Christovam Barcellos: ‘A preparação para eventos extremos requer ação de governos, empresas e de toda a sociedade civil’

Christovam Barcellos: ‘A preparação para eventos extremos requer ação de governos, empresas e de toda a sociedade civil’

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Poucos meses após a passagem de um ciclone extratropical que trouxe devastação e mortes ao Rio Grande do Sul, estamos diante de enchentes ainda maiores com danos inimagináveis à população do estado. Diante do cenário catastrófico, o blog do CEE-Fiocruz ouviu a análise do geógrafo Christovam Barcellos, pesquisador do Observatório de Clima e Saúde e professor do Icict/Fiocruz.

Em sua análise, Christovam traz reflexões sobre como a sociedade poderá lidar com o novo regime climático, que se relaciona não apenas a questões ecológicas, como ao modelo vigente de economia e de agricultura. Na avaliação do pesquisador, a catástrofe vivida pela população riograndense tende a se espalhar em algum momento para outros estados do Sul. “O cenário faz parte de uma conjunção de fatores que levaram a esse desastre”, diz.

Christovam explica que parte das mudanças climáticas que vivenciamos, se dá pelo aumento da temperatura global, que concentra calor em algumas áreas, gerando eventos extremos, como chuvas intensas e seca grave. Além disso, prossegue, temos, também, o advento do fenômeno do El Niño, que provoca um bloqueio de circulação entre a parte Sudeste e Norte do Brasil que fica mais seca, enquanto a parte Sul fica com um regime chuvoso muito intenso.

Segundo o professor, o que aconteceu no Rio Grande do Sul se deu, em parte, porque algumas condições da atmosfera permitiram que se acumulasse uma massa enorme de vapor de água sobre o estado, liberando muita chuva sem parar. “Chuvas recordes, com medidas de 500 milímetros naquela área”, aponta.

Christovam convida a refletir sobre os impactos desses processos climáticos no longo prazo, com a união de governos, empresas e sociedade, de modo a pensar formas de nos prepararmos para eventos extremos futuros – que seguirão ocorrendo. “Essa preparação passa por toda sociedade. Precisamos pensar a longo prazo e de forma regionalizada”, propõe.

Para o pesquisador, observar o território pode ser estratégico para definir ações. “Podemos prever o que pode acontecer devido a algumas equivalências regionais, isto é, “um tipo de acidente ou desastre climático sofrido por uma localidade vizinha pode ser subsídio para algum município que nunca sofreu um deslizamento de encosta, mas que se localiza numa serra e possui similaridade”, diz.
 

Vulnerabilidade social e crise climática

Christovam observa que os efeitos das mudanças climáticas afetam desproporcionalmente as populações. Em nível global, essas mudanças se manifestam de acordo com cada condição de vulnerabilidade, explica. “Quando falamos de vulnerabilidade, é importante lembrar que isso decorre de problemas físicos e geográficos, como o relevo, a vegetação, a rede de rios, o tipo de solo e outros fatores que devem ser levados em consideração”, pontua “Mas temos as vulnerabilidades sociais”, destaca o pesquisador.

Conforme ressalta, as populações que mais padecem são as mais empobrecidas, e com menor acesso à educação e à saúde. “Elas improvisam locais de moradia, geralmente em lugares que a cidade não valoriza, como fundo de vale e morro”.

Para Christovam, o acúmulo de vulnerabilidades, nos expõe a tragédias como a que ocorre no Rio Grande do Sul – e que “infelizmente, ainda vai durar bastante tempo”, alerta.