A contribuição de uma Engenharia de Resiliência aplicada aos sistemas de saúde, que valoriza a flexibilidade e a capacidade de ajuste de processos em tempo real, foi tema de nova entrevista da série ResiliSUS Conecta, que teve como convidado o professor e pesquisador Andrew Todd, da Rhodes University, localizada na África do Sul. Ele esteve no Rio de Janeiro a convite do projeto ResiliSUS, do CEE-Fiocruz. O debate tomou como foco a resiliência apoiada pela ergonomia e pelos fatores humanos, voltada às populações vulneráveis e, em especial, à realidade do continente africano.
Participaram como entrevistadores o professor da UFRJ José Orlando Gomes, ex-presidente da International Ergonomics Association (IEA) e da Associação Brasileira de Ergonomia (Abergo); o médico e professor Paulo Antônio Barros de Oliveira, integrante da diretoria da Abergo e da IEA, ambos coordenadores da Brics Plus Network,iniciativa da IEA, que visa estabelecer essas parcerias e possibilidades de aprendizado entre os países do Brics. O pesquisador Paulo Victor Rodrigues de Carvalho, da equipe do ResiliSUS, que fez a mediação.
“O encontro se insere no processo de internacionalização do CEE-Fiocruz, que visa a um aprendizado bidirecional entre diversos países e sistemas de saúde que vêm desenvolvendo questões relativas à resiliência”, destacou Paulo Victor.
Todd explicou que a Engenharia de Resiliência não se restringe a prescrições, regras normativas e a uma abordagem top-down (de cima para baixo), sob risco de não se alcançar uma variabilidade de acontecimentos e situações, sendo, sim, necessária uma modelagem que leve em conta a vida real.
“É sobre o poder do que podemos fazer para nos preparar, para sermos adaptáveis”, observou, enfatizando a importância desse entendimento, sobretudo quando se trata de populações e países com desigualdades estruturais.
“Usando ferramentas de modelagem, precisamos ser capazes de entender restrições e possíveis fatores sistêmicos que influenciam a capacidade de sermos responsivos, adaptáveis, de realmente trazer as características da resiliência para as pessoas que precisam disso”, prosseguiu Todd.
Conforme pontuou o pesquisador, o Brasil e a África do Sul compartilham muitos desafios na organização de seus sistemas de saúde. A África do Sul, informou, tem 11 línguas oficiais, tratando-se de um país multicultural, onde “a multiplicidade é ainda mais estrutural do que no Brasil”, o que torna as características de resiliência “muito importantes sob essa perspectiva”.
Todd descreveu algumas características da atenção à saúde em seu país e seu continente, que enfrenta tripla carga de doenças na África, com amplo setor de saúde pública que presta serviços à maior parte da população, mas com sobrecarga de trabalho dos profissionais, em número inferior ao necessário.
Ele apontou também as marcas do Apartheid, com segregação racial e geográfica, sobre a organização urbana e o sistema de saúde de seu país. Conforme relatou, a divisão territorial das cidades sul-africanas baseia-se na raça. “Unidades formais de saúde com estruturas completas e hospitais foram historicamente alocados nas áreas nobres e antigamente habitadas pela população branca – locais onde também se concentravam comércios e instituições tradicionais”.
Já a população negra, prosseguiu, foi “empurrada” para os townships (bairros periféricos e informais), com oferta de infraestrutura de comércio, educação e saneamento inferior, precisando conviver, ainda, com a imposição da língua inglesa, a oficial das estruturas formais. “Isso criou barreiras profundas de comunicação que precisam ser transformadas para que o atendimento de saúde de fato alcance as regiões onde vive a maior parte da população”, avaliou.
Ele mencionou a iniciativa brasileira dos agentes comunitários de saúde, dentro da Atenção Primária, e a proximidade desses profissionais com a população, especialmente, o fato de residirem dentro da comunidade que atendem. E comparou com a experiência de seu país, que, no enfrentamento do cenário que descreveu, também se apoia em uma rede de agentes comunitários e programas como distribuição e acompanhamento de tratamentos antirretrovirais, na atenção à saúde.
Todd foi indagado sobre as relações entre crise climática e as pesquisas em ergonomia, fatores humanos e demandas sociais, em um contexto de escassez crônica de água, falta de energia elétrica e intensificação de desastres ambientais, como incêndios e secas severas, gerando forte impacto nos sistemas de saúde. Para ele, o papel das universidades é “crucial”, ainda que instituições de prestígio internacional, como a Universidade da Cidade do Cabo (UCT) – “historicamente voltada à elite branca” –, também enfrentem “processos lentos de transformação interna”. “O desafio está em modificar a ética da produção científica: migrar de uma abordagem extrativista de pesquisa sobre as pessoas para uma lógica de pesquisa feita com as pessoas“, propôs.
O entendimento de que a produção de conhecimento deve voltar-se ao desenvolvimento da comunidade onde se desenvolve e do sistema de saúde local, relatou, o trabalho que vem sendo realizado passou a adotar uma visão “baseada em forças e ativos”, identificando e potencializando as capacidades e a resiliência da força de trabalho local, em vez de uma “perspectiva tradicional baseada exclusivamente em déficits (focada apenas em apontar falhas, escassez)”.
Nesse sentido, os pesquisadores de seu grupo introduziram a Engenharia de Resiliência e o modelo Systems Engineering Initiative for Patient Safety (Seips), que compreende o ecossistema de trabalho a partir de componentes interdependentes: pessoas (profissionais que atuam na linha de frente); tarefas (atividades e obrigações técnicas sob responsabilidade da equipe); ferramentas
(recursos e tecnologias utilizados no dia a dia); organização (estruturas organizacionais e fluxos de trabalho estabelecidos); e ambiente físico e social (espaço e contexto sociocultural em que o trabalho ocorre).
De acordo com Todd, a aplicação desse modelo proporcionou uma “mudança drástica” na cultura organizacional e na comunicação com a secretaria regional de Saúde (distrito sanitário). “Os gestores do escritório regional adotavam uma postura puramente burocrática, focada em recolher indicadores das clínicas sem compreender a realidade local. Ao começarem a ouvir e a compreender os relatos das equipes de saúde sob a ótica dos fatores humanos, a relação tornou-se colaborativa”, apontou.
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