Carlos Gadelha: ‘Desenvolvimento não é só técnica; é processo de mudança social’

Carlos Gadelha: ‘Desenvolvimento não é só técnica; é processo de mudança social’

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A estreita relação entre saúde e desenvolvimento, que vem se evidenciando, em especial, durante a pandemia de Covid-19, foi tema da palestra Covid-19 e os desafios do Complexo Econômico-Industral da Saúde no Brasil, proferida pelo coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, Carlos Gadelha, em 20/7/2021, no 73º Encontro anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). 

Com base em uma agenda que vem sendo levada à frente na Fiocruz nos últimos vinte anos, Gadelha defendeu que ciência, tecnologia e inovação são essenciais ao desenvolvimento e à garantia do direito à saúde e à vida, devendo estar na base de um projeto de país. Ele observou como ficou clara, durante a pandemia, a força do conhecimento “para que sejamos uma nação desenvolvida”, e, nesse sentido, destacou a visão do economista Celso Furtado (1921-2021) de que o desenvolvimento envolve as dimensões da economia, do direito a vida, social e ambiental. 

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“Há vinte anos, alertávamos sobre o risco de avançarmos no sistema social, sem avançar, simultaneamente, na produção nacional e em ciência, tecnologia e inovação”, lembrou Gadelha. “Desafortunadamente estávamos certos, mas temos que construir o futuro, para que o passado não se repita. E esse futuro tem que estar baseado no tripé produção nacional, ciência/tecnologia/inovação e sustentabilidade ambiental, buscando-se um crescimento sustentável, com inclusão social e equidade”, considerou.

Ainda citando Celso Furtado, o pesquisador observou que “desenvolvimento não é só técnica, não é só máquina, é um processo de mudança social, para atender as necessidades das pessoas”. Ele alertou para a importância de o Brasil não ficar preso a um padrão baseado na extração de recursos naturais e para o risco de o país se manter como “a grande fazenda do mundo”, em um processo involutivo, no qual o crescimento econômico passa a depender dos preços das commodities. “Se o preço se eleva crescemos mais, se não se eleva crescemos menos”, criticou. “O mundo está numa transformação brutal e, no Brasil, vemos uma reprimarização, com dependência da extração de recursos e não com geração de valor no âmbito da ciência, tecnologia e inovação”, observou. “Não é com a velha sociedade escravista, excludente e desigual que a gente vai se desenvolver”.

Para Gadelha, a visão que opõe direito social e crescimento do PIB é limitada. “Nossa aposta é que um modelo de sociedade que permita o bem estar, de modo compatível com o planeta, é, na verdade, a chave para o desenvolvimento do PIB. Não se trata apenas de o direito social caber ou não dentro do PIB, e sim de que o bem estar social é saída para o Brasil, em um padrão de desenvolvimento que alie ciência, tecnologia e inovação, dinamismo econômico e equidade”, explicou, afirmando a saúde como “um amplo sistema econômico” e lembrando que 40% do PIB do país está relacionado ao bem estar da população e ao direito ao conhecimento. 

Conforme destacou o pesquisador, o Brasil não conseguirá enfrentar a pandemia de Covid-19, as variantes do coronavírus, bem como futuras pandemias, sem uma base de produção industrial. Nesse sentido, sua apresentação identificou os desafios para o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis), lembrando que a saúde e a área social, de modo geral, têm uma perspectiva econômica e de inovação decisiva. 

“É uma área estratégica na sociedade do conhecimento. Liderou a terceira revolução, que nós perdemos, e lidera a quarta revolução científica e tecnológica – com inteligência artificial, big data, genômica avançada, em que temos que conhecer as variantes dos vírus, a diversidade genética das pessoas e sua interação com o meio ambiente. Isso é absolutamente tecnologia da informação, está no centro da quarta revolução tecnológica, converge o biológico e o mundo digital. E a saúde lidera”, afirmou. “Estamos falando da possibilidade de entrada do Brasil no desafio mundial pelo bem estar”, considerou, lembrando que a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) teve “papel central” nesse processo.

Se não avançamos mais, é porque não nos tornamos inovadores na disputa tecnológica, não entramos ainda no mundo da inovação. Chegamos a um ponto em que conseguimos contribuir, mas temos que avançar e consolidar essa aposta na inovação (Carlos Gadelha)

Gadelha lembrou que não teríamos as vacinas contra a Covid-19 produzidas pela Fiocruz e pelo Instituto Butantã, sem a criação, nos últimos vinte anos, de capacidade tecnológica para produzir, no caso do Butantã, a vacina para gripe – base tecnológica para a vacina contra a Covid – e, no da Fiocruz, as tecnologias de biofármacos para doenças crônicas – base da tecnologia da vacina que a instituição está produzindo nesta pandemia. “O Brasil entrou, ainda que de modo defasado, com enormes desafios, para o futuro, nas tecnologias modernas para a produção de vacinas. E, se não avançamos mais, é porque não nos tornamos inovadores na disputa tecnológica, não entramos ainda no mundo da inovação”, avaliou. “Chegamos a um ponto em que conseguimos contribuir, mas temos que avançar e consolidar essa aposta na inovação”.

Conforme localizou Gadelha, o campo da saúde abrange um conjunto de indústrias de base química e biotecnológica, onde se situam medicamentos e vacinas; um conjunto de indústrias de base mecânica e eletrônica de materiais, no que se refere a equipamentos, como ventiladores, órteses e próteses; e os serviços, que também se constituem em “verdadeiras unidades industriais e tecnológicas”, tendo em vista que a produção de um medicamento ou vacina, por exemplo, demandam pesquisa clínica no âmbito do serviço de saúde, da atenção primária, dos hospitais, envolvendo a testagem no serviço de diagnóstico. “Isso é absolutamente central”. 

A esses três sistemas interdependentes – de base química e biotecnológica, mecânica e de materiais e de serviços –, o pesquisador agrega o de informação e conectividade, “que invade os demais sistemas” e onde se localizam inteligência artificial, big data, informação da genômica, entre outros avanços. “Não podemos fazer uma atenção básica apenas com conhecimentos elementares. São muito importantes, mas necessitamos de indicadores, dados que mostram se aquela população está sob risco, se a variante A, B ou C está se disseminando em uma população. Temos que chegar antes da doença”. 

Gadelha defendeu que a saúde pode ser uma das grandes chaves para a saída da crise. “Hoje se faz pesquisa em saúde dentro da Física, da Matemática, na História, na Antropologia. Mas esses conhecimentos não são classificados como saúde”. O pesquisador apresentou um gráfico (Balança comercial do Ceis – Brasil: 1996-2020), com a comparação entre as importações brasileiras, o déficit comercial e as exportações “patinando”, de modo a realçar a “fragilidade de nossa competitividade”. 

A partir do gráfico, o pesquisador identificou que, no momento em que o SUS se amplia, o déficit comercial e a dependência por importação “explodem”, saindo de 5 bilhões de dólares para 15 bilhões. “E minha previsão para este ano, com as importações de vacinas é que chegue a 20 bilhões de dólares. Nós só não importamos mais em 2020, porque mais de cem países, todos desenvolvidos, proibiram a exportação de produtos para o Brasil, ou melhor, proibiram a exportação de conhecimento científico, tecnológico”, observou. 

“Isso mostra que o Brasil tem que ter uma base de ciência e tecnologia em saúde que se transforme em riqueza nacional e produção nacional”, apontou, destacando, também a partir do gráfico, que 75% do déficit concentram-se na área farmacêutica. “Em equipamentos, só em um ano, triplicamos as importações. E costumo dizer que quem não tem ciência e tecnologia também não sabe nem comprar produto! Compra produtos de péssima qualidade, fora questões relacionadas a malfeitos de alguns gestores”. 

Talvez a desigualdade mais perversa seja a desigualdade do conhecimento (Carlos Gadelha) 

Gadelha apresentou também uma imagem de sabonete em pedra, tendo ao lado uma bonita embalagem de sabonete líquido sobre uma pia, observando que buscadores como o Google não identificam a primeira imagem como sendo um sabonete. “Os algoritmos leram essa figura como comida, queijo, pão, bolo... nenhum algoritmo desenvolvido lá fora leu como sabonete, que é o principal produto de proteção utilizado contra Covid-19, nas comunidades mais carentes”, destacou. Em relação à segunda imagem, foi diferente, relatou: todos acertaram, ou chegaram próximo, identificando-a como produto para saúde, produto de banheiro e sabonete. “Uma causa possível – e isso eles falam, não eu – é que os desenvolvedores normalmente são brancos, educados em países de alta renda, onde se observam as restrições geográficas e falhas para reconhecer culturas e sociedades diferentes”. 

O pesquisador trouxe, ainda, dados sobre a situação das patentes no mundo, verificando-se uma concentração nos Estados Unidos, China e países europeus e uma coincidência com dados do mapa do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). “Há uma geopolítica em que alguns países estão sendo excluídos da inovação e do direito a transferência de conhecimento, em que o proprietário de patentes não deseja transferir por conta de interesses comerciais”, observou. 

“Na China, com uma população de 1 bilhão e trezentos milhões de habitantes, ciência, tecnologia e inovação estão articulados com o IDH. O mundo econômico da ciência e tecnologia e da inovação tem uma relação com o mundo social. Observamos uma desigualdade na inovação, que se desdobra em uma desigualdade do desenvolvimento humano, no próprio direito a vida”, considerou, alertando que o cenário atual pode piorar no sentido de que apenas dez países concentram 88 das patentes. Talvez a desigualdade mais perversa seja a desigualdade do conhecimento”. 

Gadelha defendeu o estabelecimento de um compromisso da ciência com a sociedade, e com a conformação de uma agenda de transformação na ciência e tecnologia, com uma nova geração de políticas públicas, para viabilizar os direitos universais. ”Que a demanda da sociedade paute a agenda do conhecimento, com a superação de uma visão imediatista da pesquisa e o alcance de uma pesquisa comprometida com a sociedade”. 

O pesquisador conclamou todos a não perder a esperança. “Temos o maior sistema de saúde do mundo. E o caso da índia e da China nos mostrou que é possível fazer: há vinte anos, esses países nada eram na saúde. A china representava apenas 1% das importações do Brasil, vinte anos atrás. E hoje, para combatermos a Covid, dependemos de produto chinês”. 

Ele destacou que o Brasil “tem as pedras do quebra-cabeça, com um sistema de saúde invejável – embora o mais subfinanciado do mundo” – e uma ciência/tecnologia/inovação “de ouro”. No entanto, observou, o país exporta petróleo cru. “Qual o produto mais nobre da cadeia produtiva do petróleo? É o fármaco. E 90% do que precisamos para tratamento de doenças crônicas e transmissíveis são importados. Não podemos estar em cima de um manancial de petróleo e importar fármaco”.