Em meio ao aumento global dos diagnósticos de ansiedade, depressão e outros transtornos mentais, cresce também o debate sobre as formas como a sociedade contemporânea produz, interpreta e administra o sofrimento psíquico. Os pesquisadores Paulo Amarante, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz e do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Laps/Ensp/Fiocruz), e Júlia Goulart Gomes, doutoranda em Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), propõem uma reflexão crítica sobre esse processo histórico e seus impactos na vida no artigo Do surgimento da psiquiatria à lógica neoliberal: a mercantilização do sofrimento contemporâneo, publicado esse mês de maio na revista Ciência & Saúde Coletiva.
O texto recupera a trajetória da psiquiatria desde seu surgimento, mostrando como os conceitos de normalidade e doença mental sempre estiveram relacionados aos contextos políticos, econômicos e culturais de cada época. Mais do que um campo estritamente médico, os autores argumentam que a saúde mental também expressa disputas sobre modos de vida, produtividade e formas de controle social.
Segundo o artigo, a racionalidade neoliberal — marcada pela competitividade, pelo individualismo e pela responsabilização do indivíduo por seu sucesso ou fracasso — transformou o sofrimento psíquico em um problema cada vez mais individualizado. Questões relacionadas à precarização do trabalho, insegurança econômica, isolamento social e desigualdades estruturais passam frequentemente a ser tratadas como falhas pessoais ou transtornos a serem administrados individualmente.
Nesse contexto, os autores discutem a expansão da medicalização da vida cotidiana e a crescente mercantilização do sofrimento. O aumento do consumo de psicofármacos, aplicativos de bem-estar, terapias rápidas e discursos de autoaperfeiçoamento é analisado como parte de uma lógica em que emoções, comportamentos e subjetividades também se tornam objetos de mercado. A promessa permanente de desempenho, produtividade e felicidade acaba convertendo o sofrimento em oportunidade econômica para diferentes setores da indústria da saúde e do consumo.
O debate dialoga com discussões contemporâneas sobre saúde mental coletiva e sobre os limites de abordagens exclusivamente biomédicas para compreender o adoecimento psíquico. Para os autores, é fundamental reconhecer que o sofrimento não pode ser separado das condições concretas de existência, das relações sociais e das desigualdades produzidas pelo modelo econômico atual.
Ao propor uma leitura histórica e política da saúde mental, o artigo contribui para ampliar a reflexão pública sobre os desafios contemporâneos do cuidado, reforçando a importância de políticas sociais, redes de apoio e abordagens interdisciplinares comprometidas com os direitos humanos e com a promoção da vida coletiva.