Luciano Moreira: Método Wolbachia, um aliado no combate à dengue
Enquanto várias cidades brasileiras enfrentam emergência sanitária com o aumento dos casos de dengue, a cidade de Niterói, de acordo com dados do Painel de Monitoramento das Arboviroses do Ministério da Saúde (consultado em 16/02/2024), apresenta apenas 46 casos prováveis em 2024. Esse dado contrasta com o registrado no Rio de Janeiro, cidade vizinha: 20.445 casos prováveis. No Brasil, o número é de 532.921 casos.A grande diferença de incidência da doença tem relação com a implantação do método Wolbachia, tecnologia introduzida há dez anos no bairro niteroiense de Jurujuba e, desde 2023, estendida para todo o município, explica em entrevista ao blog do CEE o pesquisador da Fiocruz, Luciano Moreira, líder do Word Mosquito Program (WMP) no Brasil, e responsável pela introdução e condução do método no país.
O método consiste na introdução da bactéria Wolbachia, muito comum na natureza, nos ovos de mosquitos Aedes aegypti, produzindo uma população de mosquitos, chamados de Wolbitos, que não são transmissores do vírus responsável pela dengue. Luciano explica que a Wolbachia manipula a reprodução de seus hospedeiros. “Se um mosquito macho que estamos soltando tem a Wolbachia, ele cruza com a fêmea – que não tem a bactéria – no campo, e essa fêmea fica estéril, não produzindo mais ovos viáveis”. Quando é a fêmea que tem a Wolbachia, continua Luciano, “ela pode cruzar com o macho com ou sem a bactéria, que 100 % da sua prole, todos os seus descendentes já nascem com a Wolbachia”. Assim, uma vez introduzidos esses mosquitos com Wolbachia em determinada área, a proporção vai aumentando, contribuindo para a redução da incidência de casos de dengue, zika e chikungunya.
No início, diz Luciano, a descoberta foi confirmada somente para a dengue, mas depois foram feitos testes para outros vírus, mostrando que a bactéria Wolbachia consegue bloquear a replicação dos vírus da zika e chikunguna, entre outros.
A implementação do método, além de ser autossustentável, não afeta negativamente o meio ambiente, assegura Luciano. “Essa bactéria já está presente em nossas vidas, pelo menos seis em cada dez insetos têm a Wolbachia”, observa, citando a mosca da fruta, o caruncho do feijão e o pernilongo comum. De acordo com o pesquisador, ela fica contida dentro das células dos seus hospedeiros e, se o inseto morre, ela também morre. “Por isso, não tem impacto na cadeia alimentar, nem na natureza”.
Atualmente a produção de Wolbitos é realizada na biofábrica da Fiocruz, no Rio de Janeiro, onde são produzidos de 8 a 10 milhões de ovos por semana. “No ano passado, fruto da parceria entre Fiocruz, Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) e o WMP, foi anunciada a construção de uma grande biofábrica, com capacidade de produção de 100 milhões de ovos por semana”, diz Luciano. A projeção, contabiliza o pesquisador, é que essa produção possa proteger cerca de 70 milhões de brasileiros nos próximos dez anos, em um “contexto integrado em que cada um faça a sua parte”, expandindo a aplicação do método para outros municípios. A expansão, de acordo com Luciano, levará em conta “o contexto epidemiológico dos locais” e incluirá municípios maiores como o Rio de Janeiro.
Apesar dos bons resultados obtidos com a aplicação desse método, Luciano faz questão de sublinhar que sua utilização deve se dar de forma integrada para a redução do impacto que as arboviroses causam na saúde das pessoas. “A gente sempre deixa claro, tanto para os gestores como em todo o nosso processo de engajamento com a população, que o método Wolbachia veio para se somar a outras ações”.
Dessa forma, o pesquisador enfatiza a necessidade de continuidade da redução de criadouros nas casas das pessoas e da vigilância entomológica. “A rotina de controle de mosquitos no município, deve continuar”, afirma. “Se for preciso usar inseticida, de forma racional, só alertamos para não soltarem os mosquitos (com a Wolbachia) no dia em que estão fazendo o fumacê”, alerta.
Luciano inclui no rol das ações contra a dengue, a vacina, que o Ministério da Saúde incorporou ao Sistema Único de Saúde (SUS) em dezembro de 2023, tornando-se o primeiro país a oferecer o imunizante no sistema público universal. De acordo com informações da pasta, “a vacina, conhecida como Qdenga, não será utilizada em larga escala em um primeiro momento, já que o laboratório fabricante, Takeda, afirmou que tem uma capacidade restrita de fornecimento de doses. Por isso, a vacinação será focada em público e regiões prioritárias”. O Estado do Rio de Janeiro recebeu, no dia 22 de fevereiro, 231.928 doses da vacina contra a dengue, que serão aplicadas em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos.
O desenvolvimento dessa nova tecnologia se deu na Austrália, por cientistas do programa internacional Eliminar a Dengue: Nosso Desafio, liderados pelo professor Scott O’Neill, da Universidade de Monash (Melbourne, Austrália). Luciano Moreira estava lá, em 2008, fazendo seu doutorado, quando essa equipe de cientistas investigava a hipótese de a Wolbachia ser capaz de bloquear a transmissão do vírus da dengue no Aedes aegypti, conseguindo, posteriormente, demonstrá-la.
“Depois das aprovações regulatórias do Ibama, da Anvisa e do comitê de ética, importamos ovos de mosquitos com Wolbachia da Austrália e fizemos cruzamentos com mosquitos do Brasil, para a introdução da bactéria em populações de mosquitos aqui do Brasil”, recorda-se Luciano.
As primeiras liberações dos mosquitos com Wolbachia no país ocorreram há dez anos, em um projeto piloto nos bairros de Jurujuba, em Niterói, e Tubiacanga, na Ilha do Governado, no Rio de Janeiro. “A grande vantagem do programa é a sustentabilidade”, explica Luciano. Os mosquitos com a bactéria aliada no combate à dengue, liberados nessa época, continuam hoje em altas porcentagens nesses locais. Em 2019, a tecnologia foi levada, também, para Campo Grande, Petrolina e Belo Horizonte. O World Mosquito Program, hoje, está presente em 14 países.
Na capital mineira, está sendo realizado estudo clínico randomizado controlado (RCT, em inglês), “que é o padrão ouro da epidemiologia, para verificar a eficácia do método em condições brasileiras”, explica Luciano. O estudo é liderado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em colaboração com a Prefeitura de Belo Horizonte e as universidades norte-americanas de Emory, Yale e Flórida, sendo financiado pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID/NIH), dos Estados Unidos.