Para evitar colapso, países devem reforçar metas já para 2030, diz relatório

Para evitar colapso, países devem reforçar metas já para 2030, diz relatório

Já leu

Publicado no Observatório do Clima 

O consórcio de cientistas Climate Action Tracker (CAT) publicou nesta segunda-feira (10) um relatório no qual reforça que as metas climáticas dos países estão longe do necessário para controlar o aquecimento global. Segundo o documento, os governos não estão implementando com a ambição e a urgência necessárias nem mesmo as metas insuficientes que apresentaram. A análise destaca quatro elementos-chave – ambição, finanças e equidade, credibilidade e transparência – para que a próxima rodada de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês), em 2025, seja mais efetiva, o que inclui olhar com atenção para 2030. Veja abaixo as lacunas em cada um deles:  

1. Ambição

Uma estimativa do CAT confirma o quanto as atuais metas são insuficientes: se cumpridas, gerariam 2,5ºC de aquecimento em 2030 (extrapolando em 1ºC a meta de Paris). Apesar de os governos terem prometido em 2021, na Conferência do Clima (COP26), em Glasgow, revisitar e reforçar as metas para 2030, o impacto de aquecimento das atuais metas piorou 0,1ºC nos dois últimos anos, saindo de 2,4ºC para 2,5ºC. “Adiar a ação até 2035 não é uma opção e não é aceitável. Será tarde demais. Sem metas e ações imediatas e reforçadas para 2030, não será possível limitar o pico do aquecimento global a 1,5 °C e provavelmente levará a uma ultrapassagem elevada deste limite durante décadas, mesmo que seguida de metas fortes para 2035 e de uma remoção significativa de dióxido de carbono”, diz o relatório. “Para alcançar o reforço necessário das metas para 2030, os governos devem passar para modo de emergência”, completa.

Segundo a publicação, embora os objetivos globais exijam uma abordagem personalizada por região, cinco ações de mitigação até 2030 são urgentes:

  1. Globalmente, a produção de combustíveis fósseis precisa cair pelo menos 40% em relação aos níveis de 2022, e  os subsídios precisam parar;
  2. O crescimento global da produção de energias eólica e solar precisa acelerar;
  3. Transportes, edifícios e indústria necessitam de eletrificação e maior eficiência energética;
  4. As emissões de metano provenientes dos combustíveis fósseis, relacionadas com energia, agricultura e resíduos devem ser reduzidas em 66% em relação aos níveis de 2020, enquanto  o metano total vindo de todas as fontes deve diminuir 34%.
  5. As taxas anuais de desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa associadas deverão diminuir em 70% em relação aos níveis de 2018. Já os sumidouros de carbono deverão ser protegidos e expandidos de forma sustentável.

2. Finanças e equidade

De acordo com o CAT, nenhum país está mobilizando financiamento climático suficiente. O relatório lembra que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) informou que em 2022 os países desenvolvidos ultrapassaram pela primeira vez a meta anual de US$ 100 bilhões prometidos. O montante alcançou US$ 115,9 bilhões, mas a meta foi estabelecida em 2009 e deveria ser paga entre 2020 e 2025, totalizando US$ 600 bi. “Sabemos que a meta de US$ 100 bilhões não reflete as necessidades dos países em desenvolvimento. Os países desenvolvidos precisam aumentar urgentemente o montante do financiamento climático que prometeram para apoiar uma transição justa e equitativa para um mundo compatível com [o Acordo de] Paris”, diz o documento.

Uma nova meta de financiamento, inclusive, é o que está dominando a SB60, conferência do clima da ONU em Bonn, na Alemanha, iniciada no dia 3 de junho. Até o momento, os países não chegaram a um acordo para a Nova Meta Quantificada Global (NCQG, na sigla em inglês).

3. Credibilidade

Neste tópico, o CAT destaca que os principais fatores que facilitam a governança climática incluem o compromisso político dos governos com a descarbonização. “Os governos devem basear as NDCs em um planejamento setorial robusto, acelerar a implementação e eliminar políticas contraditórias que apoiam a exploração e subsídios de combustíveis fósseis”, diz. O Brasil é citado como um mau exemplo por continuar investindo em combustíveis fósseis.

4. Transparência

No último elemento-chave, o CAT destaca que os países devem estabelecer metas absolutas de redução de emissões nacionais em toda a economia para todos os gases de efeito estufa, separando nitidamente o setor florestal e excluindo métodos de captura de carbono e mercados de carbono. Além disso, devem ser mais transparentes sobre a contribuição da silvicultura e do uso da terra. (PRISCILA PACHECO)