Fiocruz recebe, em parceria com a Abrasco, a ativista indígena Emma Te-Patu, em agenda voltada a saúde, meio ambiente e equidade

Fiocruz recebe, em parceria com a Abrasco, a ativista indígena Emma Te-Patu, em agenda voltada a saúde, meio ambiente e equidade

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A Fiocruz recebeu, em parceria com a Abrasco, nos dias 24 e 25 de julho de 2025, a ativista indígena neozelandesa Emma Rawson-Te Patu, no Rio de Janeiro. Originária do povo maori, Emma é a primeira indígena a presidir a Federação Mundial de Associações de Saúde Pública (WFPHA, na sigla em inglês) – organização da sociedade civil que reúne 130 associações nacionais e mais de 5 milhões de profissionais de saúde ao redor do mundo.

Acompanhada do coordenador do Centro de Estudos Estratégicos Antonio Ivo de Carvalho (CEE-Fiocruz), Rômulo Paes de Sousa, ela visitou o Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris/Fiocruz) e encontrou-se com o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, para conhecer o trabalho da instituição.

“Conversamos sobre o potencial de atuação em parceria, especialmente na área de pesquisas sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde”, relatou Mario Moreira. “Nessa nova arquitetura de cooperação internacional, entendemos que o trabalho em conjunto com instituições como a WFPHA é muito importante e pode ser potencializado pela nossa diversidade de áreas de atuação e pelo fato de que estamos em todo o Brasil”, registrou o presidente da Fiocruz em suas redes sociais.

No Cris/Fiocruz, Emma foi recebida pelos pesquisadores Luiz Eduardo Fonseca e Lucia Marques.

À tarde, Emma visitou a Maré, o conjunto de favelas mais populoso do Rio, recebida por dirigentes do projeto Redes da Maré, formalizado em 2007, voltado à garantia dos direitos da população residente, de mais de 140 mil pessoas. “Qualquer criança nascida na Maré, hoje, pensa em ir para a universidade. Há vinte anos, isso não acontecia”, relatou Douglas Oliveira, do Setor de Relacionamento Institucional do Redes da Maré, ao apresentar o projeto para Emma, ao lado do coordenador do Eixo de Direitos Urbanos e Socioambientais, Everton Pereira, ambos moradores da comunidade, e da coordenadora do Eixo de Direito à Saúde, Carolina Dias.

Emma explicou que costuma se apresentar da forma como o povo maori se concebe, de uma “perspectiva geográfica”, como uma pequena parte de um todo, composto por mar, rio e montanhas. Conforme observou, chamou sua atenção a complexidade de um país como o Brasil, em especial, a diversidade da população brasileira, e sua “multiplicidade de faces”.

A ativista disse ter identificado semelhanças entre os desafios enfrentados pelo Brasil e os demais países que tem visitado, e com a própria Nova Zelândia, em especial, no espectro político, referindo-se à guinada para a direita de governos e populações – em seu país, o Partido Nacional, conservador, venceu as eleições em 2023, estabelecendo um governo considerado o mais à direita em 40 anos.

Ela destacou também desafios relativos à dificuldade com que as populações vulnerabilizadas acessam seus direitos . “Os sistemas globais de saúde não olham para essas populações”, observou Emma, que se descreve como uma “promotora da saúde” em seu ativismo.

Nesse sentido, a pandemia de Covid-19 foi lembrada, tendo em vista que a Nova Zelândia se tornou um caso de sucesso no controle da pandemia. Douglas lembrou que, diferentemente da experiência neozelandesa, o Brasil enfrentou muitas dificuldades para lidar com a Covid-19, e a Maré mostrou-se como exceção, revelando capacidade de mobilização e organização, em ações como distribuição de alimentos, comunicação e informação comunitária.

A passagem de Emma pelo Rio de Janeiro incluiu também uma entrevista ao programa Em Pauta do Canal Saúde da Fiocruz e finalizou com uma visita às instalações da Abrasco.

Emma veio ao Brasil – pela primeira vez – por conta de sua participação na Conferência Global sobre Clima e Saúde 2025, que será realizada em Brasília, de 29 a 31 de julho e cumpriu algumas agendas no país. Em Fortaleza, participou do 5º Seminário de Saúde, Ambiente e Sustentabilidade: Fiocruz Frente à Crise Ecológica e Climática, realizado na Fiocruz Ceará. No evento, defendeu o conhecimento indígena como chave para uma sociedade planetária mais sustentável. Em seguida foi para Salvador (BA), para uma sessão sobre Letramento Digital Intercultural, no Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

Ela deverá retornar ao Brasil em novembro, para participar da COP 30, em Belém (PA).
 

Sobre Emma Rawson-Te Patu 

Emma Rawson-Te Patu nasceu em Auckland, Aotearoa, na Nova Zelândia, onde vive, filha de pai do povo indígena maori e mãe pakeha (termo maori para definir os não maori, geralmente descendentes de europeus). Após a morte do pai, mudou-se, ainda bebê, com a mãe para Canterbury, onde foi criada “em ambiente branco de classe média-alta", sem, no entanto, perder o contato com a família maori.  

Em 2024, Emma Rawson-Te Patu tornou-se a primeira indígena a presidir a organização da sociedade civil Federação Mundial de Associações de Saúde Pública (WFPHA). Foi fundadora e integra o Grupo de Trabalho Indígena da Federação, e foi consultora da Comissão de Direitos Humanos da Nova Zelândia.

Em Aotearoa, é diretora da consultoria indígena ManuKahu Associates, que administra com o marido, e editora (Tangata Whenua) no Centro de Comunicação em Saúde Pública da Universidade de Otago, em Wellington. 

Com pós-graduação em saúde pública na Faculdade de Medicina da Universidade de Otago, Emma trabalhou em unidades de saúde pública vinculadas aos conselhos distritais de saúde e atuou com profissionais de saúde apoiando-os em suas funções de modo a se tornarem mais receptivos às necessidades dos povos maori. Esse trabalho ganhou reforço com o mestrado em saúde pública pela Universidade de Tecnologia de Auckland, com foco em racismo institucional.

Em sua função como presidente da WFPHA, Emma toma como objetivo de “descolonizar a saúde pública globalmente”.  (Com informações da The Lancet)

 

Ativista indígena neozelandesa Emma Rawson-Te Patu com o presidente da Fiocruz Mario Moreira. Foto: Peter Ilicciev