Impacto da desinformação e do ceticismo na ciência em pauta no webinário do Projeto Enfrenta
Impacto da desinformação e do ceticismo na ciência, no campo da saúde, foi tema de um dos webinários do Projeto Enfrenta, realizado online, em 19/09. A iniciativa é fruto da parceria entre a Academia de Ciências da Bahia (ACB) e a Fundação Conrad Wessel (FCW). O evento contou com a participação da diretora do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (Decit/MS), Ana Ana Maria Caetano Faria; do professor associado da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Pedro Fiori Arantes; do professor e atual Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Marco Antonio Zago, e moderação do pesquisador Manoel Barral Netto, do Centro de Estudos Estratégicos Antonio Ivo de Carvalho da Fiocruz e da ACB, e da coordenadora do Institutos Nacionais de Ciência (INCT), Luisa Massarani.
Barral destacou a importância do tema em meio às disputas de narrativas que contrapõem os conhecimentos da ciência aos do senso comum ao longo da história. “Desde que a ciência existe há uma certa resistência, porque ela se contrapõe a conhecimentos 'meio mágicos' que ofereciam outra percepção do mundo”, explicou o pesquisador. Para o pesquisador, o principal aspecto da evolução da ciência, ao longo dos anos, se dá com o avanço tecnológico e com a velocidade e intencionalidade com que as informações se disseminam.
Luisa Massarani abriu o evento sublinhando o valor da informação qualificada diante do impacto da desinformação na saúde em situações como a pandemia da Covid-19. “A Organização Mundial da Saúde sinalizou que a rapidez com que as notícias falsas se disseminavam era comparada com a velocidade de disseminação do próprio vírus”, pontuou a jornalista. Conforme destacou, no decorrer da crise sanitária, a disseminação de notícias falsas e teorias infundadas relacionadas ao novo coronavírus provocou repercussões adversas que extrapolaram as esferas individuais, afetando, inclusive, as estratégias governamentais e acarretando consequências significativas para a saúde pública.
Embora a disseminação de notícias falsas não seja novidade, Massarani salientou que na pandemia houve um aumento expressivo na circulação de informações falsas sobre saúde. “Precisamos entender o fenômeno da desinformação e em vez de recolher uma perspectiva meramente funcionalista da comunicação, na qual a desinformação é percebida como um desvio ou um sintoma de uma desordem de informação, é essencial considerar essas práticas em um contexto abrangente, caracterizado pela crescente desconfiança nas instituições epistêmicas”.
A pesquisadora subinhou o papel exercido pelas plataformas digitais na disseminação da desinformação por meio de recursos de personalização e automatização. “Esses recursos podem tornar a desinformação mais eficiente, embora fatores humanos, como vieses individuais, contexto político-cultural e interações entre usuários, não possam ser menosprezados”, disse. De acordo com Luisa, no ambiente digital, as emoções dos usuários podem interagir com suas crenças e valores individuais, influenciando como eles acessam, avaliam e reagem à desinformação e “o âmbito da saúde não permanece imune a esses tensionamentos políticos e comunicacionais”.
Ao expor os resultados de cinco levantamentos de opinião pública para mostrar como se deu a politização da Ciência durante a pandemia, o professor Pedro Arantes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apresentou dados, do primeiro semestre de 2021, sobre a vacinação contra a Covid no Brasil. Segundo esse levantamento, o índice de não-adesão à vacina, ou de rejeição à vacina, estava em torno de 5,5%. Já em relação à opinião pública sobre o papel das universidades públicas, o levantamento mostrou que 32% dos favoráveis ao governo Bolsonaro consideravam as universidades públicas um lugar de doutrinação e ideologia.
O uso das informações falsas, por vezes até mesmo de forma anedótica, na avaliação de Pedro Arantes, estimulou parte da população a ter essa visão negativa sobre as universidades e, consequentemente, impactou a percepção da ciência e a adesão da vacinação. A conclusão corrobora a exposição de Luisa, sublinhando o impacto da desinformação na saúde.
A visão negativa sobre a produção científica das universidades, segundo o pesquisador, é explicada por que “uma parcela importante da população brasileira (36%) não conhece o que as universidades fazem". Para mudar esse cenário, Pedro enfatizou a importância de mostrar para a população o que as universidades fazem. “Não é apenas contratar uma agência de comunicação [para isso], mas expandir a extensão universitária, a relação com os movimentos sociais, e com as políticas públicas - em outras palavras - enraizar as universidades”, sugeriu.
Por outro lado, o pesquisador lembrou que foi, também, durante a pandemia que a ciência ganhou mais notoriedade, acontecendo “um salto impressionante da confiança no cientista, sobretudo no cientista de instituição pública”.
Apesar de ter destacado a interferência nas percepções sobre a ciência e sobre as universidades da polarização política, o pesquisador revelou que o último levantamento, realizado em 2023, mostrou haver alguns consensos entre eleitores de Bolsonaro e Lula. Entre os consensos estão: “ampliar o investimento do SUS; ampliar o investimento em ciência e pesquisa e melhorar a formação dos profissionais de saúde”. Nesse sentido, Pedro concluiu sua fala, dizendo que há um caminho importante a ser trilhado pelo atual governo.
Ana Caetano começou sua apresentação ressaltando que o uso da desinformação na área da saúde não é um fenômeno novo. Para ilustrar sua afirmação e explicar como ele surgiu e vem se propagando até os dias de hoje, a pesquisadora citou três exemplos: a promoção do aleitamento artificial, do tabagismo e os movimentos antivacinas.
Os dois primeiros, de acordo com Ana Caetano, têm como base interesses econômicos muito claros. Nesses casos, a desinformação é utilizada “praticamente como uma estrutura de marketing”, afirmou.
Ao resgatar a história do aleitamento artificial, Ana Caetano pontuou que a campanha de desinformação sobre o aleitamento artificial, iniciada pela Nestlé, tinha como objetivo ampliar o mercado consumidor dos produtos que estavam sendo lançados, a partir do século XIX, pela empresa. A partir daí, continuou Ana, a Nestlé buscou convencer as pessoas “da necessidade de consumir seus produtos”, apelando para a praticidade do preparo do leite artificial, numa época em que as mulheres estavam entrando no mercado de trabalho, e vinculando o leite artificial à ideia de saúde.
Além da utilização dos meios de comunicação de massa, utilizados para disseminar a ideia do leite artificial como sendo melhor do que o leite materno, a estratégia promocional contou ainda com a participação dos profissionais de saúde. Segundo a pesquisadora, esses profissionais atuaram fazendo “lobby junto aos órgãos legislativos e ao Ministério da Saúde, que passou a usar o leite em pó nas suas políticas de saúde”.
Como consequência, continuou a coordenadora do Decit, além do aumento expressivo do consumo de leite artificial no Brasil nos aos 70, houve uma diminuição do aleitamento materno, “com as mães deixando de aleitar seus filhos para comprar leite Ninho e outros produtos [similares]”, explicou.
A partir dos anos 80, entretanto, com as iniciativas tomadas por órgãos internacionais, como a Unicef, e a própria OMS, e pelo próprio Ministério da Saúde, Ana Caetano explicou que essa situação começou a mudar. “Algumas pesquisas foram muito importantes para mostrar o valor do aleitamento materno”, lembrou, citando tanto a redução da mortalidade infantil, como os efeitos benéficos evidenciados, posteriormente, na vida adulta de quem amamentou. Os resultados dessas ações e pesquisas, além de leis que passaram a regulamentar a propaganda, foram, de acordo com a avaliação da pesquisadora, fundamentais no combate a esse tipo de desinformação em saúde, relacionado à alimentação artificial dos bebês.
O segundo exemplo de campanha de desinformação em saúde com forte repercussão no comportamento das pessoas e na saúde, mencionado por Ana Caetano, foi a realizada em prol do tabagismo. Ela explicou que, embora o uso do tabaco seja antigo, remetendo ao século V antes de Cristo, o tabaco só passou a ser incorporado como um produto de consumo capaz de mudar os hábitos das pessoas a partir do final século XIX.
De acordo com a pesquisadora, isso aconteceu depois que a Philip Morris se estabeleceu no Reino Unido, a máquina de fazer cigarros foi inventada e foi criada a American Tabacco Company. O cigarro, tal como o leite artificial, foi lançado no mercado como um novo produto a ser consumido.
Mais uma vez as mulheres passaram a serem vistas como uma nova protagonista do mercado de consumo. “Boa parte das propagandas de cigarro vai estar vinculada a uma ideia de modernidade, de charme e de independência”, esclareceu Ana. Ela chamou a atenção, também, para o papel dos profissionais de saúde no lobby mundial da indústria de tabaco, reforçando a propaganda do produto, que era centrada na “disseminação de informações falsas, usando as ideias de sucesso, virilidade e felicidade, atreladas ao hábito de fumar”.
A partir dos anos 90, no entanto, com a implementação de ações de restrição de publicidade enganosa, incidência de taxação no produto e divulgação de evidências científicas sobre os efeitos nocivos do tabaco, Ana Caetano disse que houve uma queda expressiva no consumo de tabaco no Brasil. “Estudos longitudinais começaram a vincular o uso do cigarro não só ao câncer de pulmão, mas a diabetes e doenças cardiovasculares”, explicou.
O terceiro exemplo, citado pela gestora, no qual a desinformação tem um impacto negativo na saúde, está na base dos movimentos antivacinas. Após sublinhar que eles não são recentes, a pesquisadora relacionou as iniciativas de Estado para vacinação compulsória, praticada, por exemplo, na Inglaterra, nos Estados Unidos e depois no Brasil, à criação de um contexto propício para seu aparecimento.
A revolta da vacina no Brasil “surgiu no início do século, logo em seguida à lei que dava poder às autoridades sanitárias de aplicar multa para quem se recusava a se vacinar”, destacou Ana, lembrando que “nesse período já existia campanha de fake news e boatos, dizendo que as pessoas que se vacinavam se transformavam em bois, porque a vacina era do vírus bovino”.
Ao resgatar esses acontecimentos históricos do uso da desinformação na saúde, Ana Caetano ressaltou que os movimentos antivacinas, anteriores àquele que hoje identificamos como sendo movidos pela desinformação, surgiam, em geral, em comunidades tradicionais, conduzidos por líderes religiosos e curandeiros locais.
No século XVIII e XIX, “com a necessidade do capitalismo de ampliar a geração de riqueza e de mão de obra, a saúde passou a ser parte dos objetivos do Estado, o que ela não era até então”, explicou a pesquisadora. A partir daí, nos séculos XIX e XX, assistiu-se “a institucionalização e medicalização crescente da vida”, com a medicina e a ciência moderna intervindo em todos os ciclos da vida, desde o nascimento até a morte. “A autoridade médica passou a regulamentar comportamentos que vão ser julgados adequados e saudáveis e a classificar de forma patológica aqueles desvios da normalidade”, disse Ana Caetano.
O fenômeno da desinformação nesse caso, de acordo com sua avaliação, mesmo hoje, preserva ainda algumas características do que foi nos primeiros movimentos antivacina. Um, exemplo disso é a reação ao controle do indivíduo por parte do Estado. Esses movimentos expressam, segundo a pesquisadora, “uma desconfiança com relação às instituições, à ciência e às instituições que produzem ciência e conhecimento”, e colocam em discussão a liberdade individual com relação ao próprio corpo versus uma política de saúde coletiva. Ana Caetano chamou a atenção, ainda, para o papel dos grupos religiosos pela disputa de narrativa sobre o que é saúde. Enquanto que a ciência é vista, por esses movimentos antivacinas, “como uma ameaça”.
De acordo com a pesquisadora, atualmente, o fenômeno da desinformação em ciência e saúde envolve características novas. A primeira é estar sujeito “à globalização, o movimento global que cresce em arranjos interligados, articulados e sem uma ligação com um objetivo econômico muito específico como na indústria do tabaco ou na do leite artificial”, explicou.
Outros traços expressam a politização tóxica na discussão de temas científicos e da saúde; a transformação rápida dos meios de comunicação, com o uso de novas técnicas para editar, reenquadrar e fabricar a desinformação, assim como a utilização de plataformas de comunicação, que potencializam a divulgação da desinformação e dificultam o seu enfrentamento. Além da falsificação da verdade, o fenômeno envolve, hoje, procedimentos, por vezes, sofisticados como a descontextualização dos fatos, a simplificação de aspectos complexos, a generalização, falácias, criação de mitos e teorias da conspiração.
Ana Caetano abordou a disputa em torno das evidências científicas na arena ideológica da opinião. Nesse contexto, explicou que as evidências científicas são tratadas, simplesmente, como mera opinião dos cientistas. A pesquisadora ressaltou a importância de esclarecer que a ciência, embora não seja depositária de verdades imutáveis, ela não é opinião. Pelo contrário, a ciência é resultado de uma exploração sistemática do mundo através de um método científico. Suas evidências podem ser verificáveis, pois são reprodutíveis. E, citando o filósofo da ciência Karl Popper, lembrou que mesmo as teorias científicas sendo provisórias, elas podem ser reputadas. Porém a reputação, destacou Ana Caetano, tem que ser feita com método, seguindo o mesmo rigor com que aquela teoria foi criada. Já a opinião “não pertence a esse território, ela pertence ao território da política, da ideologia”, concluiu.
Por último, ao falar sobre os efeitos deletérios do fenômeno da desinformação e do tamanho do desafio para enfrentá-los, Ana Caetano citou a grande redução em termos de cobertura vacinal que está acontecendo no Programa Nacional de Imunizações (PNI), no ano em que completa 50 anos.
“O PNI foi um programa extremamente bem-sucedido, que levou o Brasil a ser aclamado líder de vacinação, com cobertura nacional de 90%, e mesmo durante o negacionismo e a gestão desastrosa do governo anterior, [permitiu que] o país fosse vacinado”. Hoje, no entanto, Ana Caetano identificou um colapso das taxas de imunização no Brasil, “apesar de alguns trabalhos, como o desenvolvido pelo grupo do professor Barral, da Fiocruz, mostrar a eficácia enorme da vacinação na população brasileira, tanto com a Coronavac, como com a vacina da AstraZeneca, num levantamento de dados que envolveu 60 milhões de pessoas”.
Para ilustrar o impacto do que o PNI enfrenta atualmente, ela mencionou a volta do sarampo no Brasil, doença que já era extinta. “O programa está sendo reestruturado, mas existe um problema de adesão às vacinas em geral”.
Em sua exposição Marco Antonio Zago trouxe alguns exemplos que mostraram como a descrença ou a desconfiança na ciência marcam a história das sociedades e como as decisões cientificas são influenciadas pelas pressões políticas, religiosas e ideológicas de cada época. O pesquisador citou a perseguição sofrida pelo cientista Galileu Galilei para explicar como desde sempre o poder, religioso ou político, tentou barrar a liberdade dos cidadãos de conhecer e interpretar os fatos.
Para exemplificar os impactos da má informação, o pesquisador destacou um episódio que aconteceu no Brasil há aproximadamente oito anos atrás, uma falsa notícia que se espalhou afirmando que a substância química fosfoetanolamina teria propriedades anticancerígenas. “A informação partiu de um professor de química da USP, e ganhou rapidamente cunho de verdade nas páginas de jornais, rádio, televisão e nas redes sociais”, lembrou Zago.
Depois disso, várias sentenças judiciais foram proferidas, obrigando a USP a produzir e entregar o produto a muitos pacientes, que então começaram a abandonar as terapias regulares para usar um produto não testado. Quando foi conduzido um teste clínico, controlado em um hospital especializado em câncer, o resultado não mostrou efeito positivo. Como consequência, houve a criação de uma CPI no Parlamento paulista para investigar a possível fraude naquele teste clínico.
“Houve uma grande comoção social em torno de um remédio sem comprovação de eficácia, inclusive, com envolvimento de pessoas de bom senso e com acesso a informações qualificadas como advogados, juízes, deputados, senadores, empresários, professores universitários, médicos, enfermeiros”.
Para Zago, tudo isso escancarou as graves consequências que a desinformação em ciência pode causar às pessoas e à área da saúde. Em sua avaliação muitas pessoas preferem dar ouvidos a esse tipo de informação falsa ao invés de dar ouvido à ciência por imaginarem que podem estar sendo manipuladas pelos cientistas ou pelas grandes companhias farmacêuticas, que visam o lucro. “A busca de notoriedade por parte de cientistas pouco escrupulosos ou, às vezes, malsucedidos, que inventam ou manipulam resultados ou baseiam suas conclusões em trabalhos conduzidos inadequadamente”, em sua visão, pode contribuir para essa desconfiança da sociedade na ciência.
Na avaliação do pesquisador, os mesmos elementos, contidos na disseminação da informação falsa sobre o uso da fosfoetanolamina, fomentaram a onda de desinformação sobre a Covid-19. “Os atores eram outros, mas os elementos de desinformação, de vaidade pessoal, das teorias conspiratórias e da expectativa dos cidadãos de não serem tratados como ingênuos, todos esses elementos estavam presentes”, destacou.
Zago ressaltou, ainda, que, na pandemia, as medidas de enfrentamento do vírus foram questionadas, diferente do uso da fosfoetanolamina. Questionaram tudo, se o “isolamento era útil ou desnecessário? Se “a vacina era útil, ou dispensável? Se “A ivermectina era útil para prevenir ou tratar da Covid? E assim foram múltiplos componentes se associando ao mesmo tema. Em cada caso, houve um longo conflito entre os apoiadores de cada uma das visões antagônicas”, lembrou.
Os questionamentos, de acordo com Zago, refletiam a desconfiança das pessoas em relação ao conhecimento científico, e interesses múltiplos envolvidos. Isso contribuiu para “a gravidade da situação social e de saúde que gerou a morte de 600 mil pessoas”.
Assista aqui a íntegra do webinário.