A turbulência que vem de dentro: resistência antimicrobiana, desigualdades e resiliência em saúde – CEE Fiocruz Ir para o conteúdo

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SUS, Saúde e Cidadania

A turbulência que vem de dentro: resistência antimicrobiana, desigualdades e resiliência em saúde



POR Alessandro Jatobá

PUBLICADO 22/09/2025

O coordenador do projeto ResiliSUS/CEE, Alessandro Jatobá, pubicou, ao lado de Anne-Sophie Jung e Victoria Haldane, o artigo A pandemia silenciosa, na edição de domingo, 3/8/2025, do jornal O Globo. No texto, os autores alertam para o avanço da resistência antimicrobiana (RAM), que atua insidiosamente e pressionará cada vez mais o sistema de saúde, levando à necessidade de se reformular a forma como entendemos e avaliamos a resiliência desses sistemas.

“A RAM atravessa setores e afeta silenciosamente os sistemas de saúde, corroendo a eficácia clínica no tratamento de infecções e agravando a carga de doenças crônicas”, escrevem. “No Brasil e em outras partes do mundo, as respostas à RAM devem se basear em uma concepção de resiliência que seja proativa, sustentável, equitativa e atenta às realidades concretas da atenção em saúde – e também aos contextos sociais e comunitários em que se realiza”.

O blog do CEE publica a seguir a versão ampliada do artigo.

A resistência antimicrobiana (RAM) é reconhecida como uma das dez ameaças globais mais urgentes à saúde no século XXI. Frequentemente descrita como uma “pandemia de queima lenta” ou “silenciosa”, a RAM carece do imediatismo dramático das doenças infecciosas emergentes, mas representa um desafio igualmente — senão mais — urgente para os sistemas de saúde em todo o mundo. Em 2019, foi associada a cerca de 4,95 milhões de mortes globalmente, superando o número de óbitos por HIV/Aids e malária combinados. À medida que a resistência bacteriana aos tratamentos continua a se expandir, nossa capacidade de oferecer cuidados seguros está cada vez mais comprometida. Como alertou o Dr. Paul De Barro, diretor de pesquisa em biossegurança da agência nacional de ciência da Austrália: “Se você achou a Covid ruim, não quer ver a resistência antimicrobiana… A Covid não chega perto do impacto potencial da RAM”.

Ao contrário de surtos isolados, a RAM é um problema difuso e estrutural, que vai além da saúde humana: os microrganismos estão profundamente enraizados nas sociedades, e a RAM está intrinsecamente conectada à transmissão de doenças zoonóticas e aos impactos ecológicos do uso de antimicrobianos. Da agricultura aos ecossistemas de águas residuais, a resistência ameaça a saúde ambiental e humana de forma complexa e abrangente. A RAM atravessa setores e afeta silenciosamente os sistemas de saúde, corroendo a eficácia clínica no tratamento de infecções e agravando a carga de doenças crônicas. Por impactar o tratamento de uma vasta gama de condições, impõe uma pressão crescente sobre todos os aspectos da prestação de cuidados. A perda da eficácia antimicrobiana desafia pressupostos fundamentais sobre a confiabilidade das intervenções médicas e compromete o funcionamento cotidiano dos serviços de saúde.

Além disso, o desenvolvimento de novos antibióticos permanece estagnado e, embora existam abordagens terapêuticas inovadoras, sua aplicação prática ainda é limitada. Em países de baixa e média renda como o Brasil — marcados por comunidades vulneráveis e grandes disparidades entre áreas urbanas e rurais — muitas pessoas não têm acesso oportuno a antibióticos de última geração ou recebem tratamentos inadequados, criando um ambiente propício à proliferação da RAM.

O que distingue a RAM das emergências agudas em saúde pública é sua temporalidade e escala. Enquanto pandemias como a Covid-19 se desdobram rapidamente, acionando respostas emergenciais, a RAM atua de forma insidiosa, drenando recursos, enfraquecendo funções dos sistemas de saúde e se manifestando em múltiplos contextos. Trata-se de uma pressão crônica e persistente, e não de um choque agudo, o que a torna um teste prolongado e sistêmico da resiliência dos sistemas de saúde. Ela se infiltra do dia a dia dos serviços e complica o planejamento de longo prazo.

A RAM nos obriga a encarar os limites dos paradigmas atuais de resiliência. Sua propagação silenciosa, seu alcance global e seu enraizamento em práticas clínicas, alimentação, clima, agricultura e dinâmicas cotidianas mostram a insuficiência de modelos reativos, centrados em eventos isolados

A RAM, portanto, exige que se reformule a forma como entendemos e avaliamos a resiliência. Esta não deve se restringir à capacidade de preparação e recuperação diante de emergências, mas incluir também a habilidade de adaptação contínua e de manutenção da qualidade e do funcionamento das funções essenciais de saúde pública sob pressões persistentes e cumulativas. Com base em um crescente corpo de pesquisas e em diálogos internacionais recentes, a resiliência deve ser compreendida não apenas como a capacidade de “retornar ao normal” após crises, mas como a negociação cotidiana de incertezas e restrições e algum nível de transformação permanente como resultado do aprendizado com as experiências – não só negativas, mas especialmente as positivas.

Profissionais de saúde, por exemplo, enfrentam a RAM não apenas por meio do cumprimento de protocolos formais, mas com ajustes situacionais na prestação de cuidados — diante de padrões locais de resistência, incertezas diagnósticas e aumento da gravidade dos casos. Essas práticas adaptativas são muitas vezes informais, guiadas pela experiência e pelas melhores informações disponíveis, diante da escassez de dados abrangentes e atualizados. Incorporar essas experiências no desenho dos serviços é fundamental para garantir recursos adequados e fortalecer a oferta de cuidados resilientes.

Além disso, é importante destacar que a resiliência não é neutra do ponto de vista político. Ela é moldada por histórias de austeridade, desigualdade estrutural e negligência institucional — muito semelhante à trajetória da própria RAM. Em certos contextos, o que parece ser resiliência — como a manutenção de serviços diante da crescente ineficácia terapêutica — pode esconder o agravamento de falhas técnicas e operacionais frente a uma ameaça existencial. As pessoas continuarão a buscar atendimento, mesmo quando infecções se tornarem difíceis ou impossíveis de tratar. Hospitais e unidades de saúde enfrentarão aumento nas falhas terapêuticas, internações prolongadas e elevação das taxas de mortalidade. Essa pressão recairá sobre sistemas já sobrecarregados, ampliando a escassez de profissionais, elevando os custos e minando a confiança na atenção prestada. Logo, resiliência não deve ser confundida com resignação diante de um cenário historicamente desfavorável.

Em última análise, a RAM nos obriga a encarar os limites dos paradigmas atuais de resiliência. Sua propagação silenciosa, seu alcance global e seu enraizamento em práticas clínicas, alimentação, clima, agricultura e dinâmicas cotidianas mostram a insuficiência de modelos reativos, centrados em eventos isolados. No Brasil e em outras partes do mundo, as respostas à RAM devem se basear em uma concepção de resiliência que seja proativa, sustentável, equitativa e atenta às realidades concretas da atenção em saúde — e também aos contextos sociais e comunitários em que ela se realiza. Sem essa transformação, a pandemia silenciosa da RAM poderá corroer, de forma invisível e contínua, os próprios fundamentos da medicina moderna.

* Alessandro Jatobá, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz); Anne-Sophie Jung, pesquisadora da Universidade de Leeds, Reino Unido; Victoria Haldane, pesquisadora da Universidade de Toronto, Canadá.

Acesse o artigo no jornal O Globo.

Reprodução do artigo no jornal 'O Globo'

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