Três pesquisadores do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz — Alessandro Jatobá, Hugo Bellas e Paulo Carvalho — participaram do Joint 11th Biennial Symposium of the Resilience Engineering Association and 14th Annual Resilient Health Care Society Meeting, um dos principais encontros internacionais dedicados ao tema da resiliência em sistemas complexos.
O ponto alto da participação do CEE foi a oficina sobre resiliência em sistemas de saúde, moderada pelo pesquisador Paulo Carvalho e com apresentações da pesquisadora Robyn Clay-Williams da Macquaire University da Austrália, do doutor Ricardo Kuchenbecker do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e do pesquisador Alessandro Jatobá do CEE.
Clay-Williams apresentou o caso da “tempestade de asma” na Austrália — fenômeno em que tempestades intensas fragmentam grãos de pólen na atmosfera, provocando aumento súbito de crises asmáticas. Kuchenbecker falou das adaptações realizadas no Hospital de Clínicas durante as recentes enchentes no Rio Grande do Sul . Já Alessandro Jatobá apresentou o sistema de indicadores de resiliência CoReS, desenvolvido no CEE, voltado a avaliar a capacidade do SUS para o desempenho resiliente.
Após as apresentações, os participantes discutiram como diferentes eventos extremos evidenciam fragilidades, mas também ativam mecanismos essenciais de adaptação, aprendizado e coordenação.
Resiliência: um desafio global para os sistemas de saúde
A conferência reforçou que sistemas de saúde em todo o mundo enfrentam pressões cada vez mais complexas. A pandemia de COVID-19, por exemplo, revelou tanto a vulnerabilidade das estruturas de governança, quanto a extraordinária capacidade de adaptação das organizações de saúde. Já as recentes enchentes no Rio Grande do Sul mostraram como problemas fundamentais de logística dificultam ações da Saúde e, por outro lado, revelaram como a capacidade de coordenação, monitoramento, antecipação, liderança, flexibilidade e inovação são componentes centrais do que se convencionou chamar de resiliência dos sistemas de saúde.
Durante o evento, além de abordagens que tratam a resiliência como uma propriedade reativa, acionada apenas em emergências, foram apresentados estudos, baseados em evidências, que indicam que a resiliência é contínua e se manifesta na gestão cotidiana dos serviços. Processos rotineiros — como comunicação interna, aprendizado e gestão da variabilidade — tornam-se cruciais quando crises se instalam.
Um estudo de caso apresentado por Tavares et al. (2025) mostrou como um hospital brasileiro conseguiu reorganizar fluxos, ampliar comunicação e transformar rotinas de segurança em pontos estratégicos de comando durante a pandemia e durante eventos climáticos extremos. Já a contribuição teórica do ResiliSUS/CEE-Fiocruz introduz um modelo quantitativo de avaliação baseado na “volatilidade de desempenho”, indicador que mede a oscilação nas funções essenciais da saúde pública. Tal modelo redefine o conceito resiliência como a capacidade do sistema de manter funções essenciais de saúde pública em níveis estáveis, mesmo havendo variabilidade no contexto ou na demanda.
Principais insights do encontro
O encontro permitiu alguns insights, baseados em evidências, para formuladores de políticas interessados em projetar e gerir sistemas de saúde resilientes, capazes de aprender, se adaptar e evoluir em uma era de mudanças constantes.
O primeiro deles é que a resiliência precisa ser contínua, a partir das adaptações diárias e intensificações durante períodos de crises.
Outra conclusão é que a resiliência na Saúde se expressa de forma diferente conforme o estresse a que estiver submetido o sistema, tanto em condições normais como em condições de crise.
Além disso, foi entendido que a estabilidade de um sistema de saúde não significa ausência de variabilidade, mas a capacidade de mantê-la dentro de limites seguros para o seu desempenho.
Por último, concluiu-se que as crises são aceleradores de aprendizado, pois os eventos extremos impulsionam inovação, integração e revisão de processos.
Implicações para políticas públicas
De acordo com o que foi apresentado no evento, o conceito da resiliência na Saúde deve ser compreendido como uma propriedade operacional e um princípio permanente de governança para o SUS
Foram ainda ressaltados a importância do desenvolvimento de indicadores de variabilidade para monitorar funções essenciais dos sistemas de saúde; do fortalecimento da coordenação entre diferentes níveis e instituições da rede de saúde; a criação de sistemas contínuos de aprendizado a partir de crises e quase-incidentes e a priorização da equidade, protegendo populações vulneráveis nos planos de preparação e resposta.
O encontro internacional reforçou que a resiliência em saúde não é um atributo acionado apenas em situações-limite, mas um processo contínuo, que vai das microadaptações do cotidiano às transformações estruturais que ocorrem após grandes crises. As contribuições apresentadas pelos pesquisadores do CEE mostram que instrumentos de avaliação, como o CORES, e análises baseadas na volatilidade de desempenho podem apoiar gestores e formuladores de políticas a construir sistemas de saúde mais robustos, capazes de responder a eventos disruptivos e evoluir de forma equitativa e sustentável.