14º Abrascão: as crises dos regimes democráticos e sua relação com a Saúde
Do site do Abrascão 2025*
A pesquisadora do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz Antonio Ivo de Carvalho (CEE-Fiocruz) Sonia Fleury, uma das sanitaristas que criaram o Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, participou do grande debate A democracia em transe: debatendo as crises dos regimes democráticos no ocidente, realizado no final do primeiro dia do Abrascão 2025. Compartilharam a mesa o diretor executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e professor da Universidade de Buenos Aires (UBA), Pablo Ariel Vommaro; e a médica, professora, sanitarista e deputada federal (PT-MG) Ana Pimentel. A atividade, que ocupou a plenária principal do evento, foi conduzida pela pesquisadora e vice-presidente da Abrasco, Carmem Leitão.
Em sua exposição, Sonia Fleury reforçou a noção de que saúde e democracia não se dissociam. Integrante do movimento da Reforma Sanitária, ela participou ativamente da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e acompanhou o processo de redemocratização do Brasil, bem como a Constituinte. A professora elencou antigos desafios que envolvem a democracia e trouxe novas questões, como o avanço do neoliberalismo, movimentos autoritários e desafios no âmbito da comunicação digital – as big techs e os algoritmos. Uma das perguntas disparadoras do debate enunciadas por Sonia foi: “quanta desigualdade suporta uma democracia?”.
A partir desse questionamento, ela lembrou que as políticas públicas e os sistemas de saúde universais, como o SUS, estão em risco e que é preciso fazer um combate articulado. “A saúde está em ameaça e as políticas de proteção social também. A nossa luta é sempre uma luta global pelo sistema democrático e pelos direitos sociais e humanos. Vivemos isso num momento em que há predomínio do capital financeiro sobre todas as outras formas de capital, o que tem implicado em grandes transformações”, registrou.
O professor Pablo Vommaro abordou a situação de crises e constantes ameaças aos regimes democráticos na América Latina. O pesquisador mencionou a situação da Colômbia, do Brasil e da Argentina e refletiu sobre os processos que fragilizam a democracia. Vommaro ratificou que qualquer análise desses contextos não pode desconsiderar o quão complexos são esses fenômenos, com diversas crises que se atravessam, o que ele chamou, com base em diversos autores, de policrise.
“Essa crise da democracia é mais profunda. Possui atravessamentos econômicos, políticos, culturais, psicológicos entre outros. A noção de policrise permite compreender a dinâmica do mundo contemporâneo pela articulação de crises entrelaçadas”, explicou.
Fechando as exposições, a da deputada federal Ana Pimentel (PT-MG) trouxe ao debate o atual contexto político brasileiro e defendeu que o que se chama de “crise entre o Executivo e Legislativo” é, na verdade, uma estratégia da extrema direita de criar uma falso embate, enquanto esse grupo político tenta passar agendas neoliberais, com medidas de austeridade e de enfraquecimento de políticas sociais. Essa iniciativa, disse, tenta esconder o que chamou de crise do neoliberalismo.
“O que está em crise, de fato, é a legitimação do neoliberalismo. O neoliberalismo, nos termos em que se colocou para responder às demandas sociais, não deu certo. Desde 2008, isso foi, aos poucos, abrindo uma fissura social. O neoliberalismo disse às pessoas que, se elas se esforçassem e corressem atrás, teriam sucesso. A resposta aos estados nacionais foi que bastava desconstruir políticas públicas para viver numa sociedade melhor – mais financeirização seria melhor. E o que aconteceu foi o oposto. Quanto mais o neoliberalismo se aprofundou, mostrou a sua face mais perversa com o aumento da pobreza e desigualdade”, registrou.
Homenagens
Antes de a atividade ter início, a Abrasco realizou homenagens póstumas aos pesquisadores e sanitaristas Javier Uribe Antônio e Francisco de Assis Machado. Na sequência, Carmem Leitão destacou a importância do encontro e sua relação com o movimento da Reforma Sanitária, que formulou a relação direta entre democracia e saúde. “A Abrasco abraça a perspectiva de uma democracia ampla e uma democracia que se direciona à justiça social. A palavra democracia sempre é destaque nos Congressos organizados pela Associação”, enfatizou.
* Adaptado da cobertura de Daniel Lyra-Queiroz/Abrascão 2025.
Veja aqui o segundo Grande Debate na íntegra:


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