Autonomia do médico deve respeitar a ciência

Autonomia do médico deve respeitar a ciência

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Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, em 30/01/2021, seis pesquisadores destacam a obrigação dos médicos em observar as orientações da Ciência, considerando inaceitável o estímulo por esses profissionais ao uso de drogas comprovadamente ineficazes. Eles se referem, em especial, ao tratamento precoce da Covid-19, e criticam artigo do presidente do Conselho Federal de Medicina, Mauro Luiz Britto Ribeiro, em que este, entre outros equívocos apontados pelos pesquisadores, sustenta a autonomia dos médicos para fazer a prescrição. Leia o artigo a seguir e acesse os links referentes a alguns dos estudos que atestam a ineficácia do tratamento precoce.

 

Mãos com luvas brancas manuseiam utensílios de laboratório

Celso Ferreira Ramos Filho, Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro, José Gomes Temporão,
Margareth Dalcolmo, Mauro Schechter, Patrícia Brasil *

Foi com tristeza e estupefação que lemos o artigo do presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Luiz de Britto Ribeiro, publicado nesta Folha (O Conselho Federal de Medicina e a Covid-19; 25/01/2021). Seu objetivo parece ser defender a entidade dos abaixo-assinados de diversos grupos de médicos, que exigem a condenação explícita do tratamento precoce da Covid-19, em particular com a hidroxicloroquina. Ele incorre em três erros gravíssimos: primeiramente, atribui a uma suposta atitude crítica ao presidente da República, Jair Bolsonaro, a oposição ao uso da droga.

O segundo equívoco é a afirmação de não haver na literatura definição quanto à eficácia do remédio. Porém, há muitos meses os resultados de todos os estudos clínicos randomizados controlados (o padrão ouro), com poder estatístico adequado, chegaram ao mesmo resultado: a ineficácia da hidroxicloroquina.

Foi assim com o Recovery, realizado no Reino Unido e organizado pela Universidade de Oxford; com o Solidarity, conduzido em vários países, incluindo o Brasil, coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS); e no A5395, nos Estados Unidos, desenvolvido pelo National Institutes of Health. Nos três, foram incluídos aproximadamente 10 mil pacientes, desde casos muito leves até gravíssimos. Além de ineficaz, a hidroxicloroquina associou-se com maior frequência a eventos adversos e, em alguns subgrupos, com pior prognóstico.

O terceiro e mais grave erro é alegar a autonomia do médico para prescrever, visando justificar a omissão do CFM. O Código de Ética Médica é explícito ao afirmar, em seu artigo 113, ser vedado ao médico “divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente”.

As recomendações para tratamento da Covid-19 das sociedades científicas internacionais são unanimemente contrárias ao uso de hidroxicloroquina. Com certeza, os membros dos comitês que as escreveram não estavam pensando nas disputas entre apoiadores e críticos do presidente da República do Brasil.

Em sua nota, dr. Britto busca desqualificar profissionais não médicos que opinam sobre a interpretação de estudos clínicos. Ele parece ignorar que numerosos farmacêuticos, biólogos, estatísticos e enfermeiros, entre outros, participam da elaboração dos trabalhos. Portanto, estão qualificados, sim, para interpretar os resultados.

Assim, já passa da hora de dr. Britto separar a ciência da política. É inaceitável que, com mais de mil mortes por dia no Brasil, o CFM permita que médicos sigam estimulando na mídia o uso de drogas comprovadamente ineficazes (hidroxicloroquina) ou de eficácia não comprovada, como ivermectina e nitazoxanida.

*Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 30/01/2021. Celso Ferreira Ramos Filho, infectologista; Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro, imunoparasitologista; José Gomes Temporão, sanitarista; Margareth Dalcolmo, pneumologista; Mauro Schechter, i;nfectologista; Patrícia Brasil, infectologista

 

Acesse os links para saber mais sobre as pesquisas envolvendo o uso da hidroxicloroquina no enfrentamento à Covid-19

 

Recovery: No clinical benefit from use of hydroxychloroquine in hospitalised patients with COVID-19

Solidarity clinical trial for COVID-19 treatments

NIH ends key COVID-19 studies of hydroxychloroquine

The New England Journal of Medicine: Effect of Hydroxychloroquine in hospitalized patients with Covid-19 (Efeito da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados com Covid-19)

The New England Journal of Medicine: Hydroxychloroquine with or without Azithromycin in Mild-to-Moderate Covid-19 (Hidroxicloroquina com ou sem azitromicina em casos leves a moderados de Covid-19)

Nota da Sociedade Brasileira de Infectologia

Hidroxicloroquina não tem eficácia, diz maior estudo brasileiro sobre a droga

Novos artigos sobre hidroxicloroquina e Covid-19 levantam 'debate estatístico'

O Monte Olimpo e os médicos que lá habitam