Mercado, estigma e preconceito, em debate na abertura do 2º Seminário ‘A epidemia das drogas psiquiátricas’

Mercado, estigma e preconceito, em debate na abertura do 2º Seminário ‘A epidemia das drogas psiquiátricas’

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O foco na medicalização e na abordagem biomédica, em detrimento da valorização dos aspectos psicossociais no tratamento de pessoas com transtornos mentais, faz mal à saúde. O tema esteve em debate no 2º Seminário Internacional A epidemia das drogas psiquiátricas, iniciativa do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (Laps/Ensp/Fiocruz), tendo à frente os pesquisadores Paulo Amarante e Fernando Freitas, em parceria com a Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), o Conselho Federal de Psicologia (CFP), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes) e o Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz). O evento reuniu especialistas e estudantes no auditório térreo da Ensp, de 29 a 31 de outubro de 2018. A mesa de abertura contou com a presença, além de Paulo Amarante, da presidente da Abrasme, Ana Maria Pitta, do presidente do CFP, Rogério Giannini, e do diretor da Ensp/Fiocruz, Hermano Castro.

As primeiras palestras ficaram a cargo do jornalista americano Robert Whitaker, premiado por seus artigos na área médica, e o psiquiatra e professor John Read, da Universidade de East London, na Inglaterra.

Assista à integra aqui.

Em sua exposição, Robert Whitaker voltou ano de 1980 para fazer um resgate de como chegamos ao sistema psiquiátrico que temos hoje. Ele explicou que até então, a sociedade americana atribuía os problemas de ordem psicológica a questões do cotidiano, sendo somente algumas doenças mais graves diagnosticadas como “doenças do cérebro”. “A esquizofrenia, por exemplo, era vista como uma reação ao mundo e não era tratada com drogas como hoje”, relatou. “Mas a Associação Psiquiátrica Americana reconceituou a forma de encarar os problemas psiquiátricos e fez uma campanha para mudar o pensamento da sociedade”, disse.

Essa mudança, de acordo com Robert consistiu em fazer com que todos os problemas resultantes de questões do dia a dia fossem transformados pela indústria farmacêutica em doenças. “Assim, passou a ser possível aprovar drogas para tratá-las e aumentar o mercado de medicamentos”, analisou o jornalista, acrescentando que “essa ideia passou a ser um produto americano e foi exportado para o mundo”.

De acordo com Robert, vencedor, em 2010, do Investigative Reporters and Editors Book Award, pelo livro Anatomia de uma epidemia: Pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental (Editora Fiocruz), as empresas farmacêuticas passaram a pagar à Associação Americana de Psiquiatria para sustentar essa visão e a médicos e psiquiatras para levá-la às universidades, não só nos Estados Unidos, mas em nível internacional, disseminando o novo conceito. “Começamos a ouvir que pesquisadores descobriram a causa da depressão em oscilações químicas do cérebro, e que a esquizofrenia e outros distúrbios deviam-se ao nível de dopamina cerebral, apresentando medicamentos que poderiam curar essa patologia. Os artigos científicos, no entanto, não comprovavam isso. Criamos um sistema de crenças em torno de uma história falsa. Há estudos de longo prazo que mostram que mostram o contrário, mas isso fica mantido longe do público”, afirmou.

 

A incidência de doenças mentais aumentou consideravelmente desde 1987. Todos os países que adotaram o uso amplo de drogas antidepressivas tiveram um ônus. Somos seres humanos que respondemos ao nosso ambiente. Não somos uma ilha (Robert Whitaker)

Esses medicamentos, alertou Robert, foram vendidos como fármacos que não tinham efeitos colaterais, possibilitando sua prescrição para crianças. “Em 1987, gastamos 800 milhões de dólares em drogas psiquiátricas, ano em que o Prozac [medicamento antidepressivo] foi lançado no mercado”, observou, destacando que, 20 anos depois, o mercado cresceu 54 vezes, arrecadando 40 bilhões de dólares. “Hoje um em cada cinco americanos toma remédio”.

Robert apontou que essa visão propagada a partir de 1980 entrou em colapso, havendo inclusive psiquiatras negando que a tenham defendido. “A incidência de doenças mentais aumentou consideravelmente desde 1987. Todos os países que adotaram o uso amplo de drogas antidepressivas tiveram um ônus”.

Robert chamou atenção para o fato de que todos nós temos a capacidade de enlouquecer ou de funcionar muito bem. “Somos seres humanos que respondemos ao nosso ambiente. Não somos uma ilha”.

O psiquiatra e professor John Read falou sobre estigma e preconceito, ao destacar os aspectos negativos do modelo biomédico no cuidado dos pacientes psiquiátricos, em especial, aqueles diagnosticados com esquizofrenia, com os quais trabalha. “O modelo biomédico varre para debaixo do tapete questões como abuso, estresse, violência”, resumiu, apontando um estudo que que 47% dos pacientes mentais já sofreram abuso ou algum outro tipo de assédio. “O estigma e o preconceito ampliam a visão negativa que essas pessoas já têm delas próprias”.

John observou que, na área que pesquisa, a esquizofrenia, os pacientes são alvo de “combinações tóxicas” passando a ser vistos como violentos, imprevisíveis, fracos, sujos. “Estudos mostram que a reação das pessoas a eles é muito mais problemática do que os próprios problemas que têm. Essas pessoas têm 14 vezes mais chances de serem atacadas do que de atacarem pessoas”, disse, apontando, ainda, que 95% das pessoas que cometem assassinato nunca foram diagnosticadas com problemas mentais, não havendo, assim, relação entre os esses fatos. 

 

O modelo biomédico varre para debaixo do tapete questões como abuso, estresse, violência. O estigma e o preconceito ampliam a visão negativa que essas pessoas já têm delas próprias (John Read)

 

O pesquisador alertou para o erro de se considerar a doença mental como “uma outra doença qualquer”, o que leva ao uso de medicamentos para tratar o problema de forma pontual. Ele explicou ser também equivocado olhar para as pessoas com transtornos mentais como não responsáveis por suas ações. “Cada um deve ser responsável por seu comportamento. Se não, não é possível sustentar uma relação”, disse, destacando que esses pontos de vista relacionam-se à ideologia biomédica dominante, geralmente fomentada pela indústria farmacêutica.

Em 2006, John Read e mais três autores publicaram artigo de revisão analisando estudos que tomavam a doença mental como qualquer outra. Entre os resultados encontrados, 28 de 31 estudos (90%) relacionavam atitudes negativas a causas biogenéticas. “Esses profissionais em geral mostraram-se mais relutantes em levar seus clientes a frequentar serviços de saúde mental. E aí não se encontravam só psiquiatras, mas também psicólogos”, relatou John.

Outros estudos mostraram também que, ao se olhar para os pacientes sob o ponto de vista psicossocial, foi possível relacionar aos transtornos mentais fatores como bullying, rejeição parental, fracasso na aprendizagem. Já o olhar biológico resultou em explicações como baixo nível de serotonina e componentes hereditários. “Rotular o diagnóstico aumenta a crença em causas biogenéticas para os transtornos mentais e em drogas psiquiátricas como tratamento”.

O pesquisador afirmou que reduzir o estigma sobre pacientes está diretamente relacionado a um aumento de contato com eles. E relatou estudos que mostram que as pessoas com atitudes mais positivas em relação aos transtornos mentais foram as que tinham alguma familiaridade com esses problemas – por experiência própria ou por contato com pacientes.

Apresentando uma lista de diversos países em todas as localidades do mundo, John destacou que, do ponto de vista do público em geral, a crença é de que os problemas mentais são causados originalmente por adversidades, como estresse no trabalho, problemas com a criação dos filhos. Isso foi constatado na África do Sul, Egito, Fiji, China, Turquia, Malásia, Suíça, Grécia, Brasil, Itália entre outros, conforme apontou. “Coisas ruins acontecem, todos sabem disso. As pessoas não são burras. Mas há profissionais que tentam nos ensinar diferente”.

Ele trouxe percentuais de alguns países quanto à atribuição da esquizofrenia a causas psicossociais ou biogenéticas. Na Alemanha, a maioria das pessoas entrevistadas indicou como causas do problema o isolamento 73%), o desemprego (72%), estresse familiar (64%). No Japão, o percentual foi de 65%, para problemas nas relações interpessoais. Na África do Sul, 83% atribuíram as causas ao estresse psicossocial (83%). “Causas de natureza biológica ou moral foram consideradas menos relevantes”.

Em relação às pessoas diagnosticadas com transtornos mentais, o olhar foi o mesmo: causas sociais. “Eles sempre falam de coisas muito ruins que lhes aconteceram”, relatou John, destacando o que considera seu “estudo favorito”, realizado em âmbito internacional: de 306 pessoas diagnosticadas como “esquizofrênicos típicos”, 297, ou 97%, disseram não acreditar ter uma doença. Tal constatação, no entanto, longe de ser considerada positiva, foi tomada por psiquiatras como mais um sintoma da doença. “Foi considerado como falta de discernimento e sintoma da esquizofrenia! E rotulado como anosognosia, descrita como um problema no cérebro causado pelo próprio processo da doença!”.

De fato, entre psiquiatras, o olhar se modifica, e o foco nas causas biogenéticas se destaca, como apontou o pesquisador. “Para cada psiquiatra britânico que concorda com o olhar do público em geral, há 115 que têm como causa primária da esquizofrenia os fatores biológicos”, contabilizou. Em 2.813 psiquiatras, apenas 0,4% apontaram a causa primária como social; 46,1%, como biológica; enquanto 53,5% levaram ambas em conta. “Os psiquiatras impõem o modelo biológico e enganam as pessoas. E exportam isso para o mundo inteiro”.

John Read relatou, ainda, que, pagos pela indústria farmacêutica, psiquiatras vão aos lugares mais longínquos para desqualificar as terapias holísticas que lá são utilizadas. “Devíamos, na verdade, convidar outras culturas para ensinar a nós como fazem. Em vez, disso estamos exportando para eles o nosso diagnóstico. Isso me entristece muito”, criticou.

Buscando uma explicação para a valorização do modelo biológico, John falou em essencialismo, a busca por compartilhar essências, para difundir imutabilidade e naturalismo. E alertou para o uso de rótulos, tomando-se as categorias como informativas. “Elas é que nos dizem o que está acontecendo com a pessoa. Isso é o mais doentio. A pessoa tem esquizofrenia e é rotulada: é assim que um esquizofrênico faz. Como se a pessoa tivesse uma categoria dentro dela que a torna de assim”.

Para John, os sintomas de problemas mentais são mais bem entendidos se forem vistos como consequências da vida. “O estigma piora com esses rótulos”. Ele propõe “aumentar o contato” com as pessoas com transtornos mentais e abandonar as explicações da biogenética, bem como os rótulos de doenças. “Crenças biogenéticas estimulam o preconceito”. Ele finalizou citando o psiquiatra Steven Sharftein, ex-presidente da Associação Americana de Psiquiatria: “Se formos vistos como empurradores de pílulas, nossa credibilidade como profissionais estará comprometida. Temos que enfrentar a indústria farmacêutica, e admitir que permitimos que o modelo biopsicossocial tenha se tornado um modelo bio-bio-bio”. (Daiane Batista e Eliane Bardanachvili/CEE-Fiocruz)