Ir para o conteúdo

Home > CEE em Pauta

CT&I e Transformação digital

IA e desinformação: pesquisadores discutem ética, direitos, governança de dados, desigualdade e soberania



POR CEE – Fiocruz

PUBLICADO 24/06/2026

O enfrentamento à desinformação em saúde em tempos de inteligência artificial envolve pensar em ética, regulação, garantia de direitos, ampliação da participação social e uma eficiente governança de dados, voltadas à soberania digital, defenderam os participantes do webinário IA e desinformação, realizado em 2 de junho de 2026. Iniciativa da Rede Fiocruz de Saúde Digital, em parceria com o Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, o webinário reuniu os pesquisadores Manoel Barral, da Fiocruz Bahia e do CEE-Fiocruz; Alexandre Chiavegatto Filho, do Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde da USP (Labdaps/USP); Pamela Pinto, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica da Fiocruz (Icict/Fiocruz); e Bruno Nunes, da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos EUA, com mediação da jornalista Elisa Andries, vinculada à presidência da instituição.

Ao abrir o evento, a vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Marly Cruz, destacou a importância do webinário como um espaço de reflexão sobre os impactos da inteligência artificial na saúde em um contexto marcado pela transformação digital, em meio à desinformação e a desafios globais, como guerras, crises climáticas e violência. 

Marly defendeu a ampliação do aprendizado, “para termos um uso mais saudável” das ferramentas da IA e para que “suas potencialidades de inovação” sejam colocadas a serviço do enfrentamento “de um contexto tão adverso de ameaça às nossas políticas púbicas e das grandes conquistas na saúde pública”. A vice-presidente também destacou o fortalecimento da agenda institucional da Fiocruz na área, mencionando o trabalho da Rede de Saúde Digital e o recente lançamento do edital Inova Saúde Digital como iniciativas estratégicas para impulsionar o desenvolvimento e a aplicação de soluções digitais na Fundação.

O diretor do Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde da USP, Alexandre Chiavegatto Filho apresentou um panorama sobre o avanço da inteligência artificial (IA) na saúde, destacando os fatores que impulsionam o crescimento acelerado da área: a expansão da disponibilidade de dados, o aumento da capacidade computacional e os avanços técnicos dos próprios algoritmos. Ao falar da IA generativa e da IA preditiva, explicou que a primeira, a partir dos dados digitalizados e disponíveis na internet, consegue resumi-los e disponibilizá-los, contribuindo dessa forma para a gestão de recursos e serviços e na redução de tarefas burocráticas. 

Sublinhou, entretanto, que a transformação mais profunda do setor virá da capacidade dos algoritmos preditivos, capazes de identificar riscos, antecipar eventos clínicos e apoiar decisões baseadas na análise de grandes volumes de dados de pacientes. “O maior benefício de toda a inteligência artificial em todas as áreas vai ser essa terceira subárea da Saúde, que é o auxílio à atenção clínica, no diagnóstico e prognóstico de pacientes”.

Conforme observou, essa é uma área em que a pesquisa tem avançado muito, mas que ainda enfrenta desafios. Segundo ele, estudos conduzidos pelo laboratório que coordena têm mostrado que modelos treinados em grandes centros nem sempre apresentam o mesmo desempenho em outras realidades brasileiras, o que exige estratégias de adaptação e aperfeiçoamento local. Apesar dos obstáculos, Chiavegatto manifestou otimismo quanto ao potencial do Brasil para desenvolver soluções inovadoras em IA na Saúde. “Temos muito otimismo em relação ao potencial do Brasil de criar algoritmos superpoderosos”, capazes não apenas de responder à diversidade do sistema nacional, mas também de contribuir para avanços em escala internacional.

A pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Comunicação em Saúde do Icict/Fiocruz, Pâmela Pinto, defendeu que o enfrentamento à desinformação em saúde deve partir da garantia de direitos fundamentais e de uma agenda de soberania digital. “Quando falamos hoje do enfrentamento à desinformação sobre saúde, temos que pensar em direitos básicos a serem respeitados, como o direito à comunicação e o direito à saúde. E esse olhar precisa ser articulado com a ideia de regulação desses espaços digitais”, considerou. Segundo a pesquisadora, a desinformação, isto é, “informações, intencionalmente ou não, falsas promovem lucro de alguns atores interessados e desacreditam as nossas autoridades sanitárias”. Ela também alertou que “a desinformação sobre saúde no Brasil é marcada por interesses mercadológicos, sejam lícitos ou ilícitos, e interesses políticos”, afetando diretamente a confiança no SUS e nas estratégias de saúde pública.

Pâmela enfatizou que o enfrentamento à desinformação deve estar baseado na garantia de direitos e na ampliação da participação social. “Quando se fala, hoje, do enfrentamento à desinformação em saúde, temos que pensar em direitos básicos que nós temos que ter respeitados, como o direito à comunicação e o direito à saúde. E esse olhar precisa ser articulado com a ideia de regulação desses espaços digitais”, afirmou. “É importante que a gente se aproprie dos espaços na comunicação cidadã, na comunicação pública”, defendendo que “a construção da soberania digital, de uma tecnologia a favor do desenvolvimento social, da busca da diversidade, demanda maior debate público”. 

Para a pesquisadora, “é importante trabalharmos esse olhar extramuros com as comunidades, com atores em diferentes cenários do nosso país-continente” e “estimular essa participação social de diferentes perspectivas e atores”, sendo o debate sobre o direito à comunicação e o direito à saúde central nesse processo.

O professor Manoel Barral abriu sua exposição com um alerta e uma afirmação: “A IA é muito eficiente e também muito perigosa. Nós temos que realmente temer o mau uso dela”, apontou, para acrescentar: “Porém, não temos tempo para pensar que vamos impedir a IA, e nem devemos, porque ela tem muitos aspectos positivos”. 

Para Barral, é preciso ao mesmo tempo buscar uma regulamentação e um controle social e reconhecer a importância do desenvolvimento dessa tecnologia. “A IA não inventou a infodemia, a desinformação. O problema é que ela permite métodos muito sofisticados de criar uma falsa ilusão em quem recebe a informação”, considerou. 

Conforme informou, a estimativa é que, hoje, 80% dos brasileiros se informam apenas pelo whatsApp, “com todas as limitações e manipulações para passar informação intencionalmente falsa em vários aspectos”. Ele destacou, ainda, que a mentira se espalha seis vezes mais rápido do que a verdade. “É muito mais fácil criar uma desinformação do que desmentir. No momento e que a desinformação passa de artesanal para industrial esse problema fica mais grave”, disse.

Para o professor, responder a tudo que é falso é necessário, mas pouco eficiente e precisamos pensar em métodos de prevenção, em como podemos nos antecipar. “É preciso que as instituições, academias e sociedades comecem a ocupar espaços antes da desinformação, fazer autenticação de conteúdo, criar um observatório da desinformação, No caso da desinformação em saúde, a Fiocruz pode liderar o processo com outras instituições que já estão operando também nesse campo”, propôs.

Barral chamou atenção ao uso da IA na fabricação de dados inseridos como reais em estudos clínicos e epidemiológicos e na produção de “revistas predatórias”, publicações que circulam na comunidade científica sem controle de qualidade, gerando desinformação, em geral para “inflar currículos” em um cenário no qual a avaliação se dá pela quantidade de publicações. “A IA está abrindo um novo terreno, mas as violações éticas e científicas são velhas”. 

Em relação a propostas para o enfrentamento da desinformação no cenário atual, Barral indagou: “Quantos dos nossos cursos já implementaram letramento crítico em IA como componente curricular? Quanto desse aspecto de capacitação na prevenção antes da exposição à desinformação tem sido feito? A cada tese elaborada se pensa como as informações poderão ser mal utilizadas na rede?”. Para o pesquisador, os orientadores precisam assumir essa “primeira linha de defesa da integridade”, considerando que “a formação de comunicadores científicos é essencial”. 

Bruno Pereira Nunes trouxe para o debate, como exemplo dos efeitos da desinformação em saúde, os resultados de um estudo nacional, EpiCovid-2019, sobre a relação das pessoas (adultos) com a cloroquina, durante a pandemia, investigando se acreditavam ou não na eficácia do medicamento para tratar a Covid e os efeitos dessa “mensagem anticiência”. Conforme recordou, o Brasil, com 2,7% da população mundial, registrou 10,1% de todas as mortes por Covid no mundo. “O Brasil apresentou um dos piores resultados mundiais no enfrentamento à Covid e a desinformação teve papel central nesses resultados”.  

O estudo, financiado pelo Ministério da Saúde, foi realizado em maio e junho de 2020, em 133 municípios brasileiros. De acordo com o levantamento, um a cada dois adultos brasileiros respondeu sim ou não sei à pergunta sobre o efeito protetor da cloroquina contra o coronavírus. “Ou seja, metade da população, ou acreditava que a cloroquina poderia proteger contra o coronavírus, ou não sabia afirmar sobre essa proteção”, destacou Bruno, ressaltando que essa percepção apresentou-se de formas diferentes, de acordo com características sociais. 

“As pessoas com maior pontuação foram as que estavam em maior vulnerabilidade social. No ponto zero, tivemos os homens brancos de maior escolaridade e nível socioeconômico, e no ponto 8, as mulheres, pessoas de cor da pele preta, parda, asiática ou indígena e de menor escolaridade e menor nível socioeconômico”, relatou, informando, ainda, que essa desinformação circulou, principalmente, em mídias sociais, como whatsapp e facebook.

Ao analisarem o porquê desse resultado, relatou Bruno, os pesquisadores lembraram que a cloroquina foi defendida publicamente pelo Poder Executivo e enfatizaram a desigualdade no acesso à informação de qualidade.  “Depois que a desinformação circula, fazer o processo reverso, tentar diminuir o impacto, exige esforço muito grande, é muito difícil conseguir combatê-la”, considerou. 

Ao encerrar o debate, a jornalista e mediadora da mesa, Elisa Andries, destacou que um dos pontos mais estratégicos da discussão sobre inteligência artificial está na sua relação com a comunicação e a confiança pública. Em um cenário marcado pela rápida circulação de informações, ela observou que “a inteligência artificial passa a influenciar diretamente a forma como as pessoas acessam conteúdos sobre saúde, constroem percepções de risco e estabelecem relações de confiança com instituições, profissionais de saúde e políticas públicas”. Por isso, ressaltou, “discutir IA em saúde não é apenas discutir inovação tecnológica”, mas também “discutir ética, transparência, governança de dados, desigualdades digitais e soberania”

Para Elisa, o Sistema Único de Saúde traz para esse cenário “uma dimensão fundamental”, ao exigir que “a inovação tecnológica esteja comprometida com a equidade, a inclusão e o interesse público”. Conforme ponderou, a inteligência artificial pode representar “uma oportunidade importante para ampliar capacidades institucionais, fortalecer políticas públicas e melhorar o cuidado em saúde”, sendo necessário para isso “regulação, capacidade técnica, investimento público, produção científica nacional e desenvolvimento de estratégias que reduzam dependências tecnológicas externas”, bem como a integração entre integrar saúde pública, ciência de dados, comunicação, ética  e participação social. 

Assista à íntegra do Seminário IA e Desinformação aqui.

Assine nossa newsletter e fique por dentro dos conteúdos do CEE-Fiocruz