anos de vida saudável com equidade, autonomia, proteção social e sustentabilidade”.

O pesquisador apontou a determinação social da saúde como questão central nesse cenário. “A determinação social não é um adendo ao debate demográfico-epidemiológico, ela muda radicalmente a natureza do problema. O Brasil não envelhece de maneira homogênea, adoece de modo desigual, morre de modo desigual”, considerou. 

Segundo ele, a própria denominação idoso brasileiro esconde realidades distintas. Enquanto alguns contam com renda estável, moradia adequada e acesso regular a cuidados, milhões envelhecem em territórios marcados pela pobreza, insegurança alimentar, precariedade habitacional e ausência de redes de apoio.

Como resposta a esse quadro, Temporão propôs o que chamou de uma reforma sanitária de segunda geração, baseada na construção de uma estratégia nacional de longevidade mais equitativa.  “A resposta, então, poderia ser uma reforma sanitária de segunda geração, ou reforma ousada e disruptiva, uma reforma do cuidado, da equidade, do enfrentamento dos determinantes sociais, ambientais e comerciais da saúde, fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, regulação do mercado privado e do financiamento necessário para a saúde universal”.

O pesquisador também defendeu o fortalecimento da atenção primária à saúde. “Temos que entendê-la como plataforma territorial de cuidado e centro de inteligência sanitária local”, disse. “Temos que transformar a prevenção em política de Estado. Temos que enfrentar os determinantes sociais, ambientais e comerciais da saúde por meio de políticas regulatórias”. E alertou: “Não haverá sustentabilidade se continuarmos a financiar apenas o tratamento do impacto dos riscos produzidos social e comercialmente”.

Temporão propôs uma abordagem intergeracional da longevidade, argumentando que o futuro da saúde dos idosos depende das condições de vida das crianças e adolescentes de hoje. “Essa agenda da longevidade saudável tem início na gestação, no nascimento, na primeira infância e na adolescência”, enfatizou. “Investir hoje em cuidado, proteção, desenvolvimento e equidade na infância é reduzir amanhã a multimorbidade, o sofrimento mental, incapacidade, violência, dependência funcional e desigualdades acumuladas ao longo do curso da vida”.

Para o pesquisador, a transição demográfica brasileira representa “um teste civilizatório sobre como cuidamos da vida, da autonomia, da dependência e da desigualdade”. Ele defendeu um SUS “mais regionalizado, mais resolutivo, mais digital, mais cuidador, mais orientado por equidade”, reafirmando a necessidade de uma nova reforma sanitária, capaz de fortalecer o cuidado, enfrentar as desigualdades e garantir o financiamento adequado da saúde universal.

“O desafio, hoje, é recolocar a saúde coletiva na posição que nunca deveria ter perdido, de pensamento estratégico sobre o Brasil”, pontuou, em referência ao legado de Antonio Ivo. “O futuro da saúde brasileira será decidido pela capacidade de articular cuidado individual, proteção social, democracia, desenvolvimento e justiça. E, no caso brasileiro, isso tem um nome institucional, político e ético, que é o nosso Sistema Único de Saúde”, concluiu.

Atenção às doenças crônicas e às desigualdades territoriais

Ao abrir o debate, o presidente da Fiocruz e moderador da mesa, Mario Moreira, ressaltou a importância da iniciativa do Centro de Estudos Estratégicos (CEE-Fiocruz) em trazer à tona o tema da transformação demográfica e epidemiológica. “O seminário traz uma reflexão fundamental sobre o papel da Fiocruz diante das transformações em curso no país”, destacou. “O tema nos provoca ao trazer a Fiocruz como um ator importante nesse cenário”. 

Em suas intervenções ao longo do evento, Mario Moreira destacou que a transição demográfica está entre os principais desafios da saúde pública contemporânea. “O Brasil, que ainda é marcado pelas doenças infecciosas, hoje se depara com um quadro sanitário totalmente distinto, justamente provocado pela longevidade, com as doenças crônicas não transmissíveis”, observou.

O presidente da Fiocruz chamou atenção para a necessidade de aprofundar análises territoriais sobre os efeitos da transição demográfica e epidemiológica, considerando as desigualdades existentes entre regiões e grupos populacionais. “Mesmo os dados apresentados por estados carregam uma desigualdade muito grande. O desafio é granular essas informações para um ambiente mais territorializado”, propôs.

Ele abordou também os impactos econômicos do novo perfil epidemiológico sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente diante do crescimento das doenças crônicas não transmissíveis, “que exigem outro ambiente assistencial e outra abordagem terapêutica”, e das demandas de cuidado de longo prazo. “Há uma dimensão econômica de pressão sobre o sistema público de saúde que essa nova carga de doenças traz”, afirmou.

Mario Moreira defendeu que a longevidade seja tratada a partir de uma perspectiva ampla, articulada às políticas de promoção da saúde, ao longo de todas as etapas da vida. “Uma política de saúde para a longevidade não é uma política de saúde do idoso apenas. É uma política para o ciclo da vida, na abordagem da promoção da vida. Quem não se desenvolve saudável não terá uma vida saudável quando atingir uma idade mais avançada”, concluiu.

Viver mais não é necessariamente viver melhor

Ao encerrar o Seminário Antonio Ivo de Carvalho – Perspectivas da Saúde no Brasil, o coordenador do CEE-Fiocruz, Romulo Paes de Sousa, destacou que “nós temos um Brasil, hoje, mais velho, país mais rico, com maior acesso a serviços de saúde e bens e serviços de saúde no sentido geral, mas um país com enorme desigualdade”. 

Para lidar com o envelhecimento da população brasileira e as mudanças no perfil epidemiológico, reiterou Romulo, será preciso estratégias capazes de promover saúde e qualidade de vida ao longo de todo o ciclo de vida. Afinal, como sublinhou, “viver mais não é necessariamente viver melhor”.

Nesse contexto, chamou atenção para temas como as transformações nas estruturas familiares e a crescente demanda por cuidados de longa duração e refletiu sobre as contribuições que a Fiocruz pode oferecer, por “reunir condições singulares” para incorporar esses desafios à sua agenda de pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico. 

Ele apontou prioridades a serem estabelecidas, como o fortalecimento da capacidade diagnóstica, a preparação para emergências sanitárias e o desenvolvimento de tecnologias que possam responder tanto às doenças infecciosas quanto às crônicas. Para o coordenador do CEE, a construção dessas respostas deve combinar experiências já consolidadas e novas abordagens. “A solução é sempre a combinação de alternativas existentes, que se mostram com possibilidade de escala, e inovações”, considerou.

Romulo ressaltou ainda a importância de se fortalecer a capacidade nacional de produção tecnológica e ampliar a cooperação internacional, especialmente para diversificar e ampliar a oferta de soluções estratégicas para o país. Destacou também a necessidade de se investir na formação e qualificação de profissionais para o SUS, aproximando a produção de conhecimento das práticas de gestão e atenção à saúde. Ao final, anunciou que os debates do seminário terão continuidade em publicações organizadas pelo CEE-Fiocruz, incluindo textos dos conferencistas disponibilizados no site do Centro, e a publicação de um livro. A publicação reunirá a contribuição dos três integrantes da mesa, mais um capítulo de sua autoria, com a pesquisadora  Miriam Minayo. “Vamos trazer essa discussão (dos impactos das transformações demográficas e epidemiológicas para a saúde pública) para o contexto da Fiocruz, em termos de oportunidades e desafios”.

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