Ir para o conteúdo

Home > CEE em Pauta

SUS, Saúde e Cidadania

Pesquisadores do CEE-Fiocruz na 78ª Reunião Anual da SBPC, na UFF



POR Daiane Batista e Tatiana Guimarães

PUBLICADO 05/08/2026

Pesquisadores do Centro de Estudos Estratégicos Antonio Ivo de Carvalho (CEE-Fiocruz) participaram da programação da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com conferências e atividades voltadas aos temas da saúde, do desenvolvimento, da soberania nacional e da inovação.

Carlos Gadelha apresentou a conferência Ciência, soberania nacional e direito à vida, na qual defendeu o bem-estar como eixo de um novo padrão nacional de desenvolvimento sustentável. O CEE também integrou a programação da SBPC Jovem com atividades sobre o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis).

A participação incluiu ainda a conferência Poder e Complexo Industrial da Saúde, coordenada por José Gomes Temporão, e a conferência Desafios do SUS para a soberania e inclusão, em que Rômulo Paes de Sousa analisou as transformações sociais, demográficas e tecnológicas que desafiam a atualização do Sistema Único de Saúde (SUS) diante do envelhecimento populacional, da persistência das desigualdades e das novas demandas das políticas públicas.

Complexo do Bem-Estar em debate

Soberania, desenvolvimento e inclusão, temas centrais da 78ª Reunião Anual da SBPC, foram abordados na conferência Ciência, Soberania Nacional e Direito à Vida, em 28/7, apresentada por Carlos Gadelha, coordenador da Rede de Pesquisa em Desenvolvimento, Complexo Econômico-Industrial da Saúde e Inovação (Rede CEIS) e líder do Grupo de Pesquisa Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS/CEE-Ensp/Fiocruz).

O pesquisador defendeu a necessidade de inverter a lógica dominante, colocando o ser humano e o planeta no centro das prioridades econômicas. O desafio, segundo ele, é transformar o bem-estar em vetor de um novo padrão nacional de desenvolvimento sustentável. “Queremos construir um novo projeto nacional, no qual a ciência, a tecnologia e a inovação sejam parte essencial do compromisso com a vida, a soberania e o planeta.”

A discussão se dá em meio ao aprofundamento das desigualdades em escala mundial. Conforme pontuou, atualmente, as 12 pessoas mais ricas do planeta concentram mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade, formada por cerca de quatro bilhões de pessoas. Ao mesmo tempo, aproximadamente 3,7 bilhões de pessoas vivem em situação de pobreza e mais de 700 milhões enfrentam a fome.

Para Gadelha, esse cenário requer que o Brasil debata de forma integrada temas estratégicos como a reindustrialização, as transformações digital e ecológica e o fortalecimento da capacidade nacional de ciência, tecnologia e inovação. Nesse contexto, a saúde deve ocupar posição central na construção de um projeto de desenvolvimento capaz de articular dinamismo econômico, soberania nacional e garantia de direitos sociais e ambientais.

Conforme observou, a experiência do Sistema Único de Saúde (SUS) demonstra a possibilidade de enfrentar desigualdades, promover inclusão social e incorporar a sustentabilidade ambiental como dimensão estratégica da produção e da inovação. A perspectiva contrapõe-se às visões que tratam os direitos sociais apenas como custo que não cabe no Produto Interno Bruto (PIB).

Ao contrário, as áreas sociais e ambientais podem constituir motores de um novo padrão de desenvolvimento. A saúde, por exemplo, citou, é uma das atividades que mais geram empregos no Brasil, empregando diretamente mais de 10 milhões de trabalhadores qualificados. A ampliação do acesso à saúde também está associada ao fortalecimento de uma base produtiva, científica e tecnológica capaz de contribuir para que o país participe de forma soberana da quarta revolução tecnológica.

Nessa perspectiva, Gadelha propôs ampliar o conceito de Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) para o de Complexo do Bem-Estar, incorporando áreas como educação e cultura. Em conjunto com a saúde e as atividades de ciência, tecnologia e inovação, essa economia do bem-estar representa mais de 20% do PIB brasileiro.

Para Gadelha, essa dimensão econômica e social permite transformar lacunas históricas do desenvolvimento nacional em oportunidades para a construção de um novo projeto de país, alinhado aos desafios contemporâneos e comprometido com uma sociedade mais justa, inclusiva, sustentável e soberana.

A proposta é orientar as atividades de ciência, tecnologia e inovação para o atendimento das necessidades sociais e para a defesa da vida – das pessoas e do planeta.

SBPC Jovem

O GPCEIS/CEE realizou atividades ligadas à SBPC Jovem no estande da Fiocruz em três dias. Foi exibido um vídeo explicativo sobre o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), seguido de um jogo interativo sobre a temática. No dia 29/7, foi realizada a roda de conversa CEIS, educação e soberania nacional em saúde, com a participação de Carlos Gadelha, coordenador da rede CEIS e líder do GPCEIS da Fiocruz, Carolina Cruz, doutoranda da Fiocruz (PPGICS/CTDS), e Thalita Borges, doutoranda da UFRJ e pesquisadora do GPCEIS, e mediação de Karla Montenegro (GPCEIS/CEE). O encontro buscou promover o contato de crianças e jovens com o conhecimento científico e com pesquisadores e despertar o interesse pela ciência, tecnologia e inovação.

O fortalecimento do CEIS em debate

No dia 30 de julho, o pesquisador do CEE-Fiocruz e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão coordenou a conferência Poder e Complexo Industrial da Saúde, ministrada pelo professor Reinaldo Guimarães, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ao comentar a conferência, Temporão sintetizou que a apresentação teve como eixo a arquitetura global da indústria farmacêutica e os desafios relacionados ao fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).

Conforme destacou, a análise apresentada abordou a organização global da indústria farmacêutica e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde sob uma perspectiva crítica, considerada importante para o debate sobre o desenvolvimento do setor no Brasil.

Segundo o pesquisador, essa discussão dialoga com iniciativas voltadas ao fortalecimento do CEIS, à redução da dependência tecnológica externa e à ampliação da capacidade nacional em áreas estratégicas para a saúde. E, ainda, aponta possibilidades para a construção de arranjos estratégicos entre os setores público e privado. Esses modelos, apontou, podem contribuir para uma organização orientada por princípios como ética, garantia do acesso e direito à saúde.

O pesquisador também ressaltou que a conferência trouxe reflexões sobre aspectos da atual arquitetura global da indústria farmacêutica, entre eles, as desigualdades no acesso a tecnologias e medicamentos, as restrições de acesso e os elevados custos praticados em determinados mercados.

O SUS e as transformações sociais, demográficas e tecnológicas

O coordenador do CEE-Fiocruz, Rômulo Paes de Sousa, realizou a conferência Desafios do SUS para a Soberania e Inclusão, no dia 31 de julho. Ele analisou as transformações sociais, demográficas e tecnológicas que exigem a atualização do Sistema Único de Saúde (SUS), diante de um Brasil marcado pelo envelhecimento populacional, pela persistência das desigualdades e por novos desafios para as políticas públicas. A atividade foi coordenada pela pesquisadora de Cristiana Ferreira Alves de Brito, da Fiocruz Minas e contou com a presença do reitor da UFF, Antonio Claudio Lucas da Nóbrega.

Rômulo abordou a trajetória do SUS e situou sua criação no contexto da redemocratização brasileira, quando o país apresentava elevados níveis de desigualdade e um amplo déficit de acesso a bens e serviços públicos. Conforme destacou, o sistema integra um conjunto de políticas sociais estruturadas a partir da Constituição Federal de 1988, em um movimento que buscou ampliar a proteção social e aproximar o Brasil das democracias contemporâneas.

Rômulo observou, entretanto, que o país atual é substancialmente diferente daquele em que o SUS foi concebido. Para ele, as mudanças demográficas, sociais e econômicas ocorridas nas últimas décadas exigem atualização permanente das respostas oferecidas pelo sistema de saúde e pelas demais políticas públicas.

Entre as transformações apontadas, o pesquisador ressaltou a rápida transição demográfica brasileira. Se, no século passado, a principal mudança foi a queda da fecundidade, o desafio contemporâneo passa a ser o acelerado envelhecimento da população, sublinhou, explicando que o Brasil envelhece em ritmo superior ao de muitos outros países, o que amplia a demanda por cuidados de longa duração, reorganização dos serviços de saúde e fortalecimento das políticas voltadas à população idosa.

Na avaliação do coordenador do CEE-Fiocruz, o envelhecimento populacional deve ser acompanhado da promoção de uma longevidade saudável, capaz de preservar autonomia e qualidade de vida. Para isso, ressaltou, são importantes as estratégias de promoção da saúde ao longo de todo o ciclo de vida, e não apenas na terceira idade.

Outro eixo da conferência concentrou-se na persistência das desigualdades como elemento estruturante da realidade brasileira. O pesquisador propôs compreender a desigualdade como fenômeno sistêmico, na perspectiva de que as desigualdades também se expressam na distribuição da capacidade instalada das políticas públicas, especialmente nas regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos.

Embora reconheça avanços registrados desde a criação do SUS, Rômulo Paes avaliou que o Brasil continua apresentando níveis elevados de desigualdade, tornando a organização dos serviços públicos um dos principais desafios para o sistema de saúde. Segundo explicou, garantir infraestrutura, profissionais qualificados e oferta homogênea de serviços em um país de dimensões continentais representa uma tarefa mais complexa do que a implementação de políticas de transferência de renda.

Durante a exposição, o pesquisador também chamou atenção para a necessidade de ampliar a integração entre diferentes políticas públicas. Questões como mudanças climáticas, violência, população em situação de rua e consumo de drogas, exemplificou, exigem respostas articuladas entre saúde, assistência social, educação e outros setores do Estado. Para ele, sistemas mais integrados tornam-se condição necessária para enfrentar problemas que apresentam múltiplas causas e impactos sobre a sociedade.

Ao tratar dos processos de formulação de políticas públicas, Rômulo Paes observou ainda que as evidências científicas constituem um dos elementos que orientam as decisões governamentais, mas convivem com outros fatores presentes no processo decisório. Nesse contexto, destacou a importância de fortalecer a produção, a comunicação e a utilização do conhecimento científico na construção das políticas públicas.

Na parte final da apresentação, a discussão voltou-se para a relação entre saúde, desenvolvimento e soberania tecnológica. A partir das experiências observadas durante a pandemia de Covid-19, o pesquisador ressaltou a dependência internacional das cadeias globais de produção e defendeu o fortalecimento da capacidade nacional de desenvolver e produzir tecnologias de maior valor agregado. Segundo argumentou, ampliar essa capacidade constitui um componente estratégico para responder às necessidades da população e reduzir vulnerabilidades diante de futuras crises.

Rômulo Paes reforçou a necessidade de atualizar a agenda do SUS diante das transformações vividas pelo país. Em sua avaliação, responder ao envelhecimento populacional, enfrentar as desigualdades persistentes, integrar políticas públicas e fortalecer a capacidade tecnológica nacional constituem desafios centrais para que o sistema continue acompanhando as mudanças da sociedade brasileira.

Compartilhe

Assine nossa newsletter e fique por dentro dos conteúdos do CEE-Fiocruz