‘Escola e empresa têm de monitorar saúde mental pós-retomada’

‘Escola e empresa têm de monitorar saúde mental pós-retomada’

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Tânia Rego/Agência Brasil

A importância da atenção à saúde mental na escola e no trabalho, no retorno às atividades presenciais, foi tema da entrevista realizada pelo jornalista Fredy Alexandrakis para o Nexo jornal, para marcar o Setembro Amarelo, com a psicóloga Karen Scavacini, diretora científica da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps) e fundadora do Institudo Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio.

Karen alerta que, embora não tenha havido aumento significativo do número de suicídios em 2020, o número de casos costuma crescer, em situações de pandemia, depois da crise sanitária. Segundo a especialista, a população continua traumatizada e será preciso que as escolas e as empresas se preparem para dar o acolhimento às pessoas, identificando aquelas com transtornos para o encaminhamento adequado. 

Os dados de 2020 e de 2021 ainda são preliminares, ela explica, e por isso ainda vai demorar para se ter uma avaliação exata da situação. No entanto, é possível perceber uma “mistura de cansaço, indignação e luto” nas pessoas, assim como o “aumento nos casos de ansiedade e depressão” e do uso de medicamentos psiquiátricos, diz Karen.  

Durante a pandemia, de acordo com a psicóloga, alguns fatores podem ter contribuído para inibir o suicídio, como, por exemplo, a presença familiar dentro de casa. Em alguns países, foi apontada ainda como fator de proteção “o fato de as pessoas se ajudarem, de agirem em prol de um bem comum”. Além disso, “nunca se falou tanto em saúde mental como agora”, observa Karen, indicando que as pessoas estão buscando informação e ajuda. Outros fatores, como a possibilidade de “uma observação maior [da saúde mental], uma pausa na rotina usual, a possibilidade de viver de uma maneira diferente”, também, contribuem para uma proteção contra o suicídio. 

Por outro lado, “a tripla jornada de trabalho das mulheres na pandemia, o estresse do trabalho remoto, o aumento do uso de álcool e drogas e da violência doméstica” são preocupantes, alerta Karen. 

No momento, em que as pessoas estão voltando às atividades presenciais nas escolas e nas empresas, é preciso “estar atento aos sinais de sofrimento emocional” e oferecer locais onde os alunos e os funcionários possam contar com ajuda. Pessoas que já viviam, antes da pandemia, situação de maior vulnerabilidade correm o risco de piora do quadro. E aquelas que já tinham fobia social, e puderam ficar em casa durante a pandemia, terão que enfrentar desafios nesse retorno. 

Ao identificar alguém que não está bem, seja próximo ou não, ela sublinha que é importante oferecer ajuda, seja presencial ou on-line, e que, nessas horas, o fundamental é a escuta, sem julgamentos. “Se a pessoa preferir não conversar, o ideal é indicar algum serviço de saúde”, recomenda. 

Karen destaca, ainda, a importância de se restabelecerem os laços de amizades, distendidos durante a pandemia, mas diz, também, que será um bom momento para se reavaliarem algumas relações tóxicas, “diminuindo ou não retomando contatos com pessoas que não nos faziam bem”.

Que a pandemia deixará sequelas, é fato, diz ela, mas o impacto em cada um será diferente, dependendo do que aconteceu com a pessoa, com as perdas que teve e oportunidades que aparecerão depois. 

A solidariedade entre as pessoas durante a pandemia é algo que ela espera ver continuar, pois, como observa, o envolvimento de cada um, com mobilização de especialistas, mídia e poder público “diminui bastante a possibilidade de haver danos grandes” à saúde mental.

 

Da entrevista publicada no Nexo jornal em 01/09/2021.