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Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS)

Complexo Econômico-Industrial da Saúde: pesquisadores do CEE-Fiocruz visitam instituições estratégicas de Pernambuco em prol da soberania nacional


Homens e mulheres estão em pé tendo ao fundo a logomarca da Hemobrás
A equipe do GPCEIS/CEE em visita à Hemobrás, uma das instituições do roteiro de três dias em Pernambuco, para identificar o potencial de impulsionar o desenvolvimento nacional (Foto: GPCEIS/CEE)

POR Anna Durão

PUBLICADO 16/04/2026

Com foco em prospecção estratégica e fortalecimento da agenda de pesquisa, o Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS), do CEE-Fiocruz, realizou, entre 25 e 27 de março, uma imersão em Pernambuco voltada à identificação de capacidades produtivas, tecnológicas e institucionais com potencial de impulsionar o desenvolvimento nacional.

Mais do que uma visita técnica, a iniciativa configurou-se como um exercício de análise prospectiva no território, articulando conhecimento científico, política pública e realidade regional. Participaram o coordenador do GPCEIS, Carlos Gadelha, a coordenadora-adjunta, Juliana Moreira, e 15 pesquisadoras e pesquisadores.

Ao longo de três dias, o grupo esteve em contato com instituições estratégicas da região, aprofundando o entendimento sobre suas capacidades e ampliando articulações institucionais voltadas ao avanço do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).

Conforme pontua o grupo, a experiência reafirma um princípio central do CEIS: não há inovação relevante sem conexão com o território e com as necessidades concretas do SUS, contribuindo para orientar agendas de pesquisa e de políticas públicas comprometidas com a soberania, a sustentabilidade e o bem‑estar.

A equipe do GPCEIS/CEE em visita à Hemobrás (Foto: GPCEIS/CEE)

Hemobrás

Um dos pontos visitados pela equipe, a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás) é exemplo expressivo de como a política industrial pode ser orientada a partir das necessidades sociais. Localizada no município pernambucano de Goiana, a empresa pública federal vinculada ao Ministério da Saúde abriga a maior planta de hemoderivados da América Latina, dedicada à produção de medicamentos biotecnológicos essenciais para o SUS.

Instalada em uma região historicamente marcada pela monocultura canavieira, a Hemobrás vem promovendo transformações estruturais no território, com impacto direto sobre emprego, renda e dinamismo econômico local.

Os visitantes percorreram áreas estratégicas da empresa, incluindo os setores de Recombinantes, Hemoderivados, Assuntos Regulatórios e Controle de Qualidade, permitindo uma visão integrada das capacidades instaladas.

Entre os principais produtos fabricados pela Hemobrás está o Fator VIII Recombinante (Hemo-8R), utilizado no tratamento da Hemofilia A – doença em que o Brasil ocupa a quarta posição mundial em número de casos. A produção nacional desse medicamento representa um avanço estratégico para o CEIS, fortalecendo a soberania tecnológica e reduzindo a dependência externa.

Até março de 2026, a Hemobrás já havia ofertado ao SUS 2,8 bilhões de frascos de hemoderivados, utilizados no tratamento de imunodeficiências, distúrbios de coagulação e outras condições graves, além de 8,5 bilhões de unidades de Hemo-8R.

O impacto também se estende à cadeia produtiva local, estimulando a qualificação tecnológica de fornecedores regionais. Além disso, a Hemobrás articula-se com cerca de 80 hemocentros em todo o país, consolidando uma rede estratégica para o processamento de plasma e a produção de medicamentos.

É impressionante ver o maior empreendimento de engenharia genética da Zona da Mata nordestina: um projeto político viabilizado por meio da Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) para o Hemo-8R e pelo desenvolvimento tecnológico no processamento de plasma”, observou Carlos Gadelha durante a visita, destacando o caráter estratégico do empreendimento e seu significado político e social. “O sonho de Betinho – de que o sangue da população brasileira não fosse tratado como mercadoria – está sendo realizado”, disse, em referência ao sociólogo e ativista Herbert de Souza, que contraiu o vírus HIV em transfusões realizadas no contexto de seu tratamento para hemofilia, tornando-se símbolo da luta pela proibição da comercialização de sangue e derivados no Brasil e da defesa do sangue como um bem público, seguro e de acesso universal.

“As plantas que vocês viram aqui não deixam nada a qualquer outra do mundo. Visitamos uma fábrica de hemoderivados na China e ficamos felizes em constatar que a Hemobrás é equivalente”, destacou o conselheiro da Hemobrás Kaueh Jovino, que acompanhou a visita e está à frente do Projeto Betinho de empreendedorismo social.

Com a inauguração, em 2024, da fábrica do Projeto Buriti – voltada à produção de Fator VIII Recombinante –, a Hemobrás avança na meta de nacionalizar integralmente a produção, reduzindo a dependência de importações e fortalecendo a soberania nacional no campo da saúde.

A equipe do GPCEIS/CEE em visita ao Lafepe (Foto: Divulgação/Lafepe)

Lafepe

Outro destino da visita foi o Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco Governador Miguel Arraes (Lafepe), em Recife, o segundo maior laboratório público do país, combinando capital público e privado. De acordo com a equipe, o Lafepe “evidencia a força histórica e contemporânea dos laboratórios públicos na sustentação do SUS”.

O laboratório desenvolve, produz e comercializa fármacos, medicamentos e óculos, atendendo diretamente às demandas do SUS. Sua produção anual alcança cerca de 250 milhões de comprimidos, além da entrega mensal de aproximadamente 3 mil óculos destinados à população de baixa renda e estudantes da rede pública.

Para os pesquisadores, o Lafepe ocupa “um lugar histórico no desenvolvimento do CEIS no Brasil”. Em 2016, destacaram, tornou-se o primeiro laboratório público do país a internalizar todas as etapas de uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) de base química. A cooperação com a empresa farmacêutica Cristália possibilitou a produção nacional da clozapina, medicamento essencial para o tratamento de transtornos mentais graves. O laboratório também se destaca internacionalmente por ser um dos poucos a fabricar o benznidazol, utilizado no tratamento da doença de Chagas.

Durante a visita à linha de produção, a diretora Técnica Industrial, Bety Senna, destacou a trajetória institucional: “Eu vi as primeiras internalizações de PDPs e pude acompanhar a evolução de toda a política do CEIS no Lafepe. A gente vê na prática que dá certo”.

O impacto do laboratório no SUS é expressivo. Dos 22 medicamentos que compõem o coquetel utilizado no tratamento da Aids no Brasil, cinco são adquiridos do Lafepe. A instituição também produz fitoterápicos, suplementos e medicamentos voltados à saúde mental. Durante a pandemia de Covid-19, destacou-se pela rápida resposta à crise sanitária, produzindo cerca de 400 toneladas de álcool em gel em um curto período, mesmo diante da escassez de insumos.

Outro ponto relevante observado pelos visitantes foi a modernização da infraestrutura laboratorial, com a incorporação de novos equipamentos. Esses investimentos foram viabilizados por meio do Programa para Ampliação e Modernização de Infraestrutura do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (PDCEIS), iniciativa do Governo Federal alinhada ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), voltada à ampliação da capacidade produtiva, tecnológica e de inovação em saúde.

O Lafepe também mantém parcerias estratégicas com instituições de ensino, como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de cooperações com empresas públicas locais e iniciativas voltadas à sustentabilidade, incluindo o uso de gás natural em seus processos produtivos.

“O Lafepe é ouro. Pudemos perceber de perto o compromisso e o propósito que orientam esse trabalho, contribuindo para a construção de uma sociedade baseada em valores humanos, solidariedade e igualdade”, salientou Carlos Gadelha, ressaltando papel social da instituição: “A proposta é pensar o sistema social e a produção voltados para o bem-estar das pessoas. O mundo se industrializou, mas muitas necessidades básicas ainda não são atendidas. Por isso, é muito gratificante ver que o Lafepe produz medicamentos para Aids, hanseníase e que está entrando no campo da saúde mental”.

A equipe do GPCEIS/CEE em visita à Sudene (Foto: GPCEIS/CEE)

Sudene

A equipe visitou também a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), sendo recebida pelo superintendente Francisco Alexandre e por integrantes da diretoria. Durante o encontro, Carlos Gadelha apresentou o CEIS como eixo estruturante para o desenvolvimento regional, destacando a articulação entre inovação, produção e inclusão social e colocando o GPCEIS à disposição para construir agendas conjuntas que contribuam para o fortalecimento dessa agenda no Nordeste.

“Acreditamos que o Nordeste precisa ocupar um papel estratégico nas áreas de ciência, inovação e nas questões ambientais. Estimular o sistema produtivo em saúde é uma forma de gerar emprego, renda e desenvolvimento tecnológico para o bem-estar das pessoas”, afirmou.

A diretora de Administração da Sudene, Teresa Oliveira, ressaltou o potencial da cooperação institucional: “A aproximação com o GPCEIS é muito positiva. A visita fortalece nosso plano de desenvolvimento regional. Esperamos poder desdobrá-la em novas agendas”.

A equipe do GPCEIS/CEE em visita ao iCEIS (Foto: GPCEIS/CEE)

iCEIS/UFPE

A visita ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do CEIS (iCEIS), rede de pesquisa sediada na UFPE, focada em inovação e produção de insumos de saúde, evidenciou o papel central da ciência como motor do desenvolvimento no âmbito do Complexo da Saúde. Criado em 2022, o iCEIS foi o primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) dedicado ao CEIS no país, operando em colaboração com diferentes setores, incluindo governo, empresas públicas e privadas, agências de fomento, movimentos sociais e instituições acadêmicas.

Estruturado em três eixos de pesquisa — Insumos e Ativos para a Saúde; Computação Biomédica e Bioengenharia; e Medicamentos e Tecnologia Farmacêutica —, o iCEIS reúne ampla rede composta por 37 instituições, sendo 23 nacionais e 14 internacionais, além de cerca de 130 laboratórios e mais de uma centena de pesquisadoras e pesquisadores atuando em áreas estratégicas.

Durante a visita, parte dessa rede apresentou seus projetos e resultados, evidenciando o potencial da ciência brasileira para gerar soluções inovadoras com impacto direto na sociedade. Entre os exemplos destacados estão o desenvolvimento de curativos à base de biopolímeros e produtos para o cuidado em saúde derivados de plantas nativas da região, integrando conhecimento científico, necessidades da população e sustentabilidade.

“Este é um momento de interação entre redes de pesquisa que se complementam, se somam e se fundem na construção de uma ciência que se transforma em política pública e desenvolvimento territorial”, celebrou a coordenadora científica do instituto, Monica Felts, destacando a relevância do encontro.

Também integram a coordenação do iCEIS José Lamartine Soares Sobrinho, Luiz Alberto Lira Soares e Wellington Pinheiro dos Santos.

A pesquisadora do GPCEIS e gestora no Complexo Hospitalar e da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Clarice Araujo ressaltou o potencial transformador das iniciativas apresentadas: “Exemplos como curativos à base de biopolímeros e produtos derivados de plantas nativas mostram como o cuidado pode ser orientado pelas necessidades das populações, integrando ciência, saúde e sustentabilidade. Isso fortalece o uso da biodiversidade como potência para o cuidado e para a economia. Como pernambucana, é especial reconhecer essas potencialidades no meu território”.

Essas iniciativas apontam para um modelo de inovação enraizado no território e orientado às necessidades da população, reforçando uma mensagem estratégica: o futuro do CEIS passa pela integração entre redes científicas, políticas públicas e demandas sociais.

Carlos Gadelha profere a palestra “Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS): uma nova aposta no Nordeste no contexto da transformação digital”, no Porto Digital (Foto: GPCEIS/CEE)


iCEIS Talk/Porto Digital

A programação incluiu um debate realizado no Porto Digital, que ampliou a dimensão prospectiva da visita, trazendo para o centro da discussão o futuro da indústria da saúde, com jovens pesquisadoras e pesquisadores que lotaram o auditório. Carlos Gadelha destacou a importância de uma visão estratégica capaz de articular produção e inovação às necessidades concretas da sociedade brasileira, ressaltando o papel central do CEIS para impulsionar o desenvolvimento nacional.

“Hoje discutimos com essa moçada talentosa que está estudando a saúde como podemos gerar mercado, emprego e oportunidade e contribuir para transformar o Brasil em um país mais inovador, equânime e soberano”, afirmou.

O debate contou com a participação do presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, Anderson Gomes, e do presidente da Datamétrica, de Alexandre Rands. A mediação foi de Amanda Xavier (iCEIS/UFPE), e a organização do evento ficou a cargo de Monica Felts e Fernando Sales, cientista sênior do Porto Digital e professor da UFPE.

O encontro reforçou a importância de formar novas lideranças comprometidas com um projeto de desenvolvimento soberano.


Resultados

A imersão em Pernambuco confirma o potencial do Nordeste como polo estratégico do CEIS, com elevada densidade institucional, aliada a expressiva capacidade produtiva, tecnológica e científica. As plantas industriais e as instituições visitadas são uma demonstração de que é possível estruturar políticas de desenvolvimento regional que articulem inovação, produção e necessidades sociais.

Ao longo das atividades, ficou evidente a centralidade do SUS como indutor do desenvolvimento, orientando a dinâmica produtiva a partir das necessidades sociais. Essa lógica – em que a demanda social orienta a política industrial – é um dos diferenciais estruturantes das políticas do CEIS.

O GPCEIS constatou que as políticas públicas nas instituições visitadas têm ampliado a autonomia produtiva, fortalecido a capacidade tecnológica e expandido o acesso a produtos estratégicos, reafirmando o CEIS como instrumento de soberania sanitária.

Entre os principais desafios identificados, destacam-se a baixa escala dos produtores públicos e limitações na produção de IFAs. Esse cenário reforça a necessidade de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da base produtiva e ao adensamento tecnológico do CEIS, ampliando a capacidade de atendimento ao SUS.

Também foi identificada a necessidade de avançar na integração das agendas digital e ambiental, ainda incipientes no âmbito do CEIS, mas fundamentais para sustentar um modelo de desenvolvimento inovador e sustentável.

A coordenadora-adjunta do GPCEIS, Juliana Moreira, destacou o impacto da imersão para o cotidiano da equipe e para o próprio programa de pesquisa:

“Essa experiência é fundamental para fortalecer a práxis do nosso programa de pesquisa. O contato direto com a realidade permite reorientar perguntas, métodos e prioridades”, observou. “No GPCEIS, não podemos ter uma visão apenas economicista – a demanda do SUS precisa ganhar cada vez mais protagonismo na definição da agenda de pesquisa e de políticas públicas. As visitas mostram que é possível estruturar políticas com forte base regional, mesmo em contextos sem vantagens competitivas prévias, como no caso da Hemobrás. Ao mesmo tempo, reforçam a importância de incorporar indicadores baseados nas necessidades do SUS e nos impactos sanitários, sociais e territoriais, fortalecendo tanto a produção de conhecimento quanto as políticas públicas”.

No encerramento da visita, o coordenador Carlos Gadelha destacou que imersão em Pernambuco não apenas analisou o presente, mas projetou, de forma estratégica, caminhos concretos para o futuro: “O GPCEIS é um grupo acadêmico diretamente vinculado à política industrial de inovação em saúde. O Brasil precisa produzir – e produzir com base em conhecimento, soberania e compromisso social. Nesse sentido, o CEIS reafirma seu compromisso com o Nordeste, colocando-se à disposição para contribuir com a construção de um novo Projeto Nacional, capaz de articular ciência, tecnologia, produção e sustentabilidade ambiental em favor do bem-estar da população”.

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