Aumento recorde de desigualdade no país requer investimento social
Os ricos no Brasil estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. É o que mostram os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), realizada pelo IBGE e divulgada em 16/10/2019.
De acordo com a PNAD, o rendimento médio mensal do 1% da parcela mais rica da população brasileira alcançou em 2018 o equivalente a 33,8 vezes o ganho obtido pela metade mais pobre. Enquanto na base do abismo da desigualdade, os 50% mais pobres ganham em média R$ 820 por mês, no topo a parcela de maior renda ganhou em média R$ 27.744.
Desde 2012, quando começou a série histórica dessa pesquisa, nunca essa diferença de rendimento entre ricos e pobres foi tão grande.
A pesquisa mostra que a concentração de renda atingiu o maior patamar desde então. O índice de Gini, indicador que mede distribuição, concentração e desigualdade econômica e que varia de 0 (perfeita igualdade) até 1 (máxima concentração e desigualdade), quando calculado para o rendimento médio mensal recebido de todos os trabalhos, em 2018, foi de 0,509. Entre 2012 e 2015, ele havia caído de 0,508 para 0,494.
Esse aumento na desigualdade, porém, não foi uniforme no país. No Nordeste, o índice caiu de 0,531 em 2017 para 0,520 em 2018. A análise dos dados permite deduzir que a redução na desigualdade nessa região está mais relacionada à queda nos rendimentos de trabalho dos mais ricos, do que numa melhoria nas condições de vida dos mais pobres. “No Sudeste, o 1% com maiores rendimentos de trabalho cresceu 17,8%. Nesse mesmo período, no Nordeste, o 1% mais rico teve queda de 16,5%”, explica a analista do IBGE Adriana Beringuy.
O IBGE aponta ainda que o aumento da desigualdade em 2018 está acompanhado por uma crise do mercado de trabalho. Em 2018, 35, 42 milhões de pessoas estavam no mercado informal, outro recorde apontado pela série histórica do IBGE.
“Diante desse quadro, é preciso ter um investimento social para se ter um efeito compensatório”, diz a pesquisadora do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, Sonia Freury. A pesquisadora cita os resultados da pesquisa “Efeito da recessão econômica e impacto dos gastos com saúde e proteção social na mortalidade de adultos: uma análise longitudinal de 5.565 municípios brasileiros”, divulgada na última edição da Revista Lancet Global Health, edição de novembro de 2019. “O estudo mostra que nessa conjuntura recessiva a mortalidade entre adultos é menor nos municípios onde houve maiores investimentos sociais”.
No entanto, quando se considera o país como um todo, vemos que o que está acontecendo atualmente é que, devido às medidas de ajuste fiscal, as políticas de proteção social estão encolhendo. “Os resultados para a área da saúde serão drásticos”, alerta Sonia Fleury.
Segundo os dados do IBGE, o aumento da desigualdade coincidiu com uma diminuição do número de domicílios com Bolsa Família: em 2012, eram 15,9% em todo o país; em 2018, a proporção foi para 13,7%.
Essa opção vai na contramão da lição divulgada este ano pelos três ganhadores do prêmio Nobel de Economia. De acordo com entrevista concedida ao Estadão pelo professor e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) Naércio Menezes, a mensagem que eles deixam para os governos ao redor do mundo é “para que não se diminuam os recursos destinados para políticas públicas direcionadas aos mais pobres. É preciso, na verdade, aumentar os recursos e avaliar melhor a efetividade desses programas”.
(Com informações do IBGE)