Laboratório de Inovação na Atenção Primária à Saúde: uma experiência pioneira em Campo Grande (MS)

Laboratório de Inovação na Atenção Primária à Saúde: uma experiência pioneira em Campo Grande (MS)

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Desenvolver tecnologias aplicáveis ao trabalho dos profissionais de Saúde da Família, com fácil aproveitamento na rotina das equipes, como ferramentas de formação e apoio à gestão de tecnologias leves e de conhecimento eficazes no SUS. Esse é o objetivo do Laboratório de Inovação na Atenção Primária à Saúde (Lab Inovaaps), que busca aplicar conhecimentos desenvolvidos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no dia a dia das equipes de Saúde da Família de uma grande cidade. Criado em 2019, teve início de forma pioneira em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau). A experiência foi apresentada em artigo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, lançada em 21/06/2021, na capital sul-mato-grossense.

No que diz respeito à vertente da formação, o projeto do laboratório levou à frente a criação de dois tipos de residência na cidade: Medicina de Família e Comunidade e Residência Multiprofissional. O principal desafio era dar sustentabilidade ao programa Saúde da Família em Campo Grande, formando quarenta médicos de família e comunidade, sendo que, até então, formavam-se em média seis desses profissionais. O concurso foi realizado no início de 2020, em uma parceria entre a Fiocruz e a Sesau, e os residentes foram distribuídos em nove unidades de saúde. Foi a primeira vez que todas as vagas ofertadas para residência foram preenchidas.

Para o trabalho de supervisão dos residentes, o programa conta com preceptores na orientação e acompanhamento dos alunos durante o processo formativo. Além de profissionais vindos de diversos estados do país, os melhores médicos de família de Campo Grande realizaram processo seletivo para preceptoria.

Essa residência multiprofissional já é a terceira maior em Saúde da Família do país. Contando com 76 residentes, sendo 33 de Enfermagem, 12 de Odontologia, 12 de Farmácia, seis de Fisioterapia, seis de Serviço Social, cinco de Educação Física e dois de Psicologia.

Integra também o projeto um componente que se mostrou essencial durante a pandemia de Covid-19: a teleinfectologia, um atendimento voltado aos profissionais da atenção primária, oferecido ao longo de todo o ano de 2020. Os profissionais puderam tirar dúvidas com infectologistas da Fiocruz remotamente, 24 horas por dia. Já os pacientes contam com um sistema de teleconsulta com infectologistas, quando necessário. Em telemedicina, foram criados sistemas de acesso a informações como Onde ser atendido – o usuário digita seu endereço e o sistema mostra sua unidade de referência. Em fase de implantação, temos o sistema Cuidado digital, ferramenta que possibilite a coordenação do cuidado digital dos pacientes e consequentemente melhoria dos resultados/indicadores de saúde prioritários.

Na parceria com a Sesau, o projeto inclui ainda outras estratégias de inovação, já utilizadas em municípios como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Florianópolis. Alguns dos produtos desenvolvidos nesse sentido foram: Carteira Básica de Serviços disponíveis nas unidades de saúde; Caderneta do Usuário, para auxiliar a comunicação entre usuário e unidade de saúde; catálogo de especificações de mobiliário, para padronizar mobiliários e equipamentos necessários nas unidades; manual de ambiência e outros materiais de comunicação institucional.

No apoio à gestão, dois componentes foram desenvolvidos, o Ciclo de Debates e os Seminários Accountability. O Ciclo de Debates reúne nos inícios de ano um profissional de cada unidade de saúde, indicado pelo respectivo gerente, para participar de discussão temática e levar o produto do que foi discutido à sua unidade. Os seminários Accountability funcionam como espaço de prestação de contas da unidade, onde são consolidadas todas as informações do ano e apresentadas para profissionais de saúde, usuários e gestores da Sesau.

Com relação a dados, um componente importante é o Observatório de Tecnologia, Informação e Comunicação (Otics Campo Grande), que realizou duas pesquisas: a PCATool, que avaliou os atributos da atenção primária, ouvindo os usuários do sistema de saúde em Campo Grande, e a pesquisa de opinião com os profissionais das unidades de atenção primária.    

As iniciativas implantadas com base em experiências exitosas e somadas ao conhecimento dos dados locais permitem realizar um planejamento específico para as ações. Para isso, foi desenvolvido um sistema de Tabnet próprio para Campo Grande. Nele, é possível acompanhar a tábua de mortalidade, a tábua de nascidos vivos e o sistema de informação ambulatorial. O acesso é público pela página do Labi Inovaaps e facilita a disseminação da informação no município de Campo Grande. Os indicadores podem ser vistos distribuídos por unidade de saúde, bairro e distrito e facilita a transformação dos dados em ações de saúde no território.

* Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro e pesquisador da Fiocruz; Roberto Raposo, pesquisador da Fiocruz