No artigo abaixo, para o site do CEE-Fiocruz, os pesquisadores Danielly P Magalhães e Luiz Augusto Galvão fazem um balanço da COP30, com seus avanços, estagnações e desafios. Conforme apontam, embora tenha sido reafirmado no evento o compromisso de mobilizar US$ 1,3 trilhão anualmente até 2035, “não há garantias vinculantes de que essa nova promessa será diferente das anteriores”. Eles destacam, ao mesmo tempo, o protagonismo assumido pelo setor Saúde na agenda do Clima, por iniciativa brasileira, ao trazer o o SUS para o centro das discussões. “O Brasil demonstra que sistemas universais de saúde são fundamentais para a resiliência climática”, consideram.
Os autores sinalizam, no entanto, o retrocesso observado no que diz respeito aos combustíveis fósseis, com bloqueio a qualquer referência a esse respeito no texto final da COP30. Pela primeira vez, o termo foi completamente proibido em documentos oficiais.
De qualquer forma, para os autores, “com compromisso coletivo e cooperação internacional”, é possível construir sistemas de saúde resilientes, equitativos e preparados para os impactos climáticos.
Leia abaixo a íntegra do artigo.
A COP30, realizada em Belém entre 10 e 21 de novembro de 2025, chegou ao coração da Amazônia carregando a expectativa de ser a COP da Implementação. Pela primeira vez, a saúde ocupou posição central na agenda climática, não como consequência distante, mas como núcleo da crise. A localização amazônica conferiu urgência moral e política ao encontro, estimulando narrativas de justiça climática, proteção florestal e responsabilidade global compartilhada. Ao mesmo tempo, as negociações revelaram tensões profundas entre ciência, diplomacia e interesses econômicos – especialmente os ligados a combustíveis fósseis, que dominariam silenciosamente o resultado final.
Desde o início, era claro que a COP30 navegaria entre ambição e bloqueio. Assim como no primeiro Global Stocktake, concluído em Dubai, Belém expôs um paradoxo: sabemos exatamente o que precisa ser feito, mas os instrumentos multilaterais disponíveis não conseguem enfrentar pressões geopolíticas e econômicas que paralisam as decisões mais críticas.
O principal produto político da COP30 foi o Mutirão Global – unindo a humanidade em uma mobilização global contra as mudanças climáticas, apresentado como o legado simbólico do encontro. Seu texto convoca governos e sociedade a acelerar ações para manter vivo o limite de 1,5°C, ampliar resiliência, fortalecer financiamento climático e renovar o ciclo do Fundo de Perdas e Danos. Reitera, ainda, o compromisso de triplicar financiamento para adaptação até 2030/2035.
Sabemos exatamente o que precisa ser feito, mas os instrumentos multilaterais disponíveis não conseguem enfrentar pressões geopolíticas e econômicas que paralisam as decisões mais críticas
No entanto, carrega seu maior problema no próprio desenho: é completamente voluntário. Não há prazos compulsórios, metas obrigatórias ou mecanismos de monitoramento robustos. Para setores como saúde — que necessitam previsibilidade, coordenação e investimentos contínuos — instrumentos voluntários geram fragilidade estrutural. Saúde melhora com políticas sustentadas, não com recomendações aspiracionais.
A adoção dos 59 indicadores globais do Objetivo Global de Adaptação (Global Goal on Adaptation – GGA), com oito diretamente voltados à saúde, foi outro sucesso aparente. Eles tratam de mortalidade, morbidade, saúde mental, proteção de infraestrutura hospitalar e capacidade da força de trabalho. Porém, novamente, nenhum deles é obrigatório — e não vêm acompanhados do financiamento necessário para implementação nos países vulneráveis. O déficit global de adaptação permanece colossal, superando centenas de bilhões anuais.
Assim como o Mutirão Global, o GGA se consolida como ferramenta técnica promissora, mas politicamente frágil. A lacuna entre ambição científica e capacidade de execução é evidente – e, no campo da saúde, essa lacuna se traduz em vidas perdidas.
O primeiro Global Stocktake (GST), concluído na COP28 em Dubai, revelou que o mundo está drasticamente fora do curso. As Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) atuais, se implementadas, levariam a um aquecimento de aproximadamente 2,7°C até o final do século — quase o dobro da meta de Paris. O Acordo de Paris prometia financiamento climático de US$ 100 bilhões anuais dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento. Essa meta nunca foi plenamente cumprida. Na COP30, embora tenha sido reafirmado o compromisso de mobilizar US$ 1,3 trilhão anualmente até 2035, não há garantias vinculantes de que essa nova promessa será diferente das anteriores. O maior hiato não é de ambição declarada, mas de implementação real. Como enfatizou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, “é tempo de passar da reflexão para a ação”. O desafio é traduzir os 29 documentos aprovados em Belém — incluindo o Mutirão Global, os indicadores de adaptação e o Plano de Saúde — em políticas nacionais efetivas, recursos mobilizados e vidas protegidas.
“Na COP30, embora tenha sido reafirmado o compromisso de mobilizar US$ 1,3 trilhão anualmente até 2035, não há garantias vinculantes de que essa nova promessa será diferente das anteriores”
— Ministro Alexandre Padilha
O ‘Belém Health Action Plan’, marco histórico sem garantias de implementação
O ponto alto da agenda de saúde foi o lançamento do Plano de Ação em Saúde de Belém para Adaptação do Setor da Saúde às Mudanças Climáticas, no Dia da Saúde, reunindo 60 ações prioritárias para vigilância, produção sustentável, inovação, educação e fortalecimento dos sistemas de saúde. Recebeu apoio explícito da OMS, da Fiocruz, e já recebeu anúncio inicial de US$ 300 milhões da Climate and Health Funders Coalition (Wellcome, Rockefeller Foundation, Climate Works Foundation).
O Plano enfrenta o mesmo dilema estrutural do restante da governança climática: não foi incorporado formalmente ao texto negociado, não possui caráter vinculante, não recebeu endosso de muitos países e permanece mais declaratório do que operacional.
Ainda assim, criou instrumentos que podem acelerar transformações profundas — especialmente quando combinados com iniciativas científicas e educacionais globais.
O Brasil, o SUS e a Fiocruz na Liderança Global
O protagonismo brasileiro na COP30 vai além da logística de sediar o evento. Ao trazer o SUS para o centro das discussões climáticas, o Brasil demonstra que sistemas universais de saúde são fundamentais para a resiliência climática. A Fiocruz, que participou ativamente da construção do Plano de Ação em Saúde de Belém, reafirma seu papel como instituição estratégica para a saúde global. Como ressaltam pesquisadores do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, a saúde oferece uma grande oportunidade para mudança estrutural: “A partir do fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), ela será o motor para uma nova industrialização, considerando a sustentabilidade, a sociedade, a vida das pessoas e do planeta”.
A presidência brasileira da COP30, que se estende até o final de 2026, terá papel fundamental nesse processo. A Colômbia já anunciou que organizará uma conferência internacional sobre eliminação gradual dos combustíveis fósseis em abril de 2026, em Santa Marta, em parceria com a Holanda — um passo importante para manter o tema na agenda global, mesmo fora do texto oficial da COP.
Entre Ciência e Diplomacia: a coalizão global de Academias de Medicina e o Consórcio Global de Educação em Clima e Saúde
Diante de um cenário internacional marcado por incertezas, avanços parciais e baixa aderência política, o papel das consórcios e coalizões torna-se estratégico para alinhar esforços globais e transformá-los em políticas nacionais efetivas. Foi nesse contexto que, paralelamente à COP30, surgiu a Global Coalition of Academies of Medicine on Climate and Health, reunindo mais de 25 academias nacionais de medicina de todos os continentes.
Como voz institucional da ciência, a Coalizão assumiu o compromisso de fortalecer a base de evidências sobre clima e saúde, promover o intercâmbio de melhores práticas e aproximar a agenda climática das políticas de saúde. Também declarou apoio explícito ao Plano de Ação em Saúde de Belém, reconhecendo-o como uma estrutura global essencial para orientar a implementação da agenda de adaptação.
Em 11 de novembro de 2025, um webinário reuniu representantes das academias — entre eles Louise Baur (Austrália), Jaime Montoya (Filipinas), Friday Okonofua (Nigéria), Victor Dzau (Estados Unidos), Eliete Bouskela (Brasil), Sandra Cortes (Chile) e Alex Hulme (Reino Unido). O encontro destacou iniciativas nacionais e discutiu formas de harmonizar esforços internacionais.
A declaração inaugural da Coalizão, publicada na The Lancet, no artigo Uniting Academies of Medicine on Climate and Health, reforça o compromisso coletivo: “Como academias nacionais de medicina e divisões médicas de academias de Ciências, afirmamos nossa responsabilidade em avançar a saúde diante da crise climática e reconhecemos o Plano de Ação em Saúde de Belém como guia crítico para essa implementação”.
Complementando a voz institucional das academias de medicina, o Consórcio Global de Educação em Clima e Saúde (GCCHE) – sediado na Columbia University (EUA) –desempenha papel central ao capacitar a força de trabalho global em saúde para enfrentar os impactos da crise climática. Com centenas de instituições-membro em dezenas de países, o consórcio fornece às escolas de saúde e profissionais ferramentas práticas para integrar mudanças climáticas e saúde em currículos e práticas clínicas.
O GCCHE lançou em preparação para a COP30 o curso Scaling Up Health Adaptation Measures to Meet the Climate Change Challenge in the Americas – programa gratuito e virtual, conduzido em parceria com diversas organizações internacionais, entre elas a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas/OMS), o Ministério da Saúde do Brasil e institutos de saúde de outros países. O curso foi desenhado para capacitar profissionais de saúde, gestores hospitalares, planejadores de sistemas de saúde, autoridades públicas e outros atores relevantes — com foco especial na ampliação de adaptação, mitigação e resiliência dos sistemas de saúde diante da crise climática.
No contexto da COP30, o GCCHE teve participação explícita como coautoria no COP30 Special Report on Health and Climate Change – o relatório que fundamenta o Belém Health Action Plan (BHAP). Entre os autores e revisores técnicos do relatório, figuram nomes vinculados ao GCCHE, como Danielly de Paiva Magalhães, Margaret O’Donnell, Ashley Moore e Cecilia Sorensen — o que demonstra o envolvimento ativo da rede na construção da base científica do plano. Com profissionais treinados e sistemas de saúde informados, os indicadores de saúde do GGA — como morbidade, resiliência de infraestrutura, continuidade dos serviços e capacidade da força de trabalho — tornam-se alcançáveis.
Por meio de seu repositório de ensino, o Climate Resources for Health Education (CRHE), o GCCHE oferece materiais gratuitos, revisados por especialistas — slides, casos clínicos, objetivos de aprendizagem e guias de implementação — que facilitam a incorporação do tema “clima e saúde” em cursos de medicina, enfermagem e saúde pública.
Essa capacitação torna-se especialmente relevante diante dos compromissos assumidos na COP30. No caso do Belém Health Action Plan, o GCCHE pode ajudar a formar profissionais aptos a implementar vigilância epidemiológica climática, adaptar sistemas de saúde, responder a eventos extremos e integrar saúde e clima em políticas nacionais. Da mesma forma, os profissionais com formação pelo GCCHE estariam capacitados para monitorar e relatar os indicadores de saúde do GGA — como mortalidade associada a eventos climáticos, resiliência da infraestrutura e capacidade da força de trabalho.
O GCCHE transforma compromissos climáticos e de saúde – hoje muitas vezes simbólicos –em capacidade concreta, oferecendo os meios para que governos, sistemas de saúde e profissionais convertam planos ambiciosos em ações tangíveis, com impacto real na vida das populações.
O bloqueio dos combustíveis fósseis: a maior contradição da COP30
Se a COP30 avançou em saúde, ela retrocedeu dramaticamente no tema que mais impacta a saúde humana: os combustíveis fósseis. Mais de 80 países – incluindo coligações africanas, latino-americanas e europeias – defenderam um roadmap claro de eliminação gradual de petróleo, gás e carvão. Cientificamente, seria o passo mínimo para evitar colapso climático.
Entretanto, grandes produtores, especialmente a Arábia Saudita, bloquearam qualquer referência a combustíveis fósseis no texto final. Pela primeira vez, o termo foi completamente proibido em documentos oficiais, revelando o poder político do lobby fóssil. Bilhões em lucros e trilhões em subsídios globais — que chegaram a US$ 7 trilhões em 2024 — explicam a resistência.
Essa paralisia não é abstrata: ela se traduz diretamente em impactos clínicos. Sem phase-out:
- a poluição atmosférica continua causando milhões de mortes;
- ondas de calor tornam-se mais letais;
- vetores como Aedes e Anopheles expandem sua distribuição;
- doenças respiratórias e cardiovasculares aumentam;
- hospitais enfrentam demanda superior à capacidade.
A COP30 colocou a saúde no centro, mas falhou em enfrentar sua causa primária de deterioração: a dependência estrutural de combustíveis fósseis.
Florestas, Justiça Climática e Saúde: entre avanços e dependências futuras
O Brasil apresentou o Tropical Forests Forever Facility (TFFF), fundo com potencial mobilizador de US$ 125 bilhões para conservar florestas tropicais. Sua inovação está em destinar 20% dos recursos diretamente a povos indígenas e comunidades locais — uma medida coerente com as lutas destacadas no novo Fórum de Povos Tradicionais e Comunidades Locais.
A proteção florestal é questão direta de saúde: reduz poluição, regula clima local, impede queimadas, previne surtos zoonóticos e mantém segurança alimentar. Porém, o TFFF ainda depende de governança robusta e adesão ampliada dos países do Norte.
Perdas e danos, financiamento e o déficit de equidade
No tema de Perdas e Danos, a COP30 operacionalizou o fundo e aprovou as Barbados Implementation Modalities, mas sem compromissos financeiros à altura das necessidades –estimadas em US$ 724 bilhões anuais. Sem recursos, países vulneráveis não conseguem reconstruir hospitais destruídos em enchentes, responder a epidemias pós-desastre ou proteger sua população.
Essa insuficiência financeira é, sobretudo, uma crise de equidade em saúde.
A crise climática é uma crise de saúde – e o tempo está acabando
A crise climática já se consolidou como uma crise de saúde pública — e os resultados da COP30 deixaram isso mais claro do que nunca. Ondas de calor cada vez mais intensas, a expansão de doenças transmitidas por vetores, desastres naturais, deterioração da qualidade do ar e o colapso de sistemas de saúde vulneráveis mostram que a saúde humana está diretamente ameaçada pelas mudanças no clima.
Apesar de avanços simbólicos como o Belém Health Action Plan e o reconhecimento formal da saúde como eixo de adaptação – as decisões tomadas permanecem condicionais, voluntárias e dependentes da vontade política de cada país. Os vetores do sistema internacional, especialmente os interesses econômicos vinculados aos combustíveis fósseis, continuam bloqueando a adoção de medidas vinculantes para mitigação. Para a saúde global, isso representa risco real de que as promessas fiquem apenas no papel, enquanto vidas seguem sendo perdidas.
O futuro dependerá da nossa capacidade de transformar esses compromissos em políticas públicas concretas e sustentadas – e sobretudo da coragem para enfrentar o poder do lobby fóssil que ameaça a saúde de populações inteiras e a integridade de ecossistemas essenciais.
Nesse contexto, a presidência brasileira até 2026 assume papel decisivo. Instituições como a Fiocruz, o SUS, as academias de medicina reunidas na Global Coalition of Academies of Medicine on Climate and Health, e o Global Consortium on Climate and Health Education (GCCHE) — unindo ciência, educação, solidariedade e compromisso social – serão fundamentais para que a ambição da COP30 efetivamente se traduza em proteção de vidas.
Transformar intenções em ação: esse é o verdadeiro desafio. E, com compromisso coletivo e cooperação internacional, ainda podemos construir sistemas de saúde resilientes, equitativos e preparados para os impactos climáticos – protegendo pessoas e comunidades hoje, não apenas no futuro.
* Pesquisadores sêniores da Vice-Presidência de Saúde Global e Relações Internacionais (VPSGRI) da Fiocruz.