Os desafios e caminhos da transformação digital em saúde, articulando dados, ciência, equidade, inovação e sustentabilidade foram destaque nas exposições dos participantes do webinário Desenvolvimento, Tecnologias Digitais e o Risco de Vulnerabilidade em Saúde (Vulnerabilidade 4.0), realizado em 3 de março de 2026. Esse foi o nono evento da série Transformação digital na saúde pública, do Centro de Estudos Estratégicos (CEE-Fiocruz).
A abertura foi do coordenar-adjunto do CEE, Alessandro Jatobá, e a mediação, do pesquisador Carlos Gadelha, líder da Rede CEIS e coordenador do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS (GPCEIS/CEE-Ensp/Fiocruz). Gadelha apresentou dados que evidenciam um risco estrutural emergente: a assimetria global no controle do conhecimento, dos dados, dos algoritmos e da infraestrutura digital. Conforme alertou, na nova geopolítica, soberania já não se limita ao território – dados e informação tornaram-se ativos estratégicos centrais, influenciando o sistema político e a democracia. Por isso, destacou, a importância de problematizar o risco da vulnerabilidade 4.0 que pode afetar de forma dramática a capacidade de resposta e a sustentabilidade do nosso sistema de saúde.
O retrato é contundente:
86%
das patentes em saúde estão concentradas em apenas em dez países;
50
corporações lideram a saúde 4.0 e estão concentradas em seis países;
1 trilhão de dólares
O mercado de saúde digital já se aproxima da metade do valor do mercado global de medicamentos – alcançando quase 1 trilhão de dólares – o que reflete o tamanho dos interesses econômicos que disputam neste campo;
1/3 dos 500
supercondutores mais potentes do mundo estão nos Estados Unidos, mostrando o domínio tecnológico dos EUA;
90%
dos modelos de Inteligência Artificial seguem a lógica das grandes corporações;
60%
dos nossos dados não estão hospedados em instituições nacionais;
83%
das universidades usam servidores estrangeiros;
R$ 10 bilhões
O gasto público em TI se aproximou a R$ 10 bilhões, sem que esse volume tenha se convertido, na mesma medida, em geração de emprego, renda e soberania tecnológica.
Para Gadelha, a atual gestão do Ministério da Saúde está à frente de um programa vigoroso de saúde digital, mas, afirmou, “não há soberania em saúde sem governança pública de dados estratégicos”.
Para o pesquisador, o SUS pode liderar uma transformação digital orientada à geração de valor social e à redução das desigualdades por meio de políticas públicas que visem ao fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) – opinião compartilhada pelos demais participantes.
Dados, inovação e divisão internacional do trabalho
A professora Helena Lastres, cofundadora e coordenadora da RedeSist (IE-UFRJ), destacou que os dados de saúde são valiosos e várias vezes são comercializados sem nosso conhecimento e, muitas vezes, são manipulados.
Ela relembrou o processo de privatização das telecomunicações do final dos anos 1980 e a consolidação de uma divisão internacional do trabalho controlada por oligopólios digitais. “A ausência de regulação adequada permite a extração e a comercialização de dados sem transparência e sem retorno social”, observou.
Em um cenário de guerras digitais, analisou Helena Lastres, a manipulação de decisões, os apagões e a espionagem expõem a vulnerabilidade tecnológica dos países periféricos. “Não há soberania sem controle público de dados estratégicos”, afirmou, ressaltando que, nesse contexto, o poder de compra do Estado e a demanda pública são instrumentos fundamentais para fortalecer a base produtiva e inovativa locais e o SUS como política de desenvolvimento, bem-estar e sustentabilidade.
CEIS, política industrial e projeto nacional
A diretora científica do CNPq, Monica Felts, reafirmou o papel estratégico do CEIS na nova política industrial brasileira. Felts destacou que a articulação entre inovação, produção e acesso promovida pelo Ministério da Saúde, utilizando o poder de compra do Estado como instrumento estratégico, representa um passo decisivo na retomada de um projeto nacional desenvolvimento, capaz de fortalecer a soberania e a capacidade produtiva e inovativa do país.
Sob esse prisma, mencionou a atualidade do pensamento de Celso Furtado para orientar os rumos do Brasil no século XXI, defendendo um desenvolvimento baseado na autonomia tecnológica, na valorização da indústria nacional e no papel indutor do Estado.
Felts ressaltou o fomento do CNPq ao CEIS e à saúde digital, enfatizando a necessidade de um projeto soberano de Inteligência Artificial, capaz de articular ciência, produção e interesse público.
Saúde digital como política de Estado
A coordenadora-geral de Monitoramento e Avaliação em Saúde da Secretaria de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde (Seidigi) do Ministério da Saúde, Alessandra Dahmer, apresentou, no aguardo da secretária Ana Estela Haddad, um balanço das ações da Secretaria, evidenciando iniciativas que integram saúde digital, inovação e soberania:
• Meu SUS Digital, com diretrizes de segurança e soberania de dados;
• Sala de Apoio à Gestão Estratégica (Sage), qualificando a tomada de decisão;
• Infraestrutura de Dados Espaciais (IDE-MS), alinhada à INDE – infraestrutura nacional;
• Incorporação de dados da Agência Nacional de Saúde (ANS);
• Expansão da Telessaúde para regiões com menor acesso;
• Canal digital com o cidadão, do agendamento à avaliação;
• Painéis de monitoramento e equipes especializadas em transformação digital;
• Projetos de IA sob governança pública.
Em sua exposição, após a apresentação dessas iniciativas, Ana Estela Haddad reforçou que a defesa dos dados em saúde é estratégica para a soberania sanitária e o desenvolvimento nacional. Ela enfatizou a centralidade de uma nuvem soberana para abrigar os dados governamentais e reconheceu a importância do Programa Genoma Brasil, destacando a liderança de Gadelha e do legado da ex-ministra da Saúde Nísia Trindade, bem como a contribuição de ministros como Alexandre Padilha, José Temporão e Humberto Costa, na construção institucional da agenda de saúde digital.
Fundamentos político-teóricos para a era digital
A última exposição coube ao professor titular de Epidemiologia em Saúde Coletiva da UFBA Naomar de Almeida Filho, que defendeu a abertura de agendas capazes de conectar pesquisa, política pública e fundamentos político-teóricos para a era digital. Segundo ele, é necessário construir uma teoria crítica para orientar a transformação digital do SUS e incorporar soberania tecnológica à sua concepção, assim como ocorreu na formulação original do sistema. Naomar fez um alerta contra soluções rápidas e tecnocráticas que não se sustentam estruturalmente, apontando o papel estratégico do Complexo Econômico-Industrial da Saúde.
Para ele, os princípios do SUS – universalidade, integralidade e equidade – precisam ser ressignificados e reforçados continuamente no ambiente digital, articulando acesso de qualidade, justiça social e sustentabilidade ambiental.
Carlos Gadelha encerrou o debate, ressaltando que, para um SUS soberano, digital e comprometido com a vida, é fundamental a construção de uma estratégia de políticas públicas capaz de articular e integrar inovação, produção, bem-estar e sustentabilidade.
Assista ao webinário abaixo.